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‘Temos agora uma cultura para discutir política nesse país’ Imprimir E-mail
Escrito por Raphael Sanz, Gabriel Brito e Valéria Nader da Redação   
Terça, 02 de Julho de 2013
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A semana histórica de mobilizações populares ocorridas em todo o país teve como estopim a revolta paulistana contra os preços de um transporte público degradante e degradado, o qual, ainda por cima, sofreu um reajuste de vinte centavos no último dia 2 de junho.

 

As multidões que tomaram as ruas e enfrentaram uma das mais violentas polícias do mundo, além de um dos mais corruptos sistemas políticos, não bradavam simplesmente contra um aumento de centavos na passagem de ônibus e metrô (as mais caras da América Latina). Saíram às ruas, principalmente, para dizer “não” a um modelo econômico que submete a economia nacional ao lucro de grupos empresariais e bloqueia sonhos de toda uma geração de jovens, que se vê submetida ao mercado de trabalho, suas altas demandas e parco reconhecimento.

 

Em meio a esse movimento, que já tem dez anos de existência, algumas mentes jovens e perseverantes ganharam destaque na imprensa nas últimas semanas. Uma delas, a da estudante de geografia da USP, Mayara Vivian, de 23 anos, que esteve em reunião com a presidente Dilma Rousseff recentemente. Mayara também esteve nas jornadas de luta do Movimento pelo Passe Livre (MPL) desde a sua gênese paulistana, em 2005.

 

Na última quinta-feira (27 de junho), o MPL organizou uma aula pública na frente da prefeitura de São Paulo, a fim de rebater o discurso do governo do estado e da própria prefeitura, que rechaçam de todas as formas a possibilidade de ser implantada a tarifa zero em São Paulo. “Já que eles dizem ser impossível implantar a tarifa zero, viemos aqui ensiná-los como fazer”, afirmou Mayara, que acrescentou: “foi lamentável ver que a presidente apresentou propostas que não têm nada a ver. Ela se dispôs a ouvir as vozes que estão nas ruas, mas parece que ela não largou o telejornal uma vez, né?”.

 

E foi justamente nos bastidores desta aula pública que Mayara Vivian conversou o Correio da Cidadania, resultando na entrevista a seguir.

 

Correio da Cidadania: Como surgiu o Movimento pelo Passe Livre em São Paulo?

 

Mayara Vivian: De uma ótica bem pessoal, mas que traduz um pouco o movimento político mais geral, começo pela Revolta do Buzu em 2003, em Salvador. A tarifa havia aumentado para R$1,50, o povo de lá ficou bravo e foi para as ruas. Era um momento político em que as entidades estudantis não tinham um poder de fato, nem base, nem nada. Havia um desgaste porque o movimento estudantil, tanto secundarista quanto universitário, e de juventude, se focava muito na discussão político-partidária e muito pouco na discussão de base. Assim, havia uma insatisfação com a tarifa em si e com a forma como a luta estudantil se dava. Essas coisas forçaram que houvesse uma situação de mobilização espontânea e popular e, em um momento que as entidades estudantis negociaram em nome do povo sem ter representatividade com ele, o povo ficou mais bravo ainda. Aí, houve uma revolta no sentido de “poxa vida, são esses caras que vão negociar as pautas com a gente?”. Em meio a isso tudo, o pessoal que já se articulava em Florianópolis pelo Passe Livre organizou a Revolta da Catraca, de forma horizontal, autônoma e apartidária, e acabou virando referência, por não ter essa questão de um partido negociando em nome do povo, nem entidades estudantis pouco representativas. Dessa forma, a partir da Revolta da Catraca, em Florianópolis, e da do Buzu, em Salvador, já tinham sido formados vários comitês pelo Passe Livre, em várias cidades do país. A gente foi se falando e conseguiu organizar, em 2005, uma reunião nacional do movimento, no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, culminando na fundação do Movimento Passe Livre.

 

Correio da Cidadania: Como se deu a unificação do MPL lá nos idos de 2005, no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre?

 

Mayara Vivian: Na época, tinha o Centro de Mídia Independente (midiaindependente.org), um site que até hoje funciona e reúne vários chamados e artigos de movimentos populares. Todo mundo postava as coisas lá. O pessoal de Floripa foi pegando os contatos do pessoal ao redor do país e foi uma coisa bem imediata. Eles foram pegando os contatos e nós fomos nos falando por e-mail, vimos que nossas demandas eram muito parecidas, assim como nossas linhas políticas eram muito parecidas, principalmente na questão de ser autônomo, horizontal e apartidário. Assim, a gente se organizou por contatos de e-mail e aproveitou a deixa do Fórum Social Mundial, já que estava todo mundo indo para lá (Porto Alegre), para se encontrar.

 

Correio da Cidadania: De modo que a unificação foi puxada principalmente por Florianópolis?

 

Mayara Vivian: Foi puxada por Florianópolis e por vários outros coletivos que, a partir desse chamado de Florianópolis, também viram a necessidade de se unificar. A unificação traduziu uma demanda orgânica do movimento que estava nas ruas.

 

Correio da Cidadania: Além do que aconteceu agora em 2013, que outros episódios da luta contra tantos aumentos ficaram marcados, inclusive na sua história particularmente?

 

Mayara Vivian: Em 2006, quando eu tomei uma bomba e fui parar no hospital por uma semana. Em 2005, em São Paulo teve uma luta pequena, que foi a nossa primeira luta. Aprendemos um monte de coisa. Em 2006, houve uma luta grande, entre 2009 e 2010, também, e foi em 2011 que a gente conseguiu mobilizar bastante gente. E todas, cada uma dessas lutas, construíram uma referência para que a próxima jornada de lutas fosse ainda maior. Isso é importante ressaltar.

Correio da Cidadania: E essa manifestação de 2006, da bomba, o que aconteceu?

 

Mayara Vivian: As manifestações estavam muito grandes perto das outras que costumávamos chamar e era a primeira grande manifestação em que não havia um partido, com carros de som e dirigência por trás. Foram as primeiras manifestações grandes depois da Ação Global dos Povos e que conseguiram de fato unir bastante gente de forma espontânea na rua. Assim, a polícia sentou o cacete, sem dó nem discriminação, e tacaram um monte de bomba no meio da gente.

 

Um monte de militante saiu ferido e eu tenho uma lembrança muito particular: estourou uma bomba em cima de mim. Fui parar no hospital e a gente viu que o negócio (as armas não/menos letais) machuca de verdade. Tive uma fratura exposta em um dedo da mão (o qual acabou sofrendo uma pequena mutilação que foi logo corrigida no hospital) e tenho marcas de queimadura na perna até hoje.

 

Correio da Cidadania: Como o movimento recebeu a vitória da redução da tarifa? Como enxerga o atual momento e como está digerindo toda essa exposição?

 

Mayara Vivian: Ainda está sendo digerida, né? Está em um processo de digestão bruto. E bom, a revogação foi uma puta vitória, uma baita vitória. A gente comemorou demais porque revogar um aumento de tarifa na maior cidade da América do Sul é criar precedentes para uma série de outros movimentos também barrarem. Houve um monte de outras prefeituras que também barraram o aumento depois do nosso, mesmo sem ter mobilização, porque cidades como São Paulo são referência. Para nós, foi como a tomada da Bastilha.

 

Agora, impulsionar um movimento no país inteiro, de levante popular, a gente não imaginava, e ficamos muitos felizes que esteja acontecendo. Apoiamos da forma que der, seguimos na luta juntos, temos vários coletivos do MPL que continuam na rua e a gente continua também se somando a outras pautas de esquerda, que não são nem um pouco menos importantes, como pautas de sindicatos, de movimentos de moradia. Tem a questão da Copa do Mundo, que é muito pesada, e estamos lutando também. Já a pautávamos antes da luta contra o aumento e continuamos pautando.

 

Portanto, é uma vitória não só por ter sido revogado o aumento, mas principalmente por construir uma cultura de mobilização e de ação direta, que não existia antes.

 

Correio da Cidadania: O que está achando do momento político após a semana de manifestações massivas? Houve um arrefecimento?

 

Mayara Vivian: Eu não acho que houve um arrefecimento, o povo continua nas ruas, é só ligar a televisão e ver que o povo ainda está na rua. E por outro lado, mesmo que as mobilizações declinem um pouco, está todo mundo falando sobre política. O  povo que discutia a novela e ficava tentando ver os rumos da Avenida Brasil, agora está discutindo política na rua. Assim, (o movimento) parou “naquelas”, entre aspas. Não acho que está descendendo, nem em termos de mobilização, e o mais importante é que temos agora uma cultura para discutir política nesse país, que não tínhamos antes e permanecerá. Isso não se tira mais.

Correio da Cidadania: Como você acha que as coisas vão se desenvolver após a Copa das Confederações, um momento em que não haverá tantos holofotes internacionais voltados para cá?

 

Mayara Vivian: Acho que existem vários caminhos de luta. Voltar para a base e aprofundar a discussão política na sociedade é importante. E é o que criará base para, na Copa do Mundo, o movimento estar fortalecido. A Copa está aí e a gente volta com toda força. Agora, tão importante quanto estar na rua é ter discussões com as periferias, que inclusive já estão nas ruas.

 

A discussão de mobilidade urbana, do direito à cidade, enfim, toda uma cultura de discussão foi criada. Só faz crescer o movimento. Para nós, a repercussão internacional é só uma consequência, a causa somos nós que fazemos.

 

Correio da Cidadania: Como que o MPL está se preparando para continuar a luta pela tarifa zero?

 

Mayara Vivian: Hoje (27 de junho, data da entrevista) estamos fazendo essa aula pública que é parte da nossa agenda. No dia 3 de julho, haverá ato na praça Oswaldo Cruz, ironizando os cinco pactos da Dilma: estamos devolvendo os cinco pactos para ela, e um deles é a tarifa zero. O movimento compõe, no sentido de defender a tarifa zero, mas também de somar nas lutas dos companheiros por outras pautas. E seguimos mobilizados.

 

Correio da Cidadania: Além da tarifa zero, que outras bandeiras devem entrar na agenda do movimento?

 

Mayara Vivian: A luta pela moradia, contra os despejos e pelo congelamento dos alugueis, que são pautas do Resistência Urbana, um pessoal que está “colando” com a gente. Jornada de 40 horas semanais e contra a terceirização são pautas dos companheiros de entidades sindicais. A questão da educação e da saúde está sendo colocada pelo pessoal do Fórum Nacional pela Saúde. Tem também a o tema dos 10% do PIB para educação, e já. Não é para daqui a 30 anos, queremos já! A desmilitarização da polícia e a regulamentação das armas menos letais são outra pauta. São cinco pautas que logo soltaremos na internet, pela mídia (principalmente as redes sociais), a fim de formar essa coalizão de movimentos sociais.

 

Correio da Cidadania: O prefeito Haddad anunciou, no ato da revogação do aumento da tarifa, que o corte seria feito às custas de investimentos. A pauta da estatização do transporte público não se coloca como necessária mediante posturas como essa?

 

Mayara Vivian: Primeiro que eles, Haddad e Alckmin, sinalizaram uma manobra muito baixa, que foi colocar a redução da tarifa ou a possibilidade da tarifa zero vinculada necessariamente a um corte de recursos da saúde e educação. Isso é mentira! A saúde e a educação têm impostos vinculados. E por serem impostos vinculados, eles precisariam de uma reforma tributária para mexer nisso. Fizeram de barganha, para enganar o povo e jogar o povo contra si mesmo. Isso é ridículo! Nenhum governante até agora, nas três esferas, seja municipal, estadual ou federal, sequer mencionou mexer nos lucros dos empresários.

 

Nós não temos nenhuma margem concreta de quanto é este lucro e se o povo concorda ou não com tais ganhos. Portanto, antes de mais nada, antes de pensar na estatização ou não, vamos atacar o lucro dos empresários. Para mim, estatizar e municipalizar são coisas importantes, porque assim o transporte deixa de ser visto como o lucro de alguém e passa a ser visto como um direito. Mas, antes disso, o lucro dos empresários nunca foi atacado e, mesmo depois de tantas mobilizações, continua intocado.

 

Correio da Cidadania: Como você avalia a reunião do movimento com a presidenta Dilma Rousseff?

 

Mayara Vivian: Fomos para sinalizar que estamos sempre abertos ao diálogo, e cumprimos isso. Mas, de fato, foi lamentável ver que a presidenta apresentou propostas que não têm nada a ver. Ela se dispôs a ouvir as vozes que estão nas ruas, mas parece que ela não largou o telejornal uma vez, né? Porque as vozes que estão nas ruas estão falando de tarifa, de tarifa zero e redução da tarifa, e ela veio com um papo para nós de que “o problema é o transporte de massa, que precisa colocar veículos sobre trilhos”.

 

Apreciamos a preocupação do governo em transportar o pessoal, mas não adianta ter uma megaestrutura de transporte se o povo não tem dinheiro para pagar. A Dilma deve estar andando de carro há muito tempo e esqueceu que o povo que anda de ônibus não tem dinheiro para pagar o ônibus. Essa é a principal reivindicação e a gente não ouviu nenhuma medida concreta que realmente resolva o problema da tarifa.

 

Correio da Cidadania: O MPL pretende declarar publicamente uma posição política mais clara, diante da variedade de pautas colocadas pela mídia corporativa e em função de ofensivas perpetradas pela direita?

 

Mayara Vivian: Já soltamos notas falando exatamente sobre isso: que estas pautas conservadoras voltem para casa e que mobilizem os seus próprios atos, pois não são bem vindas nos nossos. Somos um movimento social de esquerda e anticapitalista, e tais pautas conservadoras não são bem vindas.

 

Agora, em relação à ampliação do leque de pautas: o MPL nunca se colocou e não vai se colocar jamais como dirigente, como líder ou como interlocutor do movimento que está nas ruas. Todo mundo é livre para reivindicar a pauta que quer e, sendo uma pauta anticapitalista, apoiamos, mas vale ressaltar que o foco dessa luta começou, sim, com a questão do transporte. Começou em 2003 em Salvador e cresceu nos últimos dez anos.

 

É porque o transporte público está caro demais! É porque o povo tem que tirar dinheiro do arroz e feijão para pagá-lo e é esse o mote principal que gerou toda a mobilização.

 

Correio da Cidadania: Quanto aos presos políticos, o MPL está buscando alguma forma de solução e negociação conjunta de sua condição?

 

Mayara Vivian: Tanto em carta quanto pessoalmente, intimamos a Dilma a resolver esse problema, até porque, como ex-guerrilheira, o mínimo que ela tem de fazer é compreender que as prisões têm um fundo político, são uma tentativa clara de criminalização dos movimentos sociais, e pedimos a retirada imediata de todos os processos. Sinalizamos que seguimos nos mobilizando pela retirada total dos processos. É o mínimo que deve ser feito! Não só em São Paulo como em todas as cidades do país, não só na luta pelo Passe Livre, onde vimos os nossos camaradas sendo presos, mas na questão indígena e em todas as outras. Portanto, queremos a retirada dos processos e exigimos que isso nunca mais aconteça na história desse país.

 

Correio da Cidadania: E o que a Dilma respondeu em relação a isso?

 

Mayara Vivian: Ela não respondeu absolutamente nada. Não respondeu sobre o transporte e nem sobre os presos políticos, nem sobre nada. Mas se ela não respondeu, nós responderemos nas ruas. E estamos bem articulados, com Defensoria Pública e com o Ministério Público, pela retirada desses processos. Vamos continuar mobilizados. E se todo mundo está pagando três reais no ônibus e economizando um trocado no fim do mês, é porque esse povo foi preso, de forma que o mínimo a ser feito é não abandoná-los agora.

 

Raphael Sanz e Gabriel Brito são jornalistas; Valéria Nader, jornalista e economista, e editora do Correio da Cidadania.

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Última atualização em Qui, 11 de Julho de 2013
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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