Belo Monte e os protestos

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Por algum tempo, desde que vim morar na cidade de Altamira, na beira do rio Xingu, em 2008, eu achei que seria possível impedir a obra de Belo Monte através de mobilização e protestos que se espalhariam pelo Brasil e pelo mundo. Na época, fiquei impressionado com a participação popular em passeatas e todo o tipo de manifestações políticas nessa cidade, então com apenas cerca de 60 mil habitantes. Imaginei que os protestos cresceriam em frequência e dimensão depois das obras começadas, as mentiras do projeto seriam desmascaradas e as ilusões de enriquecimento do povo e melhoria da cidade seriam desfeitas.

 

A desilusão do povo de fato se confirmou, mas minha expectativa quanto à sua conversão em protestos nem de longe correspondeu à verdade. Hoje, praticamente todos trabalham na obra, ou têm alguém próximo que trabalha, enfim, todos dependem de alguma forma do dinheiro que Belo Monte faz girar. Quase ninguém enriqueceu, só quem já tinha dinheiro para investir. O povo da cidade mesmo está mais pobre e vivendo pior, pagando mais caro por comida e aluguel, e agora é dependente de Belo Monte para viver. E os protestos na cidade, ao invés de aumentarem, acabaram quase que completamente.

 

Quando essa situação se definiu, me achei muito ingênuo por ter chegado a acreditar no poder desses supostos protestos de afetar Belo Monte. Mas a imagem do muro de pedras, acrescido de arame farpado ao modo de barricadas de guerra, erguido na frente da entrada do principal canteiro de obras de Belo Monte, mostra que talvez eu não fosse tão ingênuo assim, ao acreditar no poder dos protestos. Afinal, ele foi erguido às pressas nos últimos dias, depois que eclodiram manifestações por todo o país.

 

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Eu soube de citações, aqui e ali, à luta contra Belo Monte entre as inúmeras motivações associadas à revolta dos 20 centavos. Faz todo sentido, porque a lógica desta obra é justamente aquela criticada pelos manifestantes. Belo Monte, com seu histórico absurdo de desrespeitos às leis e irregularidades comandadas pelo próprio governo federal (neste caso, com Dilma à frente desde sempre, seja como ministra das Minas e Energia, da Casa Civil ou na Presidência), é um ótimo exemplo desse descontrole dos poderosos, que passaram do limite por conta de sua ganância e correm o risco de perder a galinha-dos-ovos-de-ouro porque quiseram que ela botasse mais do que dava conta.

 

Se o movimento tiver tempo para amadurecer, os manifestantes perceberão que a luta pelo transporte, pela saúde e a educação envolve necessariamente a preservação do meio ambiente e uma politica energética justa. Afinal, os bilhões de dólares gastos na obra que beneficiará essencialmente os grandes consumidores de energia, trazendo mais desmatamento e miséria para o nosso povo, são drenados de recursos que poderiam ser investido nessas áreas.

 

Sem dúvida, parece ingênuo acreditar que esses protestos possam de alguma forma afetar Belo Monte. Mas, se até o “Belo Monstro”, no meio do mato nos rincões da Amazônia, parece acreditar, dada a montanha de pedras que juntou para se proteger das multidões que protestam nas capitais, por que nós não acreditaríamos?

 

Rodolfo Salm, PhD em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, é professor da UFPA (Universidade Federal do Pará) em Altamira, e faz parte do Painel de Especialistas para a Avaliação Independente dos Estudos de Impacto Ambiental de Belo Monte.

Comentários   

0 #4 Pior que a ditaturaAlessandro 02-07-2013 19:20
A barrage de Belo Monte nem a ditatura militar teve coragem de fazer . E o PT insiste .
Companheiros com essa deixei te ser petista .

Se for realisada sera o maior crime ambiental do seculo 21 .
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0 #3 RE: Belo Monte e os protestosLuis Ramirez 27-06-2013 20:02
Impressionante como todo artigo do professor Salm é implacavelmente "premiado" com comentários absurdamente arrogantes de quem vem propagandear uma obra desastrosa, fraudulenta e ultracorrupta. sempre cagando regra e desmerecendo o incontestável trabalho do professor, reconhecido até fora do país. A evidência de como é gente teleguiada, portanto, nada gratuito, é que nao ha nenhum argumento pra contrapô-lo. nunca. mas a desqualificação pessoalizada sempre diz presente. Qualquer semelhança com os mil negócios escusos e as máfias propagandistas não é mera coincidência.
Morte a Belo Monte, que tomara que entre na pauta de luta dessas brilhantes mobilizações.
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0 #2 RE: Belo Monte e os protestosvaldir 27-06-2013 09:29
Como disse o professor, ele chegou aqui em 2008, pouco mais de 4 anos. Eu cheguei aqui em Altamira em 1972, a 40 anos. Eu poderia escrever o mesmo texto, por uma outra ótica, totalmente diferente da dele. Apenas 4 anos é muito pouco para uma pessoa conhecer as entranhas dessa região. Se algumas coisas não melhoraram, muitas outras sim, e ele não esta sendo imparcial, ou seja, cada um com sua "verdade". Professor, voce precisa aprender muito ainda, com a escola da vida.
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0 #1 Sair da armadilha, PTAlessandro 25-06-2013 04:21
O PT caiu na armadilha .Enquanto o Lula era financiado e bajolado pelos meios de comunicacao de massa , o governo se corrompeu , privatizou ,arroinou a previdencia ,entregou reservas de petroleo , demoralizou os movimentos socias e o que e pior executou um modelo economico ultrapasssdo para esse seculo e altamente degradante do ponto de vista ecologico.Posso imaginar de onde vem a organizacao dessas manifestacoes .La de ultramar .Agora a direita nao necessita mais do PT .Usar e descartar .
Ha unica alternativa de sobrevivencia e reconhecer os erros e mudar de rumo . comecando por CANCELAR a construcao do mosntro que representa a belo monte.
Atenciosamente
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