Estados Unidos: o injustificado desmerecimento da democracia

 

 

Os democratas chegaram ao poder na Casa Branca em janeiro de 2009 com a consciência de que seria necessário interromper o modus operandi dos republicanos, em decorrência do crescente desgaste político dos Estados Unidos diante do mundo e de sua própria sociedade.

 

Sob a justificativa de proteger seus cidadãos, o país adotou, depois do atentado terrorista de setembro de 2001, medidas opostas ao cânone democrático, ao acentuar, em inaudita parceria com parte significativa do conglomerado do setor de informática, o grau de vigilância sobre a circulação de dados privados até relativos aos além de seu próprio território.

 

Sem autorização multilateral, via Organização das Nações Unidas, por exemplo, a ação tem sido intrusa e, deste modo, moralmente enfraquece ainda mais o governo, visto que o norte invocado por Washington é o resguardo da democracia, e politicamente fortalece seus adversários, em especial os denominados países renegados, ciosos de que suas práticas de monitoramento não se deslegitimam, se comparadas às do seu contendor.

 

O enfrentamento cotidiano de um inimigo difuso, o terror fundamentalista, desnorteia os Estados Unidos nos últimos anos à medida que nem a utilização ampla de recursos tecnológicos, mesmo de maneira controversa, permite-lhe superar seu opositor.

 

O emprego de medidas polêmicas não se originou do período de George Bush ou de Barack Obama; remonta ao da Primeira Guerra Mundial, quando da aprovação da Lei de Espionagem, de junho de 1917, que se contrapôs à primeira vista ao direito constitucional de liberdade de expressão no tocante a assuntos militares.

 

Já no início da Guerra Fria, o Congresso aprovou, em setembro de 1950, após derrubar o veto do presidente Harry Truman, a Lei de Controle de Atividades Subversivas, sintonizada com o espírito de desconfiança e de extremo anticomunismo propagado pela atividade parlamentar do senador Joseph McCarthy, de Wisconsin.

 

Nos dois momentos na primeira metade do século 20, os oponentes eram tradicionais, países europeus, e diferenciavam-se dos Estados Unidos em vista do regime político adotado: monarquia centralizadora pela Alemanha e comunismo pela Rússia.

 

No segundo caso, a despeito da superioridade material e da aliança firmada durante a Segunda Guerra Mundial, Washington subscreveu a postura de rejeição a Moscou meses depois da vitória conjunta, a ponto de levar o mundo a vislumbrar por três vezes, nas décadas de 50 e 60, a possibilidade de uma confrontação nuclear respectivamente por causa da Guerra da Coréia, da invasão do canal de Suez (Egito) e da aproximação militar entre Cuba e União Soviética.

 

Não há até hoje na academia consenso sobre a motivação real da oposição da Casa Branca perante o Kremlin. Três justificativas se apresentaram ao longo do tempo: vista curta (insuficiência de perspectiva da burocracia civil e militar), mero cinismo ou mesmo insegurança.

 

Independentemente do motivo fomentador, o fato é que o poderio norte-americano dispensaria preocupação de monta com os soviéticos e, destarte, teria poupado o globo do desgaste de quase quatro décadas e meia de bipolaridade ideológica.

 

Se o estado de tensão entre norte-americanos e soviéticos foi alcunhado de Guerra Fria, nos dias atuais não há uma identificação terminológica definitiva entre os Estados Unidos e o extremismo religioso. Todavia, quando houver, ela certamente incluirá a desvalorização dos valores democráticos, malgrado a retórica de sua defesa.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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