“Proálcool mundial”: lucros privados e custos sociais crescentes

 

 

Depois da visita do presidente Bush ao presidente Lula no início de 2007, as discussões sobre a substituição pelo etanol do consumo da gasolina no sistema automotivo norte-americano ganharam manchete e o antigo Proálcool brasileiro ganhou foros de figurino internacional. No entanto, a matriz da economia política do Proálcool brasileiro não aparece na grande mídia com as tinturas reais das relações econômicas e sociais que produz e reproduz. Por isso, a discussão em geral escapa para uma versão estritamente mercantil privada quando, na verdade, é o custo social da opção “Brasil, grande canavial” o grave problema que se nos coloca no presente.

 

A passagem de um Proálcool brasileiro para um “Proálcool mundial” contém uma transição de enorme magnitude, fundamentada na escassez permanente do petróleo e na hipótese do álcool como o melhor substituto mundial da gasolina. Neste contexto, o Brasil disputaria com vantagem o lugar de mega-abastecedor do consumo automotivo norte-americano e europeu. O argumento adicional do consumo ecologicamente limpo cai como uma luva na mão aos ideólogos do “Proálcool mundial”.

 

Mas se optarmos por desnudar e desvendar o verdadeiro estado da arte do “Proálcool mundial”, é preciso ir ao cerne da questão: a matriz das relações trabalhistas, fundiárias e ambientais que a economia canavieira produz e reproduz todos os anos. É esta que seria multiplicada por cinco ou por dez em poucos anos na hipótese de a produção do álcool entrar no padrão do consumo automotivo mundial, segundo o ritmo desejado pelos ideólogos do agronegócio.

 

Neste artigo não cabe uma análise das conseqüências dessa opção sobre os preços dos alimentos, sobre o impacto ambiental ou mesmo sobre as conseqüências econômicas da especialização que se está perseguindo com o “Proálcool mundial”. Mas uma breve descrição de como este acontecimento impacta o mercado de trabalho no setor sucroalcooleiro e nos alerta para um dos aspectos de custo social que a opção “Brasil, grande canavial” acarreta.

 

Entre 2000 e 2006, já sob o bafejo do novo regime cambial (durante o segundo mandato de FHC) e dos incentivos à expansão do setor sucroalcooleiro, a área plantada de cana-de-açúcar cresce de 5,0 milhões de hectares para 7,04 (safra 2007/2008). No mesmo período, a produção física cresceu em números-índice de 100 para 138, enquanto o emprego total da força de trabalho decresceu (também em números-índice) de 100 (2000) para 72 (2003), segundo a fonte PNAD-IBGE.

 

O mais grave no mercado de trabalho da cana é que se observa, no mesmo período, uma verdadeira explosão epidêmica, com elevação significativa dos auxílios-doença concedidos, que passaram de 100 em 2000 para 275 em 2005. Isso se deveu basicamente à incidência de doenças osteomusculares, provocadas pelas jornadas de trabalho excessivas impostas pela economia canavieira a uma população sem opções de trabalho (Fonte dos dados primários – Pesquisas sobre Benefícios por Incapacidade IPEA/Ministério da Previdência Social).

 

Como na economia de trabalho, no sistema ambiental e nos preços dos alimentos há evidentes custos sociais (não computados no cálculo econômico privado), impostos pela expansão canavieira, à revelia da função social da propriedade fundiária. Somente os benefícios são privados, e cada vez mais concentrados.

 

Reforçar essa matriz, elevando-a a uma potência enésima, não desenvolve o país, mas sim aprofunda suas desigualdades. Mas, infelizmente, este argumento dos custos sociais crescentes não entrou no espaço estatal – áreas macroeconômicas, setorial e externa, que continuam a formular suas respectivas políticas segundo a ótica estritamente privada do agronegócio.

 

 

Guilherme C. Delgado, economista do IPEA, é membro da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.

 

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