São Paulo merece mais do que 24 horas por ano de cultura acessível

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No final de semana dos dias 18 e 19 de maio, a cidade de São Paulo voltou a promover seu maior e mais popular evento, a Virada Cultural, que albergou cerca de 900 atrações artísticas do Brasil e diversas partes do mundo.

 

Trata-se, sem dúvida, do momento de maior euforia e festividade do calendário da sempre tensa Pauliceia, seguramente mais impactante do que o Réveillon e o Carnaval somados. Em sua nona edição, calcula-se que 4 milhões de pessoas (não apenas moradoras da cidade, diga-se) tenham passado pelas atrações, realizadas sobretudo no centro, através de suas dezenas de praças e pontos históricos.

 

Desse modo, tivemos o exagero da abordagem midiática, que amanheceu o dia 20 destacando a Virada Cultural de 2013 como “a mais violenta da história”. De outro lado, os tradicionais inimigos dessa mídia trataram de defender o evento, no entanto, sem deixar de relatar ocorrências de fato violentas.

 

Ao que consta, foram dois óbitos. Sendo um por overdose. Arrastões, furtos e brigas também se registraram. Basta comparar com os dados das edições anteriores para constatar que nenhum passo a mais foi dado na “escalada de violência”. Isso se torna ainda mais evidente se a comparação for feita com os dados da violência de cada final de semana, por todos os bairros e regiões da cidade (sendo que São Paulo se encontra em franca ascensão de homicídios há pelo menos um ano).

 

“Me disseram que estavam armados de faca, e eu não quis pagar para ver. Sou bem covarde nessas horas, e me orgulho de ser. Foi meu terceiro assalto em 21 anos de São Paulo. Todos aconteceram no centrão da cidade”, escreveu o jornalista Pedro Alexandre Sanches, em texto no site oficial do evento.

 

“Em toda a distância entre o Largo do Arouche e a República não havia um único PM na madrugada do sábado para o domingo. Apenas no Largo e sumidos em algum lugar da República, longe de nossas vistas”, afirmou o jornalista Raphael Tsavkko, em seu blog.

 

Também presente aos eventos, inclusive durante a madrugada, este jornalista pôde atestar o mesmo, além de ter recebido relatos na mesma linha de conhecidos. Agressões de bandos a homossexuais também disseram presente. Enfim, toda nossa humanidade à flor da pele, 24 horas seguidas e na maior reunião de pessoas que a cidade conhece.

 

“Politização”?

 

Se, por um lado, nos acostumamos a uma mídia que trata qualquer mobilização ou opinião contrária a seus interesses políticos e ideológicos exatamente por essas cunhas, insinuando tratar-se de postura equivocada e pouco saudável ao debate, de outro, também se pode especular se a Virada Cultural sofreu uma maior “politização” nos bastidores.

 

“Os inumeráveis policiais espalhados pelas ruas durante o evento assistiram sucessivos arrastões de braços cruzados e, quando questionados pela sua não atuação, cinicamente responderam: ‘o que você está fazendo na rua a essa hora?’. Ora! O que eu estava fazendo na rua àquela hora?!”, criticou Amanda Pendlovski, na página do evento criada no facebook.

 

“Presenciei, há menos de 10 passos, um arrastão na República e não se via policial. Nem durante e nem depois, enquanto as pessoas gritavam por socorro e eram roubadas. Um dos assaltados tinha perdido tudo. Chaves do carro, celular, carteira, documentos... Corria junto conosco, eu, minha esposa e uma amiga, tentando encontrar um policial. E não encontramos nenhum. Do Arouche ao Metrô República. Nada”, endossa Tsavkko, em seu blog.

 

A ilação política se dá a partir do momento em que se lembra ser a Polícia Militar incumbida de garantir a segurança do evento, e de responsabilidade do estado (governado pelo PSDB).

 

“O sistema em que vivemos aprisionados está dizendo que eu devo trabalhar, consumir e ir logo pra casa assistir propaganda, pra trabalhar mais e consumir mais. Sair às ruas pra quê? Cultura, entretenimento, interação social é um perigo! Vá pra casa! Os bandidos estão à solta, a atuação deles é vista de camarote pela Polícia Militar! Nós, cidadãos que pagamos a maior carga tributária do mundo, é quem devemos ser mantidos presos?”, desabafou Amanda.

 

O mesmo tom de deboche oficial foi relatado por outras pessoas, como mostraram os dias seguintes, repletos de depoimentos pelas redes, dando também a dimensão de todo o evento, com um envolvimento popular comparável ao de Copa do Mundo. Impossível não conhecer alguém com história pra contar.

 

Retomando, é necessário lembrar que o petista Fernando Haddad, logo em seu início de mandato, encerrou o aberrante privilégio à corporação militar, dado pela prefeitura anterior, de Kassab, sob a qual 30 das 31 subprefeituras (que pagam gordos salários) estavam sob mando de policiais militares da reserva, obviamente uma afronta a nossa tímida democracia.

 

No entanto, qualquer afirmação peremptória pode ser precipitada. “Não acredito nisso de sabotagem política. Ano passado eu vi este mesmo descaso da polícia, os mesmos braços cruzados diante de situações de violência, inclusive com policiais dizendo ‘olha, não vá por este caminho, porque está tendo arrastão’. Durante o show do Femi Kuti, os policias ficavam blindadinhos, dentro de uma cerquinha, vendo os assaltos, enquanto nós, de fora, não tínhamos o que fazer. E ano retrasado foi a mesma história de violência na República”, contrapôs Janaina SantAna, na mesma rede social.

 

“Periferia é periferia”

 

O debate a ser explorado talvez seja a própria política cultural, sempre dependente dos gostos dos governos de plantão e tratada frequentemente como moeda de troca política ou demagógica.

 

“Neste ano, a Folha de S. Paulo operou crítica progressista, apontando que Juca Ferreira e a Virada, em vez de contemplarem o público periférico, ‘tiraram’ atrações das periferias. A crítica parece progressista, mas há embutida ali uma lógica mantenedora do status quo: mantenham a periferia na periferia, conservem a periferia distante do centro”, opinou Pedro Alexandre Sanches.

 

“Por que o show dos Racionais é notícia por NÃO ter acontecido nada? Tivemos diversos casos de arrastões, eu mesmo presenciei o rescaldo de um durante o show do Sidney Magal no Arouche e estive a passos de outro, na República. Mas a notícia, em se tratando de um grupo da periferia, é não ter acontecido nada. Já que não aconteceu nada e fica feio noticiar o nada, vamos acrescentar que pessoas fumaram maconha e que o chão ficou sujo”, apontou Tsavkko.

 

Diante do quadro social de uma cidade notoriamente segregada, Sanches arremata: “diferentemente do Rio de Janeiro, por exemplo, São Paulo está nitidamente dividida entre centro e periferia”, indicando o que pode estar em jogo nos exageros midiáticos a respeito dos números da violência.

 

Dessa forma, é contraproducente caminhar pelo alarmismo midiático ou a euforia acrítica para medir o real significado deste evento. Trata-se de trabalhá-lo com vistas a ser melhorado, não empobrecido, ainda mais numa cidade carente de maior convívio social e também atrações culturais acessíveis. Trata-se de colocar a cultura num patamar mais elevado, proporcionando uma agenda cultural à altura do tamanho e projeção de São Paulo e seu entorno, que totalizam 10% da população do país. De preferência, uma agenda que não dependa de um único final de semana de desforra.

 

Gabriel Brito é jornalista do Correio da Cidadania.

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