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A presidente está nua Imprimir E-mail
Escrito por Mário Maestri   
Qui, 04 de Julho de 2013
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Desta vez, foram multidões, e não uma criança, que gritaram, impiedosas, o “rei está nu”, pondo fim às construções fantasmagóricas sobre o sucesso social do modo de governar petista. Conto da carochinha divulgado pela grande mídia no país e no mundo, já que celebrava o sucesso de administração convertida ao social-liberalismo. Apesar dos gritos populares crescentes sobre sua impudicícia, Dilma manteve-se quietinha, fazendo-se de morta, rezando para que acreditassem que a luta contra o aumento das passagens não lhe dizia respeito.

 

As multidões desbordantes puteavam os aumentos dos transportes e os estádios faraônicos, apontando para a indecente degradação da saúde e da educação públicas. Muito logo, registraram em forma desorganizada a insatisfação com as condições gerais de existência, sobretudo nas grandes metrópoles. Rolaram pelo ralo das elucubrações marqueteiras as propostas do Brasil potência, país onde dominaria majoritariamente pujante nova classe média, que entrava garbosamente no mercado consumidor, arrancada da penúria pelos doze anos de reino petista.

 

A sustentação irresponsável da produção nacional por meio de consumo financiado, sem expansão substantiva do valor dos salários, tencionara a economia popular e o tecido metropolitano, atulhado de automóveis, com meios de transporte caros e deficientes e população trabalhadora enviada às periferias distantes. As populações urbanas levantavam-se contra a proposta social perversa de que pagassem o transporte, o colégio privado, o plano de saúde, a segurança e os cambaus, com seus magros salários, para a alegria de insaciáveis interesses privados.

 

Reeleição garantida

 

Para reeleger-se, Dilma Rousseff apostou todas as suas fichas na interpretação dos interesses privados dominantes, nacionais e internacionais. Construiu mega-ministério de quase quarenta picaretas e base parlamentar de centenas de outros roedores. Seguiu privatizando, sem pena, bens públicos, como aeroportos, portos, petróleo, estradas, ferrovias. Fez do BNDES sucursal do grande capital, patrocinando em primeira pessoa aventureiros como Eike Baptista, o inacreditável senhor das empresas X.

 

A presidente fechou a cara para os anseios populares e nacionais. No altar do agronegócio, sob os auspícios da bruxa de Abreu, sacrificou as reivindicações dos, e, se preciso, sem-terra, quilombolas e nativos. Seduziu os fundamentalistas, vestindo as pudicas vestes de primeira carola nacional. Pisoteou sem dó o laicismo e direitos cívicos nacionais: interrupção da gravidez; criminalização da homofobia; casamento homoafetivo; isenção fiscal, direitos e privilégios legislativos e de Estado para lideranças fundamentalistas etc. Liquidou o pouco de independência que mantinha a política externa brasileira.

 

Tudo inutilmente. Ao explodir, o desgosto popular farejou responsáveis subalternos para terminar apontando para o governo federal, responsável maior pelo destino da nação. Então, das elevadas alturas, as avaliações de Dilma Rousseff despencaram ladeira abaixo. Pior ainda, no calor da crise, a presidenta expôs seu enorme despreparo para enfrentar semelhantes conjunturas. A lembrança de Lula da Silva como eventual candidato em 2014 confirmou a cabotinice do ex-presidente em designar substituta pouco qualificada para posto ao qual sonha retornar.

 

Surpreendida em pleno abandono da orientação neodesenvolvimentista, Dilma Rousseff prosseguiu, sem correção de rumo, a orientação autista e conservadora de sua administração. No dia 24, monologou com a nação, propondo cinco pactos nacionais. Iniciou pelo fiscal, ou seja, pela promessa ao grande capital de contenção de gastos públicos e cortes de investimentos. Portanto, deixou claro que as promessas referentes à saúde, educação e transportes eram retóricas.

 

Com enorme sem-cerimônia, limitou-se a reafirmar projetos anteriores sobre a educação e saúde. Relembrou as propostas de contratação de médicos estrangeiros, de ampliação das escolas de medicina, de desonerações de impostos do transporte público, de emprego de 100% dos royalties do petróleo para a educação ─ ou seja, bem menos de 10% da renda petrolífera entregue ao grande capital privado.

 

Pega-bobo eleitoral

 

De novo, apenas a proposta retirada do bolso do colete de seus marqueteiros de plebiscito sobre constituinte restrita que abordasse a ... reforma política, eterna preocupação das classes dominantes, necessária ao reequilíbrio da expressão de suas forças e à consolidação da desprestigiada democracia representativa. Paradoxalmente, questão com alguma ressonância nos setores sociais atrasados, incorporados às mobilizações após sua massificação, sob a influência da mídia e dos partidos da direita tradicional.

 

A população exige passagem livre e hospitais, farmácias, escolas, universidades, postos de saúde públicos de qualidade. A presidenta oferece a discussão das coligações; listas eleitorais; voto distrital puro ou misto etc. Pega-bobo lançado à população enfarada com a representação parlamentar burguesa, que sonha, ingenuamente, como meio de reforma social, a redução radical do número, salários e privilégios de parlamentares, secretários, ministros, caso não possa fazer mais.

 

A reforma política não é pauta popular. É enorme o consenso que, mutatis mutandis, tudo permanecerá, no essencial, como “dantes, em nosso triste quartel de Abrantes”! Sequer o financiamento público das campanhas, proposta querida dos partidos de esquerda seduzidos pela integração parlamentar ao Estado, conta com largo apoio. Com razão, teme-se financiamento público milionário de partidos, reais e biônicos, associado ao financiamento privado direto ou indireto, por baixo do poncho!

 

A rejeição da constituinte seletiva para a reforma política pelos órgãos máximos das classes dominantes nacionais ensejou que fosse reduzida a proposta ainda mais acanhada e esdrúxula, de pronunciamento plebiscitário sobre questões apresentadas pelos picaretas no congresso e no governo! Tudo feito logo, logo, para que a presidenta chegue em 2014 com algo nas mãos, além dos previstos aumentos do juro básico e superávit primário; cortes nos gastos públicos; arrocho do salário mínimo; interrupção da reforma agrária; descumprimento da agenda civil nacional etc.

 

Não há inocência

 

Não se creia que a manipulação plebiscitária seja iniciativa despida de caráter performativo. As manifestações fluviais redefiniram a correlação social de forças no Brasil, comprovando a capacidade popular de pautar a vida político-social e de arrancar conquistas substanciais às classes dominantes. Entretanto, entraram já no inevitável ciclo regressivo, sobretudo devido à inexistência de pauta programática exequível, por além da conquistada redução do valor das passagens nas grandes e médias metrópoles, e de direção autêntica centralizadora.

 

Inexistência de pauta programática unificada devido, sobretudo, à paradoxal ausência da classe operária organizada. Ausência para a qual contribuiu substantivamente a ação da venal direção governista da CUT, que reina monopolicamente sobre a grande central, sobretudo após a multiplicação oportunista e interessada de centrais, que registraram na presente conjuntura sua total inoperância social e política – Força Sindical, UGT, CTB e Nova Central, além de CSP-Conlutas, CSB e CGTB.

 

Vendo minimizado seu poder de barganha, quando já se chamavam greves gerais pelo facebook, a direção da CUT dispôs-se a ingressar com barulho no coliseu da luta social. Desde que os gladiadores e os leões tivessem se retirado da arena, é claro. Preocupada em não qualificar o movimento popular com o ingresso dos trabalhadores organizados, chamou suas tropas “para dia nacional de luta”, e não para greve geral, marcado para o então distante 11 de julho. Esperam realizar parada prestigiosa e certamente não combativa mobilização de luta.

 

Uma aposta cuidadosa, que comporta grandes riscos. Se for demasiadamente tímida e não se aproximar da dimensão das concentrações populares, a demonstração enfatizará a passada marginalização do movimento sindical organizado. Se for grande a adesão de trabalhadores e populares, o “dia nacional de protesto” dará um novo impulso às mobilizações anti-governamentais e antissistema. Ainda mais que elas podem se servir da respeitosa pauta de reivindicação da CUT para armar-se de real programa de luta social e política.

 

No seu respeito canino ao governo federal, a burocracia cutista sequer integrou às reivindicações do dia 11 o aumento imediato do miserável salário mínimo, cancelamento das concessões petrolíferas, nacionalização dos públicos privatizados e dos meios de transporte. Para não falar da luta da convocação de Assembléia Nacional Constituinte, ampla, geral e irrestrita, com direito democrático de eleição dos constituintes, que entregue à população nacional enfarada com as atuais instituições elitistas o direito soberano de decidir seus destinos ­– pagamento da dívida, nacionalização do petróleo, estatização do transporte etc.

 

Novo período

 

Vivemos em junho as mais poderosas mobilizações jamais conhecidas no Brasil. Por sua autonomia e seu caráter combativo e antissistema, superam qualitativamente as marchas pelas Diretas Já, de 1983-84, sob o total controle dos partidos oposicionistas, ou as de Fora Collor, de 1992, dirigidas pelos partidos e, sobretudo, pela grande mídia, com destaque para a pentida Rede Globo, em momento em que o impeachment era inevitável. Essas jornadas registram importantes modificações na consciência da população brasileira concentrada nas grandes metrópoles, ensejadas pela ampliação do assalariamento e instrução.

 

Fortaleceu-se enormemente o movimento social, que depois de décadas pautou novamente as classes dominantes, obrigando a mídia conservadora a contorções verdadeiramente indecorosas. Fortaleceu-se também a capacidade de intervenção e manipulação conservadora, através principalmente das redes sociais e de segmentos sociais médios. O que permitiu que o petismo e o governismo iniciassem a velha gritaria de “Socorro! Olha o lobo”, sobre possível golpe direitista. Algo talvez compreensível, já que habituados a manter o grosso da direita brasileira, legal ou ilegalmente, como aliados assalariados de sua base parlamentar. Proliferaram as propostas de frente, de aliança e de pactos de esquerda contra a direita fascista, procurando desviar os golpes do governo do capital de turno.

 

Não há qualquer perigo de golpe de Estado. Como Lula da Silva, Dilma Rousseff foi escolhida como representante da ditadura do capital no Brasil, e permanece como tal. Que proporia o novo governo direitista: a privatização do petróleo; o pagamento disciplinado do capital financeiro; a proteção canina do agronegócio? O descontrole do petismo sobre as grandes massas urbanas abre, isto sim, espaço para que partidos da direita tradicional proponham-se como melhores defensores do capital e da propriedade. Como permite que eventualmente se expandam as exigências do capital para manter seu apoio ao governo, como já ocorre.

 

O novo período fortalece também propostas concorrentes ao petismo, como a ensaiada pela Rede, de Marina da Silva, sob o patrocínio do capitalismo verde, ou de cunho populista-autoritário, como eventual composição eleitoral organizada em torno do histriônico Joaquim Barbosa, da grande mídia burguesa. Ou seja, um Collor bis. Esta última menos provável, mas não impossível, no contexto de eventual perda de controle do capital da política nacional.

 

As manifestações apresentaram fortes lições para as organizações que se reivindicam da esquerda revolucionária. Naufragam espetacularmente as alimentadas ilusões da autoproclamada vanguarda de conquistar, apoiada em consignas e programas iluminados, a direção das massas em marcha. As populações apoiam-se nas lideranças, organização e consciência que possuem, ao iniciarem sua marcha. Quem não conquistar representação substantiva do movimento social, antes de ele pôr-se em movimento, será mantido à sua margem ou arrasado por seu impulso.

 

Acima de tudo, milhões e milhões de brasileiros foram atraídos para a política, mesmo quando a desqualificavam, ao participarem direta e indiretamente nas mobilizações de junho. Rompeu-se poderosamente o comodismo, a descrença, o individualismo, a despolitização, a alienação, cultivados carinhosamente pelas classes dominantes através de seus administradores, parlamentares, partidos, universidades e grandes meios de divulgação. Não estamos na véspera ou antevéspera da revolução social. Mas abre-se diante de nós um campo fertilíssimo para o cultivo do futuro.

 

Mário Maestri é historiador e professor do Programa de Pós-Graduação em História da UPF.

E-mail: maestri(0)via-rs.net

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Última atualização em Qui, 11 de Julho de 2013
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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