Por favor, salvemos as crianças!

 

Todos sabemos que nosso país lidera estatísticas muito tristes. E uma delas é a das mortes por violência urbana, no trânsito e outras mais. Estamos nos tornando capital da violência e nossas metrópoles, que antes atraíam estrangeiros e habitantes de outros países pelo charme de se situarem em país tropical e “exótico”, hoje provocam medo e rejeição.

No entanto, isso fica muito mais grave quando, olhando as estatísticas, constatamos que as crianças constituem boa parte das vítimas da espiral perversa da violência. Pesquisa recente realizada por jornal carioca demonstra que, a cada três mortes de crianças até 12 anos, uma aconteceu de forma violenta. Indefesas e inocentes, elas estão na rota do tiro e da bala perdida, ou no caminho do veículo que o motorista bêbado não mais controlou, ou no cotidiano injusto e perverso que vitima pequenos que sofrem de doenças curáveis se fossem tratadas como deveriam.

É muito triste que o Brasil tenha conseguido baixar consideravelmente a mortalidade infantil devido a uma conjunção de ações gratuitas e filantrópicas, lideradas pela Pastoral da Criança, e não leve adiante seu belo trabalho de preservação da vida. A criança pobre que escapa da mortalidade infantil vai se encontrar com a morte prematura pelo caminho sob a forma da violência que lhe cassa o direito de crescer e chegar à idade adulta.  

É o caso de Maria Fernanda, de 2 anos, morta quando passeava de bicicleta com o padrasto. Ou de Alan, de cinco meses, que sofria de asma e não suportou a quinta internação provocada pelas péssimas condições de moradia na favela onde vivia. Ou de Lucas, de 2 anos, morto em acidente de trânsito em uma das temíveis estradas brasileiras.

Para tornar as coisas ainda mais dolorosas, a maioria desses crimes está sem solução. O assassino de Maria Fernanda não foi condenado, o de Lucas tampouco. E o sistema de saúde brasileiro que matou Alan parece ir de mal a pior, com greves em todas as latitudes e deixando morrer pessoas que com uma cirurgia e tratamento adequado seriam salvas.

É urgente o país tomar consciência de que está assassinando seu futuro. Toda uma geração morrer vítima da violência armada, com idade média de 25 anos, do sexo masculino, extração social popular, já é um dado que arrepia os cabelos e confrange o coração. Mas quando crianças que sequer atingiram a chamada “idade da razão” não têm o direito de fazer escolhas como esses jovens bem ou mal fizeram, então a coisa chega ao limite do tolerável.

De que adianta sermos “gigante pela própria natureza” se não conseguimos garantir minimamente o futuro e a vida de crianças e jovens? Nas mãos de quem estará o futuro do país? Que projeto de país é este que não inclui a preservação da vida sob todas as suas formas e deixa a violência grassar impune sem que se tomem medidas coerentes e eficazes?

Mais uma vez o evangelho pode servir de luz inspiradora para tão grave problema. No tempo de Jesus, a criança não era considerada importante. Tanto é assim que, juntamente com a mulher, ela não “contava” entre os que mereciam figurar nas estatísticas e eram alijadas à privacidade onde não aconteciam os debates nem chegavam as grandes questões levantadas que poderiam mudar a vida do povo.

O rabbi de Nazaré jamais consentiu que seus discípulos, impacientes, as afastassem de seus afagos e carinho. Pelo contrário, ordenou que as deixassem “vir a ele”, porque delas é o Reino dos céus. Se das crianças é o Reino, delas é a vida, porque sobre elas se volta, amoroso, o olhar do autor da Vida. Por favor, salvemos as crianças! Elas trazem em suas mãos pequenas e inocentes nossa salvação também.

 

 

Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio.

 

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