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‘A democracia representativa não nos serve mais. Ficou claro que temos de tomar outros modos de ações’ Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Brito e Paulo Silva Junior, da Redação   
Sexta, 26 de Julho de 2013
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Em outro exemplo marcante da ascensão da luta popular, Porto Alegre viu sua Câmara dos Vereadores ocupada por oito dias e oito noites por militantes de esquerda que conformaram o Bloco de Lutas, mais uma organização de caráter suprapartidário e horizontal que protagonizou acenos de mudanças políticas. Após protocolarem dois projetos de lei, um de abertura de contrato das empresas de ônibus e outro com vistas ao passe livre, o movimento deixou a Câmara e agora espera os próximos acontecimentos.

 

Diante disso, o Correio da Cidadania, em mais um capítulo da parceria com a Webrádio Central 3, entrevistou Eliete Floripo, componente do Bloco e também da Federação Anarquista Gaúcha (FAG), cuja sede foi recentemente invadida pela Polícia Federal, que confiscou materiais e documentos – em mais uma surpresa dos governos petistas aos movimentos sociais.

 

“Nós temos uma organização, nós não ocupamos simplesmente por ocupar, nós ocupamos com princípios, nós tínhamos um motivo e defendemos este motivo até o fim: o passe livre. A ocupação se deu de forma organizada e foi assim até o final”, resume ela, amparada pela própria justiça porto-alegrense, que, após vasculhar a atuação dos manifestantes na Câmara, constatou que nenhum dano ao patrimônio se registrara, ao contrário do que mentiu a grande mídia – novamente a grande marca da cobertura de todas as mobilizações nacionais.

Para Eliete, a vitória do movimento é um alento à ação direta, que em sua visão precisa estar sempre aliada às marchas e mobilizações de rua, pois é o que termina por forçar os políticos a agirem de forma mais rápida e efetiva. “Nós estamos em cima dos vereadores e o aviso foi claro: se não cumprirem o que foi colocado, se não cumprirem o que foi decidido, nós voltamos para a Câmara. A democracia representativa não nos serve mais. Ficou claro que temos de tomar outros modos de ações; nas ruas, nas ações diretas, nas ocupações”, arremata.

 

A entrevista com Eliete Floripo, do Bloco de Lutas gaúcho, pode ser lida abaixo.

Correio da Cidadania: Como se deu a formação do Bloco de Luta e o que acabou levando o grupo a decidir pela ocupação da Câmara?

 

Eliete Floripo: A formação do Bloco de Luta é uma tentativa, já de alguns anos, de diversos movimentos sociais, alguns partidos e militantes, de se organizarem contra o aumento das passagens aqui em Porto Alegre, que sempre ocorre nos meses de janeiro e fevereiro, nas férias. Já temos essa luta há alguns anos, porém, nunca conseguimos uma unidade, por diferenças ideológicas e problemas na organização em si. Nunca conseguimos ter uma unidade, portanto, nunca conseguimos barrar o aumento de fato.

 

Esse ano foi diferente. Nós iniciamos na primeira semana de janeiro, reunindo-nos, superando as nossas diferenças políticas, ideológicas e colocando a luta pelo passe livre e pela redução da tarifa em primeiro plano. Foram sete meses em que se conseguiu uma unidade muito grande.

 

O bloco hoje é formado, além de partidos políticos, pela Federação Anarquista Gaúcha, pela Frente Autônoma, por indivíduos que não compõem nenhum partido e que estão de forma autônoma dentro do bloco... Essa unidade tem garantido algumas vitórias para nós.

 

Nós conseguimos reduzir o valor da tarifa, porém, temos ainda na nossa pauta o passe livre, e não tínhamos conseguido nenhuma discussão a respeito dele. Nos últimos meses, fizemos protestos, com uma repressão muito forte da polícia, por parte do governo do estado, e a ocupação da Câmara dos Vereadores veio como mais um instrumento de luta. Vimos nela uma saída, digamos assim, para abrir o diálogo. Porque nós não estávamos conseguindo abrir o diálogo do passe livre com o governo municipal ou com o governo do estado, de modo que foi o método da ocupação a solução para abrir o diálogo e fazer com que esses governantes sentassem e discutissem conosco o passe livre.

 

Correio da Cidadania: Qual balanço vocês fazem da ocupação que durou oito dias e que tipo de repercussão social o Bloco acredita ter alcançado? Como tem lidado com a imprensa alternativa e o mainstream?

 

Eliete Floripo: O balanço que nós temos é de que, para além das vitórias concretas que só vão se realizar de fato quando a gente entrar no ônibus e conseguir passar a roleta sem pagar nada, tivemos um ganho político muito grande. O Bloco de Lutas conseguiu nos oito dias de ocupação uma unidade muito grande,  fortalecendo-nos enquanto grupo mesmo.

 

Diferentemente do que nós vimos em outras cidades e estados do país, onde a maioria que faz a luta não conseguiu ter tal unidade, a formação de um grupo coeso aqui ficou muito clara dentro da ocupação. Uma ocupação que foi totalmente organizada nos princípios da autogestão, com democracia direta, com ação direta, com horizontalidade.

 

Acho que isso foi um dos nossos maiores ganhos, para além dos projetos que foram protocolados na quinta-feira (18). No caso, o projeto de passe livre e da abertura de contas das empresas que operam os ônibus, dois projetos construídos pelo Bloco em um seminário que fizemos no final de semana dos dias 13 e 14, dentro da Câmara.

 

Nós passamos dois dias trabalhando todas as militâncias e trabalhando em cima desse projeto. Os ganhos são políticos, de fortalecimento do Bloco de Lutas, diferentemente do que a mídia e o governo tentaram durante todo esse período, ao criarem factóides para que o bloco se fragmentasse. Não conseguiram e nós provamos que estamos fortes e que vamos seguir lutando nessa unidade. Não vai ser tão fácil derrubar o Bloco de Lutas.

 

Correio da Cidadania: O fato de oficiais de justiça terem entrado na ocupação e feito um laudo de que nada foi destruído e de que o movimento era legítimo, levando uma juíza a obrigar o presidente da Câmara a dialogar com o movimento, pode ser considerado uma vitória?

 

Eliete Floripo: Isso só comprova o que a gente já vinha dizendo antes. Nós temos uma organização, nós não ocupamos simplesmente por ocupar, nós ocupamos com princípios, nós tínhamos um motivo e defendemos este motivo até o fim: o passe livre. A ocupação se deu de forma organizada e foi assim até o final.

 

Ao longo desses dias, conseguimos manter uma boa organização, trabalhamos muito, ao contrário do que os vereadores fazem lá dentro. O povo ocupou a Câmara e produziu dois projetos de lei. Conseguimos debater muitos outros temas, como megaeventos, o corte das árvores (uma questão que aconteceu aqui em Porto Alegre, quando tivemos várias árvores derrubadas por conta de obras da Copa), fizemos aulas públicas...

 

Durante este período todo, não paramos. Mantivemo-nos organizados e fortalecidos. Ficou claro para o oficial de justiça que a mídia estava noticiando coisas que não ocorriam. Aliás, o pouco que a mídia noticiou da nossa ocupação foram factóides, que nós havíamos agredido o presidente da Câmara, que a ocupação estava destruindo o patrimônio público...

 

Os oficiais de justiça foram até lá e comprovaram o contrário, que a ocupação estava organizada, com crianças, com gente trabalhando o tempo inteiro, com autogestão funcionando de uma forma muito evidente. As pessoas estavam lá se empenhando em debates, com vários grupos de trabalho funcionando, sem ninguém ocioso.

 

Tudo isso ficou claro e provou para a mídia que nós sabíamos o que queríamos.

 

Correio da Cidadania: Qual a participação da FAG (Federação Anarquista Gaúcha) no bloco? Há preocupação por conta da recente invasão da PF na sede da FAG e confisco de materiais? Como estão lidando com isso?

 

Eliete Floripo: Na verdade, nós participamos desde o primeiro momento; desde os outros anos a federação tem participado e nós estamos desde o início formando o Bloco de Lutas.

 

O que aconteceu na sede da FAG é, na verdade, uma perseguição que tem sido feita a todos os que ousam lutar aqui em Porto Alegre. Nós tivemos uma série de companheiros do Bloco de Luta perseguidos quando se acirrou a luta e o governo começou a criminalizá-la. Temos em torno de seis ou sete militantes do Bloco de Lutas que vão ser indiciados, companheiros que não conseguiram nem ter o acesso ao processo, porque foi negado pela justiça.

 

Tudo isso está dentro de um plano da criminalização dos movimentos. Ao contrário do que imaginávamos, porque aqui há um governo do Partido dos Trabalhadores, num contexto em que se afirmava que não poderia ter governo mais repressivo do que foi o da governadora Yeda Crusius (PSDB). Agora, estamos vendo um governo dito dos trabalhadores criminalizando e perseguindo militantes. Porque a invasão na sede da FAG foi uma perseguição àqueles que se levantam para lutar.

 

Mas nós não nos intimidamos. Vamos permanecer na luta, como sempre estivemos nesses dezoito anos de luta que a FAG tem, seguimos firme, compondo o Bloco de Lutas, presentes nas lutas que acontecem na cidade. Não vai ser tal fato que mudará a nossa postura, já que não é nem a primeira vez que a polícia invade a nossa sede.

 

Não nos intimidamos na primeira vez e não vamos nos intimidar na segunda.

 

Correio da Cidadania: Vocês acreditam que os vereadores abrirão a caixa preta dos transportes públicos, tal como exige o Projeto de Lei de abertura das planilhas dos custos das empresas de ônibus protocolado pelo Bloco?

Eliete Floripo: Sabemos que tem muito interesse por trás disso. Já se tinha ventilado na Câmara uma tentativa de projeto de lei que abrisse a caixa preta, mas sempre foi negado e a gente sabe por quê. Há interesses de gente grande, de famílias que estão há muito tempo controlando o transporte aqui em Porto Alegre.

 

Mas o Bloco está atento. Nós fizemos a nossa parte dentro da Câmara, sabendo dos limites que isso tem. No mais, é a rua que vai nos pautar a partir de agora. Nossa pressão vai ser feita nas ruas, pela força popular. É dessa forma que continuaremos fiscalizando.

 

Nós estamos em cima dos vereadores e o aviso foi claro: se não cumprirem o que foi colocado, se não cumprirem o que foi decidido, nós voltamos para a Câmara. Nós não temos medo, vamos permanecer nas ruas, vamos permanecer mobilizados e vamos fazer a cobrança, sim. Que sejam abertas as contas, que o passe livre seja aprovado, porque não foi à toa que nós ficamos todos esses dias na Câmara de Vereadores.

 

Se tiver que voltar para lá, nós voltaremos sem problema nenhum.

 

Correio da Cidadania: Que modelo de transporte público o Bloco de Luta defende? A reestatização de tal serviço se encontra no horizonte do movimento?

 

Eliete Floripo: O Bloco tem algumas divergências sobre qual o modelo ideal de transporte coletivo. Pela diversidade que compõe o bloco, não temos acordo total sobre o modelo de transporte que almejamos para o futuro, se vai ser a municipalização ou estatização.

 

Não chegamos a um acordo nesse sentido. Onde nós temos acordo é que queremos seguir rumo a um transporte 100% público. A forma como isso se dará ainda debatemos, porque ainda é motivo de estudo para nós.

 

O que nós almejamos é: passe livre, depois tarifa zero e a construção de um transporte 100% público.

 

Correio da Cidadania: Vocês acreditam na possibilidade de mudanças na nossa forma de fazer política, isto é, uma “radicalização da democracia”, expressão recorrente no momento? Acreditam nas propostas de reforma política que diversos políticos agora mencionam?

 

Eliete Floripo: Com certeza. Eu acho que a ocupação e a ação direta têm de estar presentes. Já ficou claro que os jovens e os trabalhadores não estão conformados, não estão se sentindo representados com esse tipo de democracia que existe hoje.

 

A democracia representativa não nos serve mais. Ficou claro que temos de tomar outros modos de ações; nas ruas, nas ações diretas, nas ocupações.

 

Esse tipo de ação que realmente faz o governo se mexer quando exibimos nossas pautas. É uma forma de mexer com os de cima. É a luta dos de baixo contra a repressão dos de cima.

 

E é dessa forma que a gente está fazendo. A presença dos grupos mais autônomos e anarquistas dentro do bloco de lutas deu essa radicalização para o movimento.

 

Isso foi muito importante, o movimento amadureceu, ganhou corpo, consciência de que não são somente as marchas e os atos de rua que resolvem. Eles são importantes, mas existem ferramentas de luta que têm de ser usadas e que não servem para alguns momentos.

 

A ocupação é uma delas, ficou claro que foi só por conta da ocupação que conseguimos avançar na questão dos projetos de lei que protocolamos na Câmara.

 

O projeto ainda não foi aprovado, mas nós conseguimos arrancar isso, arrancar um projeto de lei. Conseguimos construir e obrigar os vereadores a protocolarem-no. A ocupação foi a ferramenta de luta. Esse tipo de ação mais radicalizada em certos momentos é indispensável.

 

A ação direta tem de estar presente nas lutas populares. No caso da Câmara de Vereadores, teve uma importância fundamental para a nossa luta e para a nossa vitória até agora.

 

Correio da Cidadania: Após uma onda de manifestações que ninguém poderia prever no mês de junho, com um pouco mais de força e persistência nas cidades sedes da Copa das Confederações, o que vocês esperam ver acontecer em termos de mobilizações até o próximo ano, quando teremos Copa do Mundo e eleições gerais?

Eliete Floripo: O Bloco de Lutas luta conjuntamente com o Comitê Popular da Copa de Porto Alegre. Portanto, fazemos uma luta conjunta contra o que os megaeventos trazem de prejudicial para a população mais pobre.

 

A nossa luta não é só pelo transporte público, ela também ocorre por conta dessas pessoas, da população diretamente atingida pelas obras da Copa, pelos megaeventos... Sabemos que para o próximo ano e nos próximos meses a luta só vai se acirrar, a repressão vai piorar, por conta da Lei Antiterrorismo que está para ser implementada.

 

Nós, dentro do Bloco de Lutas, temos uma discussão de que não vamos nos desmobilizar, por mais que a gente consiga atingir o passe livre. Vamos seguir lutando com os companheiros, com o Comitê Popular da Copa e com a população que está sendo atingida.

 

Não vamos abandonar a luta. Ela vai permanecer e é hora de resistir, para que a Lei Antiterrorismo não seja aplicada, porque isso nos amarra e nos tira a liberdade de lutar. Se a repressão está pesada agora, a gente vai pra rua e toma bala de borracha, toma bomba, sendo que ainda não chegou a Copa, nós sabemos que mais adiante só vai piorar.

 

Assim, não é hora de desmobilizar, muito pelo contrário, é hora de se manter firme contra tudo que vai vir, contra os ataques promovidos pela questão da Copa. Quem são os prejudicados? É repressão para os pobres. A Copa é para os ricos. Isso está muito claro para nós.

 

Para além disso, com as eleições que estão chegando, pelo menos nós da Federação Anarquista e boa parte dos companheiros que fazem parte das organizações mais autônomas dentro do bloco acreditamos na “outra campanha”. A nossa outra campanha é lutar e vencer fora das urnas.

 

Nós não acreditamos nesse tipo de democracia representativa, portanto, para além disso, enquanto alguns companheiros saem de cena no momento de eleição para elegerem seus candidatos, vamos permanecer nas ruas lutando, porque é lá que nós vamos ter nossas conquistas. Não será pelas urnas, não é nessa esfera que acreditamos. A gente acredita na luta popular. Nela, sim, temos condições de arrancar vitórias.

 

Clique aqui para ouvir o áudio da entrevista

 

Gabriel Brito e Paulo Silva Junior são jornalistas.

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Última atualização em Sábado, 03 de Agosto de 2013
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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