O caso Renan e a degeneração da política

 

 

A origem da palavra política, a partir de sua etimologia, provém do grego Politikos (polis, cidade-estado), e se refere a tudo que é urbano, civil e público. O homem político é aquele que não apenas vive na cidade, mas faz desta a sua principal preocupação. E o homem grego era, por excelência, o homem dado aos debates na Agora, aos discursos e às discussões políticas.

 

Também é da genialidade grega a criação da democracia (demos + cracia), governo do povo que garantia ao homem a isonomia (igualdade perante a lei); isegoria (liberdade de opinião) e a filantropia (fraternidade entre os cidadãos). Por isso o elogio de Péricles: “não imitamos a Lei dos nossos vizinhos”, bem pelo contrário, como testemunha Isócrates: “Estabelecemos entre os outros a nossa Constituição”. Neste sentido, a vida política entre os gregos destinava-se a garantir a qualidade e a perfeição da vida. Como nos diz Prélot (1978), “o fim da política não é, pois, a conquista ou o enriquecimento geral, mas sim a virtude coletiva. Ela não está acima da moral, mas prolonga-se”. Isto é, a política é a arte de tornar melhor os cidadãos.

 

Analisando a conjuntura política brasileira atual, temos assistido exatamente ao inverso da proposta grega sobre o real entendimento da política. Por aqui, os interesses individuais sobrepõem-se aos interesses coletivos, o bem comum é substituído pelo bem privado e os vícios e mazelas tão antigas das instituições e da cultura política, como o clientelismo, corrupção, patrimonialismo e, agora, o lobbysmo, são o que impera.

 

Entende-se por lobbysmo a prática que representa o interesse de grupos (empresas) que procura influenciar nas votações legislativas e nas decisões dos administradores governamentais, isto é, o lobbysmo consiste em dirigir todas as energias de quem o pratica a obstaculizar, emendar e aprovar as propostas legislativas e as normas das agências reguladoras. Os lobbystas operam ante governos locais, estaduais e federais.

 

Foi o caso do presidente do Senado Renan Calheiros (representante das velhas oligarquias regionais alagoanas). Foi acusado de utilizar dinheiro de uma empresa privada (empreiteira) para pagar despesas pessoais. Por isso o Conselho de Ética do Senado recomendou a votação da perda de mandato de Renan por quebra de decoro. No entanto, Renan foi absolvido por seus pares no Senado na última quarta-feira (40 votos a 35 e seis abstenções). Com sua absolvição, perde a democracia, perdem as instituições políticas, também perdem todos os eleitores e cidadãos do país. Fica apenas o sentimento de impotência misturado com o sentimento de frustração e impunidade pairando no ar, e a triste constatação de que tudo é possível e permitido no Brasil: enganar, corromper, apadrinhar, mentir...

 

Por fim, entende-se que a vida política no sentido originário destina-se a garantir a qualidade e a perfeição da vida, e que, para isso acontecer, é necessário que os cidadãos vivam o bem comum, ou em conjunto ou por intermédio dos seus governantes; se acontecer o contrário (a busca do interesse próprio), está formada a degeneração da política. Infelizmente essa é hoje a realidade política brasileira.

 

 

Dejalma Cremonese é cientista político. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.; Web Site: www.capitalsocialsul.com.br

 

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