Golpe de Estado no Egito: fazendo a revolução antes que o povo a faça

 

 

Entre 30 de junho e 3 de julho de 2013, mais de dezessete milhões de egípcios foram às ruas nas maiores manifestações populares jamais registradas em toda a história mundial, para pôr fim ao governo do presidente Mohammed Mursi, da Irmandade Muçulmana (IM). Um dos fortes motivos para contestação ao governo Mursi foi sua eleição carente de legitimidade, uma vez que con 51% dos votos dos apena 51% dos eleitores que compareceram às urnas. Em termos absolutos, o candidato “islâmico” conquistou votos de apenas 26% do eleitorado total, demonstrando a frágil base popular de seu mandato.

 

Notem-se as manobras heterodoxas para as eleições de 2012 para que a Irmandade Muçulmana (fundada 1928, com apoio britânico para combater comunistas e nacionalistas), salafistas e wahhabitas participassem das eleições presidenciais.  Manipulação apoiada discretamente pelas Forças Armadas egípcias e que obteve aval dos EUA, Catar, Turquia e, com alguma relutância, da Arábia Saudita, rival da Irmandade Muçulmana. Condição imposta pelos militares egípcios para o candidato vitorioso assumir o poder era respeitar os tratados e acordos firmados pelo regime militar no poder desde 1952 ─ leia-se, Tratado de Paz com Israel, de 1979.

 

De mal a Pior

 

No pouco mais de um ano de Mohammed Mursi no poder, os principais problemas do país, considerados pelos egípcios como entraves ao pleno exercício da liberdade do povo, mantiveram-se e agravaram-se com o governo do grupo “islâmico”. Ou seja, as altas taxas de pobreza e de desemprego, especialmente entre os jovens (maioria da população); a alta dos preços dos alimentos;  os serviços públicos desmontados por 41 anos de políticas neoliberais; a adesão às políticas recessivas e neoliberais do FMI; o autoritarismo, a corrupção generalizada, a submissão aos interesses dos EUA e de Israel.

 

A tudo isto se somou o crescente sectarismo religioso fomentado pelo governo, visto como ameaça à integridade do país pelos egípcios cristãos e laicos. Mursi destituiu o então chefe do Comando Supremo das Forças Armadas, general Tantawi, e chegou a promulgar uma nova constituição, na vã tentativa de arrefecer o crescente descontentamento popular.

 

A política externa em nada contribuiu para melhorar a imagem do presidente egípcio, que zelou pela vigência do Tratado de Paz com Israel, endurecendo o bloqueio à Faixa de Gaza contra os palestinos; deu permissão para a presença de militares americanos em solo egípcio em centro de torturas contra suspeitos de terrorismo;  apoiou a criação de uma zona de exclusão aérea para a Síria,  favorecendo a estratégia da OTAN de bombardeios aéreos de saturação.

 

Tratado de Paz, Tratado de Guerra

 

A vigência do Tratado de Paz Egito-Israel abriu caminho para cinco grandes invasões israelenses ao Líbano (1978, 1982, 1993, 1996 e 2006), que exterminaram mais de trinta mil pessoas no pequeno país árabe.  Do mesmo modo, o Tratado permitiu que os israelenses esmagassem as duas Intifadas palestinas (1987 e 2000) e assassinassem cinco mil pessoas, neutralizando a resistência palestina à ocupação militar hebraica.

 

As forças armadas do Egito são as fiadoras internas do Tratado de Paz com Israel. Sem a “paz”, os EUA cortam a ajuda anual de US$ 2 bilhões ao Egito. Sem este dinheiro, a máquina de corrupção egípcia, montada pelos militares, emperra.

 

A imensa mobilização popular, sem precedentes na história, para derrubar o presidente Mursi, fez soar nos EUA e nas forças armadas o alerta para uma possível ruptura do Tratado de Paz, pilar da política imperial ianque na região. Portanto, era preciso antecipar-se à ação popular, o que foi feito com um golpe militar perpetrado pelo chefe do Comando Supremo das Forças Armadas do Egito, general Abdul Fatah al-Sisi, em 3 de julho de 2013, que prometeu realizar eleições brevemente.

 

Unificação Coalizão Pró-Ocidente

 

Com a queda de Mursi, unifica-se a liderança da coalizão pró-Ocidental no mundo árabe, então dividida entre o reino saudita e o emirado do Catar, divisão que dificultava o combate à coalizão pró-Irã (Hizbollah, Síria, Iraque e Irã). Nos últimos meses, o eixo “pró-Ocidente” estava sofrendo inúmeras derrotas. Na Turquia, o governo do primeiro-ministro “islâmico” Recep Erdogan é contestado por uma revolta popular. Na Síria, os “rebeldes”, que lutam para derrubar o regime nacionalista do presidente Bassar al-Assad e fundar um Estado “islâmico”, estão sendo derrotados pelas tropas governamentais. A má sucedida “revolução” na Síria foi estopim para a derrubada do emir catari Hamad al-Thani, cujo poder foi transferido, em golpe palaciano, para o filho Thamim al-Thani, que é apoiado pelos EUA e Arábia Saudita. Com isto, os sauditas neutralizaram seus principais rivais na liderança do extremismo sunita sectário no mundo árabe, a Irmandade Muçulmana e o Catar.

 

O golpe militar contra Mursi preveniu a possível ruptura da “paz” com Israel, assegurando a hegemonia regional dos EUA, impedindo que uma verdadeira revolução libertasse os egípcios da opressão estrangeira. Barak Obama e al-Sissi optaram pelo velho lema de um político mineiro: “Façamos a revolução antes que o povo a faça”. Os militares egípcios cumprem, assim, uma triste e degradante trajetória histórica: de revolucionárias da Era dos Oficiais Livres, em 1952, a uma força de ocupação estrangeira de facto, desde 1971.

 

Ramez Philippe Maalouf é historiador e doutorando em Geografia Humana pela USP.

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