Dilma, a Copa e a Hora do Pesadelo

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Há algo de bastante curioso no fato de Dilma haver sido vaiada no estádio Mané Garrincha na tarde do último sábado (15/06). Curioso, talvez, não seja exatamente o termo, e sim espantoso, surpreendente, extraordinário. Contraditório, sobretudo, porque foi pensando principalmente nestes, que foram ao estádio, e articulando-se com estes, que o seu partido comandou uma ampla aliança política que tem governado o país desde 2003.

 

Nestes, os que podem se dar ao luxo de pagar centenas de reais para presenciar um simples jogo de futebol. Os que, numa situação de crise, são salvos sempre em primeiro lugar. Os que se beneficiaram de que, por exemplo, durante os governos Lula, a Bolsa de Valores de São Paulo tenha experimentado a sua “era de ouro”, de que o agronegócio tenha se convertido no modelo do desenvolvimento agrícola brasileiro e de que os possuidores, nacionais e estrangeiros, de títulos da dívida pública tenham recebido os maiores juros do mundo.

 

Foi estranho ver Dilma constrangida naquele momento. Queria aplausos, sem dúvida. Queria ver reconhecidos os esforços de sua trupe ao longo desses anos todos. Um anseio coerente, por certo, mas que acabou frustrado. Podemos imaginar o que se passou em sua cabeça naquela hora: “O que? Tanta dedicação para proporcionar-lhes um espetáculo digno de primeiro mundo e o que recebo são... vaias!?” É compreensível a expressão de desconcerto de Dilma captada pelas câmeras. Parem o mundo, afinal, que eu quero descer.

 

O sonho secreto das forças políticas que comandam o Estado brasileiro há décadas é precisamente este: uma conciliação ampla e irrestrita entre trabalhadores e capitalistas, onde os primeiros, regalados com as migalhas oriundas das políticas assistencialistas e da ampliação do crédito, se assentam pacíficos em seus casebres diante de magníficas TVs, satisfeitos, extasiados, felizes e agitando freneticamente suas bandeirolas verde-amarelas, e onde os segundos fruem diretamente o espetáculo, para depois serem levados de helicóptero até seus catamarãs posicionados estrategicamente às margens de alguma praia paradisíaca.

 

Há algo, no entanto, que foge ao controle dos gerenciadores desse projeto infame: o sonho, não raro, se converte em pesadelo. A perplexidade da presidente ocorre num momento em que as ruas de algumas das principais cidades do Brasil são tomadas por protestos que são reprimidos com uma truculência digna de uma ditadura civil-militar.

 

Aqui, talvez seja bom lembrar a tese de Slavoj Zizek de que, no plano da cultura, as explosões de barbárie coletiva são o sintoma das oportunidades perdidas de realização da verdadeira emancipação social. Em outras palavras: a omissão de ação revolucionária, num contexto de crise, produz no “inconsciente” social uma espécie de vazio que permanece a pulsar (ou a insistir em vir a ser) e que se reflete em acessos de brutalidade explícita que realizam os íntimos anseios da ideologia dominante. Ou seja: o trauma das inações decisivas continua a nos espreitar e a nos assombrar, e irrompe, por vezes, na forma de grotesca crueldade generalizada (1).

 

A violência desmedida, por parte do Estado, que assistimos nos últimos dias contra o Movimento Passe Livre em São Paulo e contra os megaeventos em outras cidades do Brasil, não seria uma expressão desse fenômeno? Este, talvez, seja o grande perigo que corremos atualmente. Se tais premissas forem verdadeiras, é cada vez mais urgente e necessária, por parte das forças consequentes de esquerda, uma ação ofensiva organizada, consciente e intransigente capaz de combater na raiz e de impedir que o pesadelo social fascista volte a avançar e se afirmar sobre a realidade da nação.

 

Nota:

 

1. Os pogroms antissemitas, em 1938, e a violência neonazista pós-queda do muro de Berlin, na Alemanha, seriam, por exemplo, nesse sentido, na visão de Zizek, “uma reação ao reconhecimento (‘inconsciente’) da oportunidade revolucionária perdida”.

 

Referência:

ZIZEK, Slavoj. Bem-vindo ao deserto do Real! São Paulo: Boitempo Editorial, 2003.

 

Demetrio Cherobini é cientista social e doutorando em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina.

Comentários   

0 #1 BomZe Antonio 20-06-2013 15:49
Bom Temos que esclarecer o povo que o que nos dão são só migalhas. porque a realidade somos os fornecedores de mao de barata e nosso políticos são os mais mediocres do mundo e outras coisas mais e procuram o poder para usufrierem dele. Temos que ter um projeto histórico brasileiro, próprio ,não eurocentrico, exogeno e concentrador como sempre foi Valeu
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