A esperada lição papal para o novo século

 

 

Conquanto o pontificado de Francisco tenha pouco tempo, menos de seis meses, já é possível registrar mudança no cotidiano da Santa Sé ao se comparar sua gestão com a de seu antecessor, o tradicional Bento XVI.

 

Ainda que de maneira preliminar, a marca do novo pontífice busca ser a da simplicidade, condição bastante adequada em tempos de crise econômica cujos efeitos perduram em todo o globo há meia década.

 

Sua recente visita ao Rio de Janeiro, com o propósito de participar da bianual Jornada Mundial da Juventude, possivelmente embaraçou muitos dirigentes pátrios, ansiosos por partilhar seus costumes de suntuosidade administrativa, por confundi-los como rito necessário ao cargo temporariamente desempenhado.

 

Optou o religioso por acomodar-se em instalações humildes a hospedar-se no palácio apostólico e carregou ele mesmo sua mala ao dirigir-se ao avião quando do retorno a Roma. Apresentou, portanto, aos fiéis sua visão de uma Igreja dos Pobres.

 

Sua mensagem pastoral atingiu sem dúvida os católicos, mesmo os considerados relapsos, de forma imediata, visto que na missa celebrada em Copacabana estimou-se o público presente em mais de um milhão.

 

Deste modo, a postura de Francisco se aproximaria mais da bonomia de João Paulo I e de João XXIII do que da solenidade de Pio XII e do próprio Bento XVI, sem se afastar ao mesmo tempo da inquietação intelectual de Paulo VI.

 

Seus dois predecessores imediatos tiveram outras preocupações, assinaladas essencialmente no ambiente da bipolaridade política entre Estados Unidos e União Soviética durante quase cinco décadas e influenciadas bastante pela origem geográfica – Europa Central –, na qual a cultura católica sempre se diferenciou da ortodoxa, de extração russa.

 

Com a conversão da Rússia ao comunismo, a segunda metade do século XX terminou por enclausurá-los em um aferrado posicionamento antiesquerdista, não posto de lado mesmo após a eliminação do socialismo real no leste europeu.

 

A despeito da queda do muro de Berlim no final dos anos 80, tanto João Paulo II como Bento XVI não souberam ser papas de uma nova fase da humanidade, isto é, líderes conectados ao enfrentamento de questões de outra ordem, menos ideológicas e europeizadas, mais comportamentais e pastorais.

 

Guardadas as devidas proporções, o posicionamento do atual sumo pontífice resgata a proposta de João XXIII: ir à busca da união, jamais da divisão.

 

Malgrado o otimismo inicial, o fardo papal é de fato muito pesado: Francisco depara-se com escândalos comportamentais em vários países, muitos dos quais acobertados pelos superiores das dioceses, e com a crise do Instituto de Obras da Religião (IOR).

 

No caso do popularmente chamado Banco do Vaticano, Francisco nomeou uma comissão pontifical para inventariar os problemas mais graves da instituição. Com cinco membros, entre os quais dois cardeais, a única leiga é a norte-americana Mary Ann Glendon, embaixadora junto à Santa Sé entre fevereiro de 2008 e janeiro de 2009. Não será trabalho de pouca envergadura o destrince das finanças da polêmica casa bancária.

 

Por fim, aguarda-se uma igreja menos hierarquizada, com a responsabilidade de distanciar-se do período paulino-beneditino, logo, mais pastoral e não tão dependente da burocracia da cúria. Enfim, uma igreja inspirada em São Francisco de Assis, tão bem lembrado por Dante no canto XI da Divina Comédia.

 

 

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Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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