Estados Unidos: em busca de um contrapeso no Oriente Médio

 

 

Em vez de uma retirada abrupta de tropas nas duas frentes médio-orientais, o governo Obama optou pelo gradualismo. De forma surpreendente, a escolha mostrou-se adequada do ponto de vista político aos olhos da opinião pública norte-americana, ainda que prorrogue o sofrimento da população iraquiana e afegã.

 

A recolha desapressada dos efetivos nos dias de hoje diferencia-se bastante da dos tempos do Vietnã, marcada por imagens em que se mesclaram incúria e desesperança. Desta feita, a volta, ao ser feita aos poucos, passa quase incólume perante a sociedade estadunidense.

 

Ao chegar a presente força expedicionária em pequenos grupos à pátria, não há muita atenção dos grandes meios de comunicação. Dispensados de modo discreto, a maioria dos reservistas tenta novamente integrar-se à antiga rotina civil.

 

Não são eles reverenciados em suas comunidades como na época do pós-Segunda Guerra Mundial, após a vitória contra o nazifascismo, nem ultrajados ou ainda relegados como no período pós-Vietnã, depois do malogro no embate contra o comunismo de um paupérrimo país.

 

Se, na década de 70, os veículos de comunicação recusaram-se a esquecer a embaraçosa atuação bélica dos Estados Unidos no distante Vietnã, agora, a situação difere. O silêncio prevalece em quase todos os momentos. A emissão de comentários críticos é bem circunspecta. Não há espalhafato nos noticiosos mais tradicionais.

 

Um possível motivo para o comedimento é a falta de contrabalanço nos arredores do teatro de operações. Nos anos 70, a perda militar vietnamita foi parcialmente compensada com a aproximação comercial chinesa.

 

Atualmente, as duas derrotas não têm contrapeso algum, visto que nem a chamada Primavera Árabe conseguiu viabilizar algo positivo política e economicamente, na visão do Ocidente. Governos ditatoriais tombaram. Uma consequência imediata foi o ocasionamento de grande expectativa entre a sofrida população, logo desiludida.

 

Umas civis, outras militares, muitas ditaduras chegaram a atingir décadas de existência, com origem nos esperançosos movimentos de descolonização ao tempo da Guerra Fria. Todavia, suas sucedâneas aproximam-se mais do feitio teocrático que secular, mais do autoritarismo que da democracia.

 

Diante do infortúnio corrente, a Casa Branca insiste na necessidade de auferir ganhos no Oriente Médio e cercanias. Por isso, ela manteve a fixação no Irã e estendeu-a nos últimos meses à Síria.

 

Embora Washington tenha muito mais interesse em Teerã, em vista da questão energética, o momento indica ser muito mais exequível a transformação política de Damasco, imersa em uma guerra civil próxima dos dois anos.

 

A capitulação da ditadura síria não provocaria o nascimento de uma república democrática, conforme já manifestado por boa parte da oposição, mas desencadearia o distanciamento do país da Rússia e principalmente do Irã e, por conseguinte, a aproximação com Estados Unidos e com Arábia Saudita, considerada a grande financiadora do levante de lá.

 

Com isso, a Casa Branca reforçaria a execução de projeto elaborado há mais de duas décadas e interrompido em função do fracasso no Iraque e no Afeganistão: isolar o Irã de maneira gradativa, com o propósito de derrubada do regime.

 

 

Leia também:

Estados Unidos: democratas mascarados de republicanos

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados