Não calamos

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Desde o descobrimento, o gigante Brasil vem sendo ocupado e construído com a luta e o trabalho dos expulsos da terra – índios, negros e brancos deserdados. Desde o descobrimento, os massacres, as prisões, os assassinatos e o sangue dessa brava gente semearam a resistência e a formaçãodo povo brasileiro.

 

Por isso, não calamos.

 

Desde o descobrimento, essa brava gente cultivou a terra amada, alimentou os seus filhos queridos e com alegria e esperança embalou sonhos de felicidade. Desde o descobrimento, as mãos calejadas pelo trabalho árduo, o suor dos dias ensolarados e as lágrimas dos sofridos calam fundo em nossos corações.

 

Por isso, não calamos.

 

Desde o descobrimento, a imensidão dessa terra em vez de dividida para muitos foi concentrada nas mãos de uns poucos senhores da terra. Desde o descobrimento, os recursos naturais desta generosa terra foram convertidos em mercadoria primária de exportação em detrimento de nossa brava gente. Acampamentos, ocupações, assentamentos e produção são lutas e conquistas.

 

Por isso, não calamos.

 

Desde o descobrimento, os quilombos, os mocambos e os cortiços foram a porta de entrada dos que ficavam sem terra para plantar, sem casa para morar e sem escola para aprender. Desde o descobrimento, os senhores da bonança e da fome, da vida e da morte, da liberdade e da escravidão são os senhores do amanhã.

 

Por isso, não calamos.

 

Desde o descobrimento, as matas, os pássaros, os rios e os peixes formam o abrigo natural da nossa gente guarani, xavante, terena e de todas as etnias indígenas. Desde o descobrimento, essa brava gente luta pela terra, pelo sol, pela lua, pelo ar, pela água, pela sobrevivência de suas crianças e do seu amanhã. Enfrentam o dinheiro, os fuzis e as cercas que oprimem e os expulsam de sua própria terra.

 

Por isso, não calamos.

 

Osvaldo Russo, ex-presidente do INCRA, é membro do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA).

Comentários   

0 #1 RE: Não calamosCarmem Rodrigues 10-06-2013 16:36
Gostei muito. Quando chegaremos a respeitar os primeiros habitantes deste país?
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