Alguns comentários críticos ao artigo “Prostitutas felizes”, na Folha de S. Paulo

 

 

A respeito de mais uma polêmica provocada e vencida pela bancada evangélica, sobre campanha de prevenção sexual que envolvia a aparição de prostitutas nos anúncios oficiais, já suspensa pelo Ministério da Saúde, teço breves comentários a respeito do artigo do jornalista Helio Schwartsmann, intitulado “Prostitutas felizes”.

 

O artigo publicado pela Folha critica o conservadorismo da bancada religiosa, que, de acordo com seu autor, deveria respeitar o direito de escolha das profissionais do sexo. Em tal sentido, parto do que considero uma tese neoliberal, que defende a prostituição como qualquer outra profissão. Desse modo, creio serem cabíveis algumas indagações e reflexões.

 

Será que elas ou eles escolheram livremente a alegada “profissão”? Não existem condições sociais que empurram mulheres e homens – em geral pobres e lascados – a esse tipo de comércio forçado do próprio corpo? Não existem os organizadores e aproveitadores desse comércio? Não existem as comissões extorquidas por policiais desonestos para tolerá-lo?

 

Os que se beneficiam dessa venda compulsória do corpo alheio não se prevalecem de sua superioridade econômica e social para impô-la? Pode-se afirmar que é uma atividade legal? Que lei autoriza esse tipo de comércio e o protege? E deveria existir tal lei?

 

Uma das atividades essenciais do ser humano – o relacionamento erótico-afetivo – pode ser convertida num comércio pago e numa suposta “profissão” como qualquer outra? Não estamos idealizando a mercantilização extrema do ser humano, que leva até os limites em nossa sociedade a exploração capitalista de certos seres humanos por outros?

 

A solução correta não seria garantir a todos os homens e mulheres as condições econômicas para escolherem livremente seus parceiros ou parceiras e livremente exercerem o ato nobre e extremo de entrega mútua, por um momento ou para toda uma vida? Que algumas prostitutas ou prostitutos possam sentir-se subjetivamente felizes – apesar das condições impostas, restritivas e em geral degradantes da “profissão” que exercem – não pode ser o critério principal para avaliá-la.

 

É inegável, infelizmente, que a prostituição feminina e masculina ainda persistirá por muito tempo, favorecendo inclusive a propagação de doenças sexualmente transmissíveis, algumas graves e potencialmente mortais.

 

Justifica-se, portanto, numa atividade tão arriscada e vulnerável, a luta para reduzir as extorsões dos gigolôs, os abusos de policiais, as violências e o desrespeito de clientes, as faltas de cuidados para limitar as transmissões de doenças. Mas desde que essas medidas parciais sejam combinadas com a proposta e o empenho pela conquista de uma nova organização social, democrática e socialista avançada, que viabilize a abolição da prostituição feminina e masculina e garanta uma efetiva e responsável liberdade amorosa e sexual para todos.

 

O artigo de Hélio Schwartsmann pode ser lido aqui.

 

Duarte Pereira é jornalista.

Comentários   

0 #1 E tem maisPaulo Henrique Barbo 14-06-2013 12:17
Muito bom artigo, Duarte! Poderia ter também cutucado um outro argumento do Schwartsmann: o de que felicidade tem a ver com hereditariedade e, portanto, a condição de prostituta em nada teria a ver com felicidade ou infelicidade. Essa declaração foi uma pérola, uma besteira enorme entre as maiores que já vi na mídia burguesa. E serve muito bem também para justificar outras formas de exploração capitalista, pois, se o explorado tiver o gene da felicidade, não haverá exploração que o faça infeliz. Ah, cala a boca, Shwartsmann, representante da mídia burguesa, elitista, conservadora e justificadora da desigualdade!
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