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Beatos Imprimir E-mail
Escrito por Gilvan Rocha   
Sexta, 17 de Maio de 2013
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Os mais diversos credos se sustentam através da figura do beato. Tomemos, como ponto de partida, os milhões de beatos que se agruparam ao redor da Santa Madre Igreja Católica. Em torno dessa instituição milenar, circularam e circulam uma legião imensa de pessoas, acríticas, movidas pela paixão. Diante desses seguidores passionais, nada adianta colocá-los frente a fatos desabonadores em relação, no caso, à citada instituição. Procura-se mostrar que a Santa Madre Igreja sempre esteve ao lado dos exploradores e, por longos anos, foi ela mesma agente da exploração e da opressão, sem que isso abale as convicções dos beatos. Pouco adianta também dizer que essa instituição praticou odientos crimes, através das Cruzadas, que promoviam roubos, estupros e tantas outras violências contra suas vítimas. De nada vale dizer, a esses senhores, movidos fanaticamente por suas crenças, que essa instituição levou a cabo a odienta Santa Inquisição, quando os presumidamente culpados de heresia eram atirados à fogueira. Todos esses fatos não abalavam, nem abalam, o fervor insensato dos beatos.

 

Ora, atribui-se a Friedrich Nietzsche a afirmação de que a convicção é mais nociva do que a própria mentira, e os beatos se caracterizam por serem dotados de convicções inabaláveis. Além de tantos outros exemplos de atitudes beatas em torno de diversos credos religiosos, temos o exemplo mais horrendo de nossa História. Trata-se dos beatos do credo stalinista, e nele vamos encontrar o stalinismo ortodoxo, o maoísmo, o fidelismo e os beatos das diversas correntes do trotskismo.

 

Possuídos de uma conduta acrítica e passional, esses beatos não se dispõem a questionar as suas infundadas crenças. Mesmo diante de argumentações mostrando, no caso dos fanáticos católicos, que essa igreja praticou grandes crimes, incluindo-se atos de perversão sexual, como o da prática de pedofilia por alguns clérigos, além de escândalos financeiros, como foi o caso do Banco do Vaticano, suas crenças continuam graniticamente inabaladas.

 

Nenhum dos fatos torna-se suficiente para estremecer o sentimento de completa adesão a essa instituição corrompida, a Santa Madre Igreja Católica. Da mesma forma, nada estremece os convictos seguidores do stalinismo, mesmo os trotskistas, que se recusam, enquanto beatos, a enxergar que existiram dois Trotskys. O primeiro deles, autêntico marxista, denunciou, com veemência, o modelo leninista de partido e profetizou que aquele modelo levaria ao substituísmo, ou seja, o partido substituiria as massas populares, o Comitê Central substituiria o partido e uma figura ungida substituiria o Comitê Central.

 

A profecia do primeiro Trotsky se confirmou com sobeja contundência, entretanto o segundo Trotski, convertido ao bolchevismo, não só contribuiu para a consumação do substituísmo, como se negou a promover uma legítima autocrítica e proceder a uma avaliação marxista do processo de descaminho da Revolução Soviética. Ao invés disso, preferiu assumir uma postura idealista em relação àquele episódio, quando imputou a Joseph Stalin e seus asseclas a responsabilidade pelo trágico desfecho histórico.

 

É claro que as doutrinas pervertidas são, em si, criminosas. Porém, é necessário refletir que, sem o concurso dos beatos, essas doutrinas não teriam viabilidade prática. Os crimes da Igreja Católica, do Islã, do stalinismo, não seriam possíveis sem a participação dos beatos, sempre dispostos a qualquer sacrifício para levar a cabo os seus credos. Em razão desse fato é que a sensatez leva a nos propor, em lugar de uma massa de beatos, procurar-se criar uma massa de gente consciente, possuída do poder de ver criticamente a realidade e, assim, não se prestar a servir às mais diversas criminosas crenças.

 

Gilvan Rocha é presidente do Centro de Atividades e Estudos Políticos – CAEP

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