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Turquia: impressões do movimento de protesto em Ankara Imprimir E-mail
Escrito por Chilli Sauce   
Qui, 06 de Junho de 2013
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Eu estou vivendo em Ankara nos últimos seis meses e ontem à noite (01/06) tive a oportunidade de participar do protesto principal na cidade. De nenhuma forma quero dizer que esse relato é completo e comentários, adições e correções de outras pessoas que estejam mais familiarizadas com a situação com certeza serão benvindos.

 

Vou começar com algum contexto, depois um pouco de relato pessoal e terminar com alguma análise das táticas de protesto.

 

A situação política na Turquia: de um lado, temos um governo neoliberal, abertamente islâmico e cada vez mais autoritário no poder, o Partido AK. Na oposição, temos uma grande parte da população que se identifica com a tradição “Kemalista” de Kemal Ataturk, o fundador e primeiro líder da Turquia moderna. Há um verdadeiro culto de personalidade em volta de Ataturk e a sua foto pode ser encontrada em literalmente todo prédio público e lugar de negócios. Literalmente todos. Para os seus apoiadores, ele representa o secularismo e um liberalismo social estilo europeu que servira como barreira entre o povo e um governo abertamente islamista.

 

Todos os grandes partidos são abertamente nacionalistas e o principal símbolo que eu tenho visto durante os protestos vem sendo a bandeira nacional turca. Mas, frequentemente, parece que Ataturk é um símbolo que expressa ‘all things to all people’, expressa as queixas relativas a questões que vão desde o crescente fundamentalismo religioso, questões sociais, à crescente erosão das liberdades civis, à corrupção governamental, chegando até a preocupações econômicas.

 

O Partido AK (Partido da Justiça e Desenvolvimento) é o mais forte nas partes rurais da Turquia e a resistência ao governo tem sido mais forte nas cidades de Istambul, Ankara e Izmir, mais tradicionalmente liberais, tendentes à esquerda ou mais europeizadas. A esquerda turca é maior do que qualquer uma que eu já vi nos Estados Unidos ou na Inglaterra e parece ser dominada pelos leninistas. A presença anarquista, para ser otimista, é quase nula. Em termos de atividades tradicionais de luta de classes, o Primeiro de Maio é gigantesco, só que eu ouvi falar pouco de ações grevistas, além de alguns dissídios extremamente limitados localizados em Istambul.

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Para aqueles que não sabem, a situação começou quando o governo anunciou um plano de limpar um parque na região de Taksim, em Istambul. Além das preocupações ambientais, trata-se de um dos pouquíssimos espaços verdes na cidade. Quando chegou o momento de os tratores chegarem ao parque, os protestos e uma ocupação se iniciaram. A polícia apareceu, expulsou violentamente os ocupantes, queimou tendas e pertences, usou gás lacrimogêneo e canhões de água para limpar o acampamento. Dezenas de pessoas foram feridas, algumas seriamente, tendo inclusive relatos de manifestantes perdendo olhos devido à violência.

 

Isso apenas gerou mais protestos e, dentro de 48 horas, manifestações simultâneas começaram a acontecer em outras cidades. Claro, os protestos são sobre muitas coisas mais do que o Parque Gezi. Trata-se da culminação de tensões crescentes contra o governo de Tayyip Erdogan. E vem se tratando de um movimento realmente de base. Militantes profissionalizados estão presentes e políticos da oposição estão tentando capitalizar politicamente em cima do movimento, mas a vasta maioria das pessoas está participando porque está autenticamente indignada. O Parque Gezi apenas providenciou a fagulha que libertou a explosão da raiva reprimida.

 

Acredito que essa é parte da razão pela qual as bandeiras são tão proeminentes. As reivindicações de certa forma ainda não se articularam em um discurso próprio e ficam escondidas por trás do discurso político padrão. Os anos 60 e 70 foram de grandes ebulições sociais na Turquia. Mas, desde o último grande golpe militar, em 1980, a resistência ativa ao governo não tem estado nas ruas. A escolha tem sido entre os partidos de centro-esquerda, mas extremamente nacionalistas, partidos seculares e partidos islamistas.

 

Em qualquer um desses casos, a aceitação generalizada do neoliberalismo tem sido o pano de fundo econômico, com o qual essa nova onda de protestos se lançou. De qualquer forma, ainda é cedo demais para dizer se o atual discurso dos protestos pode se expandir para incluir um entendimento mais profundo das questões de classe e ir além de um nacionalismo reativo.

 

Novamente, gostaria de clarificar aqui: eu não falo turco, vivo em uma cidade e o meu domínio de história da Turquia não é fantástico. Essas são apenas impressões e eu gostaria de ser corrigido por aqueles com mais conhecimento de causa.

 

Alguns na Turquia vêm chamando essa onda de protestos de “Primavera Turca”. A mídia ocidental já iniciou as comparações entre a Praça Taksim e a Praça Tahrir no Egito. Eu não estou em Istambul, mas esse tipo de pronunciamento me parece prematuro. O primeiro-ministro vem mantendo uma postura de desafio e, apesar de toda a brutalidade já feita, ainda não foi usada toda a força do Estado. As coisas provavelmente vão ficar bem mais sinistras e nesse ponto não será uma questão de salvar Gezi (o primeiro-ministro), mas de uma renúncia do atual governo. Muito disso, claro, vai depender da habilidade dos manifestantes em não apenas manter o impulso, mas também desenvolver táticas mais sofisticadas contra a polícia.

 

No momento atual, o movimento está em todo lugar. Ele domina as redes sociais (apesar de haver relatos de que o twitter e o facebook foram derrubados), é o único assunto que as pessoas discutem nos ônibus e eu consigo ouvir do meu apartamento um coro constante de buzinas de carros.

 

De forma similar a grande parte do movimento Occupy, as táticas dos manifestantes até agora têm sido bem mais radicais que os seus objetivos proclamados. Os protestos em Istambul podem ter começado pacificamente – eu não sei se foi assim –, mas qualquer pretensão de pacifismo desapareceu. As pessoas aparecem preparadas. Há uma expectativa de que os manifestantes vão sofrer ataques de gás lacrimogêneo e eles vêm com máscaras cirúrgicas, lenços, máscaras de gás caseiras e uma variedade de remédios caseiros contra a exposição ao gás (que, acreditem, não é muito divertida).

 

E os que os trazem são, frequentemente, manifestantes de primeira viagem. Eles sabem do estilo da polícia, vão na internet descobrir como se recuperar de um ataque de gás lacrimogêneo e entram no protesto tendo o pleno conhecimento de que provavelmente vão dormir com os olhos queimando e com dor de cabeça. Toda vez que um espaço público é tomado pelos manifestantes, uma fogueira se acende. O protesto começa a cantar palavras de ordem e bate ruidosamente em qualquer coisa disponível. O grafite está em todo lugar.

 

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Atualmente, a principal tática parece ser ondas de pessoas aparecendo, levando gás lacrimogêneo, dispersando e sendo substituídas por mais uma onda de manifestantes. Essa tática também tem o suporte das fogueiras e das barricadas, algumas das quais são feitas de ônibus e lojas de venda de comida cujos proprietários têm laços com o atual prefeito da cidade.

 

Eu devo dizer que só posso falar pela situação em Ankara. Meu entendimento é que a polícia está agora permitindo protestos em Istambul e o ponto focal do enfrentamento se transferiu para cá, Ankara, a capital da Turquia.

 

Nos últimos dias, os protestos vêm crescendo e não mostram nenhum sinal de enfraquecimento. Mas a energia e determinação não são suficientes. A resposta da polícia vai continuar a ser pesada e simplesmente ocupar um espaço público não será suficiente para a vitória do movimento. Ele vai precisar conseguir vitórias efetivas contra a polícia.

 

Felizmente, como o movimento estudantil de 2010 na Inglaterra demonstrou, as pessoas antigamente consideradas ‘despolitizadas’ são extremamente capazes de aprender com suas próprias forças e desenvolver táticas efetivas para continuar a luta. O fato de que a pretensão ao protesto pacífico foi corretamente abandonada parece sugerir que o espaço para uma resistência mais efetiva é bastante amplo.

 

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Traduzido do original no site libcom pelo Passa Palavra.

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Última atualização em Quarta, 12 de Junho de 2013
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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