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Escrito por Paulo Passarinho   
Sábado, 22 de Junho de 2013
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Definitivamente, as manifestações que tomam conta do país entram para a nossa história. São mobilizações populares de dimensões jamais imaginadas, ocorrendo de forma seguida, crescente e envolvendo um número cada vez maior de cidades.

 

As manifestações oferecem as mais variadas formas de explicação, para as suas razões. “Mudar o Brasil” é a bandeira que, talvez, melhor sintetize o espírito e ânimo dos que engrossam cada vez mais os protestos.

 

Mas mudar o Brasil por quê?

 

Porque há um forte sentimento de frustração com o mundo da política, os políticos e suas instituições. Mostra que o desprezo que esse mundo dispensa ao que é de interesse público tem o seu preço. A apropriação desse mundo pela lógica dos interesses empresariais, privados, coloca o que de fato deveria ser prioritário – o interesse público – como uma questão menor ou meramente retórica.

 

A melhor tradução desse tipo de divórcio, entre a ação política real e o interesse público, ficou escancarado com o conjunto de abusos que as chamadas obras da Copa produziu.

 

Em um contexto onde são gritantes as carências essenciais do povo – como a saúde, a educação e os transportes urbanos –, muito dinheiro foi utilizado para a construção de estádios para lá de questionáveis, com preços astronômicos e inúmeras vantagens para um seleto número de empresas.

 

A pergunta sobre o porquê da necessidade de mudanças também encarna um curioso e aparente paradoxo: afinal, não estamos atravessando um auspicioso momento histórico? Os economistas da ordem vigente não nos garantem que estamos tendo uma grande melhoria da renda e do consumo das populações mais pobres? Milhões de brasileiros não teriam ascendido à classe média?

 

Pois, bem. A realidade dos protestos nos mostra outra coisa. Mostram não somente insatisfações difusas. Mostram revolta. Mostram ódio contra décadas de embromação, mentiras e falsidades de toda ordem.

 

São inúmeros os exemplos de ações violentas, tipificadas pela mídia dominante como meramente atos de vandalismo.

 

Pode ser. Mas há um claro sentimento de vingança no ar. Justificáveis ou não, essas ações também fazem parte da realidade das manifestações. Da mesma forma como faz parte do nosso dia a dia os anos de martírio e mortes diárias nos hospitais públicos, sucateados, privatizados e com os seus servidores desvalorizados. Ou as décadas em que assistimos à desvalorização dos profissionais de educação e a degradação da qualidade do ensino das escolas públicas.

 

Mas não sejamos ingênuos: há a provocação também. E provocação oficial. No Rio, a ação da PM, na manifestação que levou uma multidão incalculável para a Avenida Presidente Vargas, foi francamente terrorista. Tropa do BOPE perseguindo manifestantes, policiais cercando e intimidando estudantes dentro de faculdades e atacando até mesmo o hospital Souza Aguiar, enquanto, ao mesmo tempo, “mascarados” agiam com grande liberdade...

 

E o maior paradoxo de todos: há mais de dez anos, o governo federal é dirigido por uma coalização de forças que tem no PT o seu principal protagonista. O mesmo PT que chegou a essa posição, com contundentes críticas ao modelo econômico dos bancos e das multinacionais, inaugurado com Collor e consolidado com FHC. O mesmo PT que, uma vez lá, fez uma vergonhosa composição com os donos do sistema financeiro.

 

Chegou a hora de cobrar responsabilidades. Lula e Dilma, como os presidentes pós-2002, devem explicações: quais foram as razões para, sendo vitoriosos eleitoralmente, terem capitulado politicamente e assumido as ideias dos derrotados nas urnas?

 

Por que renunciaram à revisão das malfadadas e ilegais privatizações?

 

Por que renunciaram ao compromisso histórico com a reforma agrária e a reforma urbana?

 

Por que renunciaram à efetivação de uma ordem tributária socialmente justa?

 

Por que renunciaram à auditoria da dívida pública?

 

Por que renunciaram à regulação democrática das concessões de rádio e televisões?

 

Por que mantiveram o ataque à previdência social pública e os leilões de um petróleo que deveria ser monopólio estatal?

 

E por que se atiraram nos braços de bancos, empreiteiras e barões do agronegócio?

 

Essas são perguntas que, frente à gravidade do momento político, deveriam ser, com coragem e dignidade, respondidas por Lula e Dilma.

 

Afinal, por trás da bandeira do “mudar o Brasil”, não se encontram as antigas promessas que fizeram o velho PT chegar lá?

 

Paulo Passarinho é economista.

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Última atualização em Segunda, 24 de Junho de 2013
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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