A simbiose Renan - Lula

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O mau exemplo vem de cima aos borbotões. Para sustentar um morto-vivo na presidência do parlamento brasileiro, o Senado Federal teve que adquirir temporariamente as feições de um sarcófago. Conhecida em outros tempos como câmara alta, a casa funcionou como um curral enlameado, um verdadeiro baixio das bestas.

 

O voto foi secreto, a sessão foi secreta, os microfones e fios telefônicos foram cortados, os celulares proibidos. Não houve ata escrita ou registros gravados para a história de tudo o que foi dito em tal conclave de anormais. Os patrocinadores e os beneficiários do evento precisavam das sombras para agir com desenvoltura e alcançar o seu desígnio imediato. Conseguiram.

 

Todos sabem que se o voto fosse aberto e a sessão escancarada o resultado seria outro. Era preciso afastar os olhos do povo e estabelecer uma lacuna no registro histórico para que os maus representantes pudessem operar no contraponto dos anseios da consciência digna da cidadania. Para salvar não apenas o indigitado Renan, mas também o tipo de política que ele bem representa, o Senado Federal entrou na clandestinidade.

 

No teatro de sombras, rolou de tudo. Os jornais de véspera noticiaram que empresários pressionavam senadores. Não disseram quais, nem precisava. São os de sempre. A malha de cumplicidades que articula o mundo dos negócios com a política de negócios sempre opera na penumbra. Na sessão fechada, o acusado teve condições de distribuir ameaças e chantagens sem quebrar a “omertá”. E, longe dos olhos do cidadão, a bancada do PT adquiriu uma súbita desenvoltura na defesa do seu aliado. A elisão da ótica, como talvez diria o deputado Chico Alencar, facilitou ainda mais o avanço da “ilusão de ética”.

 

Ainda não se sabe ao certo qual será o desdobramento, no ânimo geral da sociedade, de mais esse tapa na cara da cidadania. O desencanto da massa do povo com a política, que já era grande, tende a aumentar. Ao mesmo tempo, é bom registrar que nas chamadas estruturas intermediárias que organizam minimamente a vida social a reação foi de rechaço e de manifesta indignação ao acontecido. Para estes, o tal “manto de silêncio” não funcionou. Serviu mais para mostrar do que para encobrir e, dependendo do rumo dos acontecimentos, pode virar mortalha para seus patrocinadores e beneficiários.

 

O circo montado para a fatídica votação secreta do Senado foi uma apoteose da pequena política. O governo jogou pesado. Nomeou para os altos escalões, liberou emendas, colocou seu líder e seu articulador político na tropa de choque. O PT operou de uma maneira no aberto e de outra no fechado. Quando Lula declarou que o importante era respeitar a decisão soberana do Senado, certamente, já sabia do acórdão.

 

Os vitoriosos com o resultado, execrados pela opinião pública, comemoram envergonhados. Os que perderam caminharão nas ruas de cabeça erguida. As “cartas dos leitores” recolhem o sentimento da cidadania. Os parlamentares que recorreram ao Supremo para furar o bloqueio funcionam como um enclave de vida no parlamento amortalhado. O pequenino PSOL, que desencadeou o processo, já engatilha outros petardos na cartucheira. São, entre outras, expressões do rechaço da sociedade ao tipo de governabilidade que, no episódio em pauta, adquiriu feições na simbiose Lula - Renan.

 

 

Léo Lince é sociólogo.

 

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