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‘Em vez da sexualidade, a Igreja deveria priorizar os problemas de justiça social’ Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Brito, da Redação   
Sábado, 03 de Agosto de 2013
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Após a renúncia do alemão Joseph Ratzinger (Bento 16) ao papado, a Igreja Católica escolheu pela primeira vez um latino-americano como sumo pontífice. Junto do cardeal Jorge Bergoglio, agora papa Francisco, veio um novo discurso, de retomada das ligações entre a instituição e os pobres, animando inclusive correntes progressistas perseguidas e excomungadas por professarem a Teologia da Libertação, responsável exatamente pela construção de uma visão e compreensão de Deus a partir dos menos favorecidos.

 

De quebra, Francisco passou pelo Brasil, por conta da Jornada Mundial da Juventude, já marcada desde antes de sua escolha, suscitando em nosso país debates sobre as questões mais urgentes na relação Igreja-fiéis. Em entrevista ao Correio da Cidadania, Regina Soares Jurkewicz, da organização feminista Católicas pelo Direito de Decidir, analisa as nuances do novo papado e as ideias até aqui transmitidas em seus primeiros dias de líder da Igreja.

 

“Em princípio, ainda percebemos um conservadorismo, que se fortalece com a presença de um papa carismático. Porque ele é diferente do Ratzinger, que propunha uma visão da Igreja que só condena. Esse papa não chega a tanto, mas a base doutrinal parece a mesma”, afirmou.

 

Apesar do discurso social mais antenado à realidade, Regina tem ressalvas a respeito de uma possível radicalização, que confrontasse inclusive os dogmas do sistema econômico vigente. Além disso, não mostra satisfação a respeito de suas posições sobre questões da esfera moral e também do papel das mulheres dentro da Igreja. “Infelizmente, ele não fez nenhum aceno positivo sobre o assunto. Até disse que o sacerdócio feminino é um assunto definido, fechado”.

 

“Precisamos de uma Igreja que olhe para a realidade, que ouça o que seus fiéis vivem e falam”, resumiu, citando pesquisa realizada pelo seu grupo, com o Ibope, na qual se atesta o amplo apoio da juventude católica em temas como o direito ao aborto, divórcio, casamento entre pessoas do mesmo sexo, liberação sexual etc.

 

A entrevista completa com Regina Soares Jurkewicz pode ser lida a seguir.

 

Correio da Cidadania: Em linhas gerais, qual o balanço que vocês, da ala progressista da Igreja, fazem da eleição e da visita do papa Bergoglio ao Brasil?

 

Regina Soares Jurkewicz: A vinda dele ao Brasil, sobretudo na Jornada Mundial Juventude do Rio de Janeiro, deixa a imagem de um papa como líder mais simpático e carismático, capaz de falar que a igreja tem de se abrir, ir para a rua, falar para os padres e religiosos estarem no meio do povo... Ele falou para a juventude de modo preocupado com os problemas econômicos, sociais, o desemprego. Estimulou a juventude a fazer protestos, lutar por uma vida diferente. Por exemplo, quando ele falou com os argentinos, disse “hagan lío”, isto é, façam confusão, mexam-se, não se acomodem.

 

O papa anterior tinha um jeito muito mais sisudo e fechado, pedia uma igreja mais espiritualista, criticando só o materialismo, o relativismo cultural... Agora vemos um papa que tem outro discurso e aparenta outra visão de igreja, que critica o clericalismo, se diz favorável à laicidade do Estado etc.

 

Portanto, tem algumas coisas que reconhecemos como positivas e podem trazer um novo ar. Bergoglio já fez algumas declarações no sentido de querer eliminar realmente a corrupção e também de combater a pedofilia na Igreja. Há várias áreas problemáticas dentro da igreja e o papa Francisco vem falando um pouco sobre elas.

 

No entanto, não podemos falar muito mais com cerca de cem dias de papado, ainda uma fase bastante inicial. Mas pelo menos no seu discurso a gente vê algumas coisas positivas. Mais positivas, inclusive, do que vimos enquanto ele foi o Cardeal Bergoglio, quando ouvíamos outras coisas não tão agradáveis.

 

Correio da Cidadania: O que teria a dizer do envolvimento e contribuição dos distintos governos para a realização de todos os eventos que marcaram sua passagem por aqui, especialmente no que se refere aos gastos financeiros?

 

Regina Soares Jurkewicz: Somos absolutamente contra. Se vivemos num governo laico, ainda que o papa também seja um chefe de Estado, porque o Vaticano tem status de nação, não se justifica um gasto tão grande num país onde há pluralidade religiosa. Não é um país totalmente católico, aliás, cada vez menos. Uma pesquisa recente do Datafolha mostra que 57% da população se diz católica, uma redução muito grande, visto que há 20 anos era 75%. São 20 unidades percentuais abaixo.

 

O que percebemos? Os protestos e as pessoas que participam dele estão corretos, têm toda a razão de cobrar do governo que não trate o dinheiro público dessa maneira, razão pela qual somos contrárias ao gasto realizado.

 

Outra coisa grave é a concordata feita entre a Igreja Católica e o governo brasileiro, já há algum tempo, muito em silêncio, pois sequer a imprensa soube ou repercutiu (o acordo de Brasil-Vaticano de 2009 estabelece o estatuto jurídico da Igreja Católica no Brasil, concedendo isenções tributárias, reconhecimento às suas instituições de ensino, cooperação na preservação de seus bens culturais, entre outros benefícios).

 

Há um tratamento muito equivocado da laicidade do Estado brasileiro e acredito que a Igreja abusa disso. É simpático que o papa seja um homem que aponte para a simplicidade, que não queira nada ostensivo, tampouco o culto à personalidade. Isso tudo é muito apreciado, mas ainda insuficiente.

 

O governo não deveria de maneira nenhuma gastar o que gastou no Rio de Janeiro. Foi um abuso. Preparou toda uma área, particular como se sabe, e não conseguiu realizar os eventos. Foi muito desagradável, além de economicamente equivocado e injusto.

 

Correio da Cidadania: Como avalia a estratégia do papa Bergoglio, e talvez da própria Igreja (que pela primeira vez elegeu um latino-americano como sumo pontífice), de se apresentar como um papa dos pobres? Esperam o fim da repressão à Teologia da Libertação?

 

Regina Soares Jurkewicz: O papa dá sinais nesse sentido. Embora o discurso seja de sensibilidade aos pobres, ainda não é um discurso, ou não apareceu como tal, que vá claramente contra as estruturas econômicas. É mais um discurso de acolhimento aos pobres, mas não uma crítica elaborada e sistemática, como aquela feita pela Teologia da Libertação. A Teologia da Libertação tinha um caminho e uma compreensão de Deus a partir dos pobres da América Latina. Vi alguns teólogos dessa corrente mostrarem esperança. Não sei. O tempo dirá. É a hora de as coisas acontecerem ou não acontecerem.

 

Mas em princípio ainda percebemos um conservadorismo que se fortalece com a presença de um papa carismático. Porque ele é diferente do Ratzinger, que propunha outra coisa, uma visão da igreja que só condena. Esse papa não chega a tanto, mas a base doutrinal parece a mesma ainda, isto é, conservadora. Bergoglio não mostrou outra base de entendimento e compreensão, mas trouxe um ambiente de mais alegria, as pessoas estão contentes com ele.

 

No entanto, é cedo pra fazer qualquer afirmação no sentido de que, de fato, teremos uma Igreja que quer se transformar, olhando novamente para a Teologia da Libertação. E, muito menos ainda, o papa sinaliza olhar para um reconhecimento da teologia feminista.

 

Correio da Cidadania: Desse modo, acredita ser difícil que seus discursos possam incluir críticas ao próprio modo de vida e produção capitalistas, uma vez que isso também esbarraria em questões incômodas à própria igreja, a exemplo das obscuridades e irregularidades relativas às operações do banco do Vaticano?

 

Regina Soares Jurkewicz: Acho que se ele quiser fazer isso, vai enfrentar uma briga. Ele falou várias vezes “rezem por mim”. É a frase mais repetida pelo papa Francisco.

 

De fato, mesmo não falando das questões da moral sexual, que vejo como mais difíceis ainda de abordar, a transformação da cúria romana e a aceitação da Teologia da Libertação são coisas que não podemos dizer que não acontecerão. Mas acho precoce falar que seu discurso a favor dos pobres signifique uma sintonia e apreciação positiva de Roma frente à Teologia da Libertação.

 

Não sei se a médio ou largo prazo isso pode ocorrer. Tomara que papas e igrejas alcancem práticas diferentes. Há grupos de cristãos que resistem bravamente dentro da Igreja, baseados no pensamento teológico da libertação. Mas são uma ala, que precisa resistir. Não dá pra dizer como será no futuro.

 

Por enquanto, pelas mensagens transmitidas, não podemos afirmar nada nesse sentido.

 

Correio da Cidadania: O que pensa a respeito das diversas acusações a respeito da relação de Bergoglio com a ditadura argentina?

 

Regina Soares Jurkewicz: É muito complicado. Não acompanhei tanto o assunto anteriormente. Mas conheço pessoas na Argentina que afirmam que de fato houve tal relação. Afirmam que ele não foi um bispo que denunciou, e sim um bispo que deixou de acolher os perseguidos, não esteve a favor dos pobres nesse sentido. Assim como já ouvi versões que negam qualquer vínculo. Não sei como apurar, não tenho elementos que me permitam fazer afirmações definitivas, apenas tenho ouvido falar.

 

Mas é muito grave. Se de fato houve vínculo com a ditadura, inclusive em suas funções de bispo, é pior ainda. É difícil uma pessoa mudar. Temos o exemplo de Oscar Romero, um bispo de El Salvador que passou por uma conversão, um processo de transformação muito grande. Mas não é comum de acontecer. Se há esse envolvimento com a ditadura argentina, de fato é muito grave.

 

Correio da Cidadania: Partindo para o campo dos costumes, onde em nosso país a Igreja tem enorme influência, inclusive política e jurídica, como avalia seus discursos e posições? O que podemos esperar desse papado a respeito do combate da Igreja a direitos civis fundamentais (sexualidade, status social e eclesial das mulheres, aborto, divórcio, direitos LGBT etc.)?

 

Regina Soares Jurkewicz: No aspecto da doutrina da Igreja no campo da moral sexual, a mudança não ocorre no discurso, muito menos na prática. Ele não destacou os aspectos mais polêmicos, que são as questões da homossexualidade, do aborto, do uso do preservativo. Sequer falou disso em sua passagem. Só no final, numa entrevista aos jornalistas, já indo embora.

 

E aí pensamos que as coisas não mudam em relação ao entendimento da união estável entre pessoas do mesmo do sexo, em relação ao uso dos preservativos... De modo que continua existindo uma dissonância muito grande entre o que a igreja hierárquica define e o que os fiéis católicos vivem, sobretudo os jovens.

 

Recentemente, fizemos uma pesquisa, com o Ibope, sobre a juventude católica, em nível nacional, e ela mostra isso: 82% são favoráveis ao uso pílula do dia seguinte; 56% por cento são favoráveis à união estável entre pessoas do mesmo sexo; 90% apoiam a punição de religiosos envolvidos em crimes de pedofilia e corrupção; 72% aprovam o fim do celibato para os padres; 62% a ordenação de mulheres...

 

Correio da Cidadania: Mais especificamente a respeito das mulheres, é possível esperar um papado que traga avanços em relação à sua atual interdição funcional e sacramental pela hierarquia masculina da Igreja?

 

Regina Soares Jurkewicz: Infelizmente, ele não fez nenhum aceno positivo sobre o assunto. Até disse que se trata de um assunto definido, fechado. Inclusive em relação ao sacerdócio feminino. E é um problema sério, porque o espaço do sacerdócio é o símbolo do saber e do poder, é a hierarquia. É exercido por aquele que estudou teologia e celebra na Igreja. É um espaço do sagrado que também significa espaço de poder dentro da Igreja. E tal espaço não se abre para as mulheres. Ou seja, não há uma noção de direito.

 

Quando eles falam, em relação aos gays, “vamos acolher, integrar os gays, não marginalizá-los”, claro que não diremos que é uma postura negativa. Porém, é diferente de dizer “tanto a hetero como a homossexualidade são abençoadas por Deus e dignas do ser humano”. Não é uma questão de misericórdia. Deveria, sim, ser tratada como questão de direito, em relação à democracia interna da igreja. É uma igreja extremamente masculina. Na eleição do papa, os fiéis não têm nenhum acesso, muito menos as mulheres. Quem participa dos concílios e define as diretrizes são só os homens.

 

Portanto, é uma Igreja que continua masculina, agora com uma cara simpática, a do papa Francisco, mas que ainda não deu nenhum aceno de ser mais democrática, de defender a igualdade de direitos entre as pessoas. E pelo que conhecemos não há razões teológicas que impeçam isso. Tanto que há outras igrejas cristãs onde as mulheres celebram, são pastoras, bispas etc. Nesse sentido, infelizmente, a Igreja ainda marca um atraso muito grande em relação aos nossos tempos.

 

Correio da Cidadania: Quais deveriam ser as principais prioridades da Igreja em suas ações? Que valores, ideias e ações ela deveria incentivar em seus seguidores e transmitir à sociedade?

 

Regina Soares Jurkewicz: A primeira coisa que a Igreja tem de fazer, antes de tudo, é ouvir. Não é nem o caso de fazer algo, mas sim ouvir o que seus fiéis vivem e falam. Eliminar a dissonância entre o discurso teológico e a vida dos fiéis. E mesmo na prática pastoral.

 

Por exemplo, que avance na questão do entendimento de não condenação da sexualidade. Que a Igreja deixe de ficar pregando valores como a virgindade, relacionando-o à santidade. São valores que não correspondem aos tempos atuais e ao que dizem as pessoas. Que não defenda o casamento para sempre, ou seja, sob qualquer ônus. Muitas vezes vemos situações de mulheres que sofrem violências no casamento e a igreja fica defendendo que ela continue, seja tolerante, no caso, que continue apanhando.

 

Precisamos de uma Igreja que olhe para a realidade. Vemos no Brasil um índice de violência muito alto contra as mulheres. A Igreja tem de ter um olhar e respostas para essas questões, estimulando as pessoas a viverem nela. A Igreja tem dado respostas a perguntas que não são feitas. Trabalha uma ética fraca, que não toca a vida das pessoas.

 

Por outro lado, em vez de fazer tantos documentos focados nas questões ligadas à sexualidade, ela precisa se voltar aos problemas de justiça social. Priorizar as questões planetárias, isto é, falar do mundo ameaçado, do meio ambiente totalmente ameaçado. Não dá pra ter uma Igreja que não enxerga os problemas mais graves relacionados às vivências concretas das pessoas.

 

Gabriel Brito é jornalista do Correio da Cidadania.

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Última atualização em Qui, 15 de Agosto de 2013
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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