Plebiscito e Senado

 

 

Nesta semana aconteceram duas apurações de votos. Muito diferentes e contrastantes. Uma no Senado, sob o estardalhaço da imprensa, para conferir a cassação do seu presidente por falta de decoro parlamentar.

 

Outra apuração foi realizada pelo Brasil afora, silenciosa, ignorada pela opinião pública, mas minuciosa e responsável, para contar os votos do plebiscito contra a privatização da Vale do Rio Doce.

 

No Senado, os eleitores eram só oitenta e um. Tinham um sofisticado aparato técnico, e eram regiamente servidos de recursos públicos para realizarem sua votação.

 

No plebiscito, todos os eleitores brasileiros podiam participar, mas os organizadores do pleito não contavam com nenhum recurso público. Até as cédulas precisaram ser impressas por iniciativa dos eleitores. Assim mesmo, muitos abnegados cidadãos garantiram uma organização mínima, assegurando a seriedade da votação.

 

No plebiscito não havia recursos públicos. No Senado a grande questão era o desvio de recursos públicos por parte de quem devia zelar por eles.

 

A eleição do Senado foi feita de maneira secreta, não para garantir sua lisura, mas para esconder, com vergonha, o que estavam fazendo.

 

No plebiscito, a participação era livre e aberta, não estando em jogo nenhuma vantagem pessoal. Ao contrário, os eleitores manifestavam, abertamente, sua preocupação com o destino das riquezas naturais do Brasil, para que sejam colocadas a serviço do interesse público de toda a nação.

 

O resultado da votação secreta do Senado escancarou a gravíssima crise de credibilidade das instituições políticas do Brasil, enredadas na mesquinhez da disputa de poder e na sede insaciável de apropriação indébita de vantagens financeiras por parte dos detentores de mandatos políticos.

 

Diante deste panorama, o plebiscito teve o salutar significado de apontar o caminho indispensável para assegurar os destinos do Brasil: a ativação da cidadania, para que o povo recoloque as instituições políticas nos trilhos da verdadeira democracia.

 

As duas votações, por caminhos opostos, alertam para a gravidade da situação política que estamos vivendo.

 

De um lado, as instituições políticas oficiais estão perdendo a confiança do povo, e se mostram alienadas e ineficazes.

 

Por outro lado, a apatia provocada por esta situação se traduz em desilusão e abatimento por parte da cidadania, que acaba desacreditando de sua própria capacidade de inverter a situação.

 

A realização deste plebiscito foi muito mais difícil do que o realizado em 2002 sobre a ALCA. O povo carrega o peso das dificuldades cotidianas. As articulações são mais complicadas, as lideranças estão diminuindo, as utopias estão em baixa, e as questões nacionais estão longe das pessoas.

 

Tudo isto dificultou a realização deste plebiscito. Ainda se aguarda o resultado final em todo o país, para conferir a média geral de participação, pois houve situações muito diferenciadas.

 

Na região de Jales, o plebiscito foi claramente puxado pela Igreja. Nos 46 municípios compreendidos pelo território da Diocese, com mais de duzentos mil eleitores, o plebiscito registrou uma participação de 21.354 votantes.

 

O resultado da eleição no Senado continua incomodando os senadores. O resultado do plebiscito nos anima a resgatar a política para lhe devolver sua dignidade.

 

Precisamos decifrar a mensagem que este plebiscito apresenta. Ele aponta muitas lições que precisam ser tiradas.

 

 

D. Demétrio Valentini é bispo de Jales - Web Site: www.diocesedejales.org.br

 

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