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Em memória de Affonso Arinos Imprimir E-mail
Escrito por José Benedito Pires Trindade   
Sexta, 28 de Junho de 2013
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“Que cem flores desabrochem, que cem escolas de pensamento rivalizem entre si” (Mao)

 

Ainda meses atrás, as coisas andavam tão modorrentas no país que não seria inapropriado ver nessa malemolência ares de Macondo, tal a pasmaceira. Quem duvida que consulte as manchetes dos principais jornais do país ao longo desse primeiro semestre. Em janeiro, as eleições em Israel e a internação compulsória de dependentes de crack ganham destaque; em fevereiro, homofobia, confirmação por Lula que Temer continuará vice de Dilma; em março, a reeleição da presidente Dilma no primeiro turno, e por larga margem de votos, segundo DataFolha e Ibope, é um assunto recorrente; em abril, PEC das Domésticas, mensalão, bolsas de estudo no exterior vão às cabeças dos noticiários.

 

Em maio, há um mês, a Folha de S. Paulo mancheteia: “Com ajuda federal, São Paulo subirá ônibus abaixo da inflação”. Estadão: “Dilma pressiona e tarifa de ônibus em São Paulo fica em R$ 3,20”.

 

Oh, ironia! Quem poderia imaginar que menos de 20 dias depois dessas manchetes São Paulo estaria conflagrada pelo aumento, que a presidente forçou reduzir, e que ela própria estaria na linha de tiro dos manifestantes?

 

Toda essa longa introdução para relembrar a velha lição de “que tudo o que é sólido dissolve-se no ar”. Talvez o mais perspicaz dos observadores do drama humano sobre a terra, Marx lembra-nos que há anos que parecem decorrer com a lentidão de séculos; mas há séculos que se condensam em poucos dias, tal a velocidade das mudanças. Ou como prosaicamente diria Benedito Valadares: “A política é como as nuvens: você olha para cima, elas estão com um formato; volta a olhar, já mudou tudo”.

 

Mas, voltando a Marx, não se trata de uma erupção espontânea, sem origem ou causa. O fato de a fermentação não ter sido pressentida, identificada, não quer dizer que não existisse, há tempo. Faltava um catalisador, qualquer que fosse, até mesmo os 20 centavos da passagem de ônibus. Se a dita “pauta de reivindicações” não é clara, pelo contrário, permanece difusa, hesitante, à procura de bandeiras, isso não quer dizer que a insatisfação não exista; se não houvesse insatisfação, e caso não fosse tão forte, e há tempos acumulada, não haveria manifestações.

 

Há quem reclame do oportunismo, do “casuísmo” de certas bandeiras. Certo. O repúdio à PEC 37 é um bom exemplo desse paraquedismo. Raríssimos dos que foram às ruas sabem do que se trata. Mas isso também não anula os atos; nem a reivindicação da volta da tomada de dois furos.

 

A “Guerra do Pente”, em Curitiba, é um exemplo clássico dessas erupções incontroláveis que condensam, em dias, anos de contradições e descontentamento. Em novembro de 1959, um consumidor desentende-se com o dono de uma loja ao comprar um simples pente. O conflito entre os dois amplia-se e transforma-se na briga de outros consumidores com outros donos de lojas. Em poucas horas, a cidade estava conflagrada e a quebradeira só acabou três dias depois, com a intervenção do exército.

 

Um pente ou 20 centavos, a faísca pode ser qualquer coisa.

 

Aproveitadores? Arruaceiros? Vândalos? Provocadores? Tão inevitáveis quanto a presença dos vendedores de pipoca.

 

Nas manifestações nos anos 60 e 70 contra a ditadura militar, a direita via em cada jovem protestante um perigoso comunista; hoje, setores da esquerda, instigados pelas fantasias da “teoria da conspiração”, tendem a ver fascistas em cada brutamonte “sarado” que rasga bandeiras vermelhas com os dentes. Que os há, há. E seria surpreendente se a direita, tão bem organizada e atuante na mídia e nas redes sociais, não fosse às ruas tirar proveito da insatisfação popular. E, nas ruas, incentivasse palavras de ordem contra os partidos, especialmente os de esquerda (ou supostamente de esquerda, diga-se).

 

A imprecisão das reivindicações, as ações de marginais e a brutalidade dos fascistas não podem servir de pretexto para os partidos de esquerda, à esquerda ou ditos de esquerda cercar de vírgulas, interrogações, reticências e dedos as ditas “vozes das ruas”.

 

O PT, principalmente, parece pouco à vontade. É visível o desconforto. E certo ressentimento, certa mágoa. As dezenas de milhões de brasileiros alçados da miséria à classe média; a apresentação desses brasileiros ao maravilhoso mundo novo do consumo; a ampliação do Bolsa Família; depois da casa própria, os móveis e a geladeira e até um carro; a carteira assinada, o emprego preservado; o cartão de crédito; O Enem, o Pro-Uni, o acesso à faculdade e o anel de doutor; as cotas... “Onde está essa gente toda?”, pergunta o PT e não ouve resposta.

 

Um dos debates centrais nos partidos comunistas da União Soviética e de países do Leste Europeu, em determinada época, antes da grande degringolada, opunha os que defendiam privilegiar o estímulo espiritual e os que defendiam dar prioridade ao estímulo material aos trabalhadores. Espiritual, no caso, no sentido de político, ideológico, o alimento da alma socialista; e material no sentido de prover a sustentação dos trabalhadores e de premiá-los com bens de consumo até mesmo supérfluos.

 

Os que defendiam forte atenção ao estímulo espiritual advertiam para os riscos da despolitização, da descaracterização ideológica dos que tinham sido beneficiados pelo regime; dos riscos do retrocesso do regime, à medida da deseducação das massas.

 

A sequência dessa história todos conhecem.

 

A há pouco falecida Margareth Thatcher, a encarnação do neoliberalismo, é filha de quem?

 

É filha do Estado de Bem-Estar Social, implantado pelos trabalhistas na Inglaterra do pós-guerra. Seu pai, pequeno comerciante, lucra com as reformas que aumentaram o poder aquisitivo dos trabalhadores, e a jovem Margareth rompe barreiras históricas e torna-se orgulho da família quando se forma em uma faculdade.

 

Os trabalhistas não se preocuparam com a politização da moça Margareth e de outros filhos das conquistas e avanços sociais. E serão esses rebentos os coveiros do Estado de Bem-Estar, os destruidores das reformas que elevaram grandemente a qualidade de vida do proletariado inglês. É claro, o próprio afrouxamento político do Partido Trabalhista e dos sindicatos contribuiu para facilitar a tarefa dos tories.

O PT comporta-se da mesma forma. Aboletado no poder, satisfeito com a série gloriosa de conquistas nunca dantes alcançadas, o PT pouco se dá, lixa-se para a formação de quadros intermediários, dá uma solene banana para a educação das massas. Despertada para o consumo, a nova classe média, sem uma vírgula de política na cabeça, quer mais, um pouco mais, mais ainda. E, daqui a pouco, estará (se é que já não está) nas ruas gritando contra a “gastança pública”, o “Estado pantagruélico”.

 

Já os sindicatos, as federações e centrais sindicais, uniformemente apelegados... O que esperar deles a não ser uma pauta econômica, a briga por vantagens econômicas, migalhas econômicas sobradas da hiperexploração neoliberal? Envelhecidos, ideológica ou fisicamente grisalhos, cansados da luta, os nossos líderes sindicais aposentaram-se da política, ensacaram o velho sonho socialista, abdicaram da luta de classes, unilateralmente porque a burguesia jamais abriu e abrirá mão de seu primado de classe, de sua condição de classe.

 

A (nova) esquerda, que, de certa forma, o PT encarnou da dita redemocratização aos dias de agora, estiolou, caiu do galho, murchou e faleceu. Requiescat in pace. A (velha) esquerda que se diz marxista – PcdoB, PCB, PCR, PCO, PSTU – tem raio de alcance e de influência restrito, quando não marginal. Ainda assim, alguns partidos deste bloco, notadamente o PCdoB, fizeram toda sorte de concessões, genuflexões e renúncias que vexariam até mesmo os eurocomunistas de antigamente.

 

Com a redemocratização (quid prodest?), o que restara das organizações de esquerda surgidas nas décadas de 60 e 70 – quase todas cisão do cepo original, o PCB – dissolve-se para contribuir com a fundação do PT. A adesão de velhos combatentes comunistas, como Apolônio Carvalho, à organização de um partido de massas e “democrático” exemplifica esse movimento. A energia, a valentia, a experiência e os erros acumuladas em décadas de resistência à ditadura são carreados para a participação no processo institucional, para eleger vereadores, deputados, prefeitos e mais.

 

Não houve quem propusesse a continuidade da luta armada, a resistência clandestina. Mas houve quem alertasse para os limites do combate institucional, para as armadilhas letais nesse caminho. E não se tratava de alertas de profetas, de homens ou mulheres iluminados. Bastava que se abrissem os olhos para história.

 

A modo do país, nas circunstâncias e limites dados, tivemos cá também os nossos “dois todos” e as nossas “três pacíficas” tropicais. Que geléia!

 

Em 1983, já nos estertores da ditadura militar, quando o país vivia uma fortíssima crise, com forte desemprego, arrocho salarial, aumento da inflação, pressão do FMI para que houvesse mais apertos, credores externos comportando-se como sequiosos arrematadores de massa falida, Afonso Arinos elevou as mãos aos céus e agradeceu porque no Brasil “não havia um partido bolchevique e, pior ainda, não havia um Lênin para comandar esse partido” e galvanizar a insatisfação das ruas.

 

O velho conservador, o udenista empedrado por suas concepções e interesses de classe, revelava-se mais lúcido que a esquerda de então, clandestina e “legal” (setores do PMDB, PDT e PT em formação, preocupada mais em conter as massas, para que não houvesse um retrocesso na abertura lenta e gradual. O velho conservador entendia a essencialidade do(s) partido(s) no processo de transformação. Pois é.

 

Esse é tempo de partido

tempo de homens partido (CDA, Nosso Tempo)

José Benedito Pires Trindade é jornalista.

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Última atualização em Segunda, 01 de Julho de 2013
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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