A ousadia do povo novo: criticar a democracia

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“A minha dor está na rua Ainda crua Em ato um tanto beato, mas Calar a boca, nunca mais! O povo novo quer muito mais Do que desfile pela paz”


Trecho da música “O Povo novo” de Tom Zé sobre as manifestações

 

Estamos em julho de 2013 com muitas pessoas tentando entender, ou melhor, disputar as interpretações das manifestações no Brasil do mês anterior. Tem se falado atualmente em levante de junho, pois foi neste mês que iniciou um processo massivo de tomada das ruas. Mas, talvez, não tenha acabado o processo. Pode ser que no futuro sejam manifestações de 2013 ou de uma década inteira se a ousadia for realmente levada até o fim!

 

A ousadia de uma juventude que há anos tem assistido ao interesse das negociatas empresariais determinarem a organização da vida de todas as pessoas. O que são os 0,20 centavos em São Paulo senão uma disputa com o interesse econômico do lucro das empresas de ônibus? Ou as manifestações contra os gastos da Copa, cobrando investimento em políticas universais de educação e saúde?

 

Para este povo novo, a democracia liberal, que no Brasil foi fruto de uma transição consensuada com o poder militar de outrora, não é considerada conquista ou valor a ser ufanamente defendido, mas alvo concreto de questionamento. Assim foi nas manifestações, a democracia foi criticada de diversas formas, desde frases rechaçando todos os políticos e partidos como “o povo unido protesta sem partido” até ocupações de espaços do poder como o congresso nacional.

 

A crítica à democracia deve ser entendida no sentido certo. Não algo totalitário de menos participação, pelo contrário, a reivindicação ousada da juventude é por mais soberania com participação real, menos alienação e organização da sociedade a partir do interesse popular. Isto é o significado de parcela dos manifestantes rechaçarem os partidos políticos, que na visão comum são os que em nossa democracia representam as negociatas dos interesses particulares. E, por outro lado, o sujeito singular em contraposição ao interesse particular manifesta-se com o símbolo concreto de defesa do universal, a bandeira da nação com a palavra de ordem: “meu partido é meu país”.

 

A estrutura institucional existente é incapaz de reconhecer possibilidades de participação que correspondam a processos de indeterminação e conflito dos sujeitos singulares. Nossa democracia representa, sobretudo, os interesses particulares dos grandes poderes econômicos, alienando o singular de cada sujeito e abandonando o interesse universal.

 

Interessante pensar que no Brasil, com a consolidação da democracia após a década de 90, parecíamos condenados à impossibilidade de agir conjuntamente. A sensação era não haver motivos capazes de fazer as pessoas tomarem as ruas.

 

Possivelmente nos considerávamos autônomos, realizávamos nosso dever de votar a cada dois anos com a crença de que, se o povo elege políticos, estes se comprometem com o interesse dos seus eleitores, para poderem ser eleitos novamente. Esse formalismo, onde a tomada de decisão está fundamentada em um dever de procedimentos formais que exclui as contradições da sociedade, faz com que a discussão da cidade, estado ou país seja sem conteúdo, sem mudança real possível, levando à paralisia. A ousadia do povo novo levou ao curto circuito desta lógica, atacou políticos e os poderes que a constituem: o econômico e a mídia. “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”.

 

Então, como viabilizar o reconhecimento institucional de uma demanda de sujeitos que questionam o que se entendia como universal, a partir de modos singulares de confrontação?

 

Este impulso das manifestações deve ser o conteúdo e também a motivação para agir. Agir fazendo pressão e agir propondo outra realidade, que não mais seja formalista e exclua os impulsos indeterminados, mas que possibilite uma lógica que contemple avanços. Para isso precisamos entender que são condições da liberdade irmos contra o medo, darmos voz às paixões singulares dos sujeitos e criarmos uma estrutura de poder popular. Estrutura que seja capaz der retirar as pessoas de sua individualização e atomização social, avançando para uma participação efetiva de defesa do universal, na perspectiva da classe trabalhadora com uma democracia real de alta densidade.

 

 

Paulo Spina é militante do Fórum Popular de Saúde do Estado de São Paulo.

Comentários   

0 #1 O limite das manifestações popularesAlexandre F Dantas 27-07-2013 22:00
[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=ornQFXWp3pE[/youtube]
As recentes manifestações populares em todo o Brasil traz a impressão de que o povo não era ingênuo, nem alienado quanto ao patrimonialismo expresso pela classe política, justamente aqueles que têm a maior obrigação de serem republicanos, de cuidarem dos bens públicos como de fato são: de todos; e não bens particulares dos que estão, momentaneamente, exercendo um cargo público. O que havia era uma letargia, uma acomodação com o velho ditado do senso comum do "rouba mais faz"; ou do "político é tudo igual".
O gado feliz virou lobo faminto e as manifestações contra a corrupção, por vezes passa dos limites com a depredação ao patrimônio público, furtos, violência e cerceamento de direitos de cidadãos.
É justamente o último aspecto que mais incomoda no Rio de Janeiro, com o movimento "Ocupe Cabral" que, ao invés, de ir protestar junto ao gabinete do governador, resolveu acabar com o sossegos de todos os moradores da rua Aristides Espinola no Leblon. É nessa rua que o governador reside, mas a rua não "é" só dele, "é" de diversos cidadãos de bem que perderam seu direito de ir e vir, noites mal dormidas com os berros e xingamentos dos manifestantes e constante "estado de guerra". Neste último dia 25 de julho, a quantidade de policiais, viaturas e "caveirões" era tão grande que se anunciava uma verdadeira guerra civil; os moradores não podiam sair de casa com seus carros a partir de 14:30h pois a rua estava completamente sitiada entre a Av. Delfim Moreira e a rua Gen. San Martin.
Lanço aqui meu protesto contra o excesso dos manifestantes que, ao melhor do Teorema de Condorcet, onde a consciência do indivíduo é levada pela vontade da massa, têm perdido o foco e feito do Leblon um bairro inseguro.
Vão para onde o governador trabalha, para o local onde são tomadas as decisões, é lá que a política efetiva deve ser discutida!
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