Atentado na Turquia deve fortalecer Assad

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Por mais que os rebeldes e seus patronos – EUA, Reino Unido, França e Turquia – se esforcem, não vai dar para culpar Assad pelo atentado a bomba que matou 46 pessoas em Reyhanli.

 

As autoridades turcas, mal souberam do fato, apressaram-se a atribuir sua responsabilidade ao governo de Damasco.

 

Mais tarde, mais calmas, anunciaram que tinham provas concretas, o que, aliás, ainda não mostraram a ninguém.

 

Nem poderiam. Fazendo um raciocínio objetivo, conclui-se que nada aponta para o lado de Assad.

 

Em primeiro lugar, é inimaginável supor que um político, que sempre demonstrou habilidade, iria puxar briga com a Turquia, o exército mais poderoso da Europa, depois da Rússia. Seria suicídio.

 

Assad nunca faria um lance desses sem nenhuma vantagem prática, especialmente agora que suas tropas estão se saindo bem na guerra.

 

Nos últimos meses, os rebeldes tiveram pesadas perdas, especialmente nas regiões de Damasco, Alepo, Halab, perto da fronteira do Líbano e no norte da Síria.

 

O regime parece firmemente estabelecido, com apoio dos empresários e exército, tendo as defecções sido reduzidas a um mínimo pouco significativo.

 

Por que arriscar situação tão favorável, com um atentado que poderia enfurecer o Ocidente e levá-lo a participar diretamente do conflito?

 

Há ainda outro dado a considerar: os norte-americanos estão abrandando sua posição. John Kerry, secretário de Estado, já combinou com Putin promover uma reunião de paz, entre rebeldes e governo, para discutirem a formação de um governo de transição, com membros das duas partes.

 

Por enquanto, Obama tem insistido que Assad deveria ficar de fora, mas a tendência é que acabe aceitando negociações sem pré-condições.

 

Não é o momento adequado para se partir para a ignorância, explodindo bombas na Turquia, pois comprometeria certamente as chances de paz.

 

Então, se não foi Assad, quem teria sido?

 

Como diziam os juristas da Roma antiga: cui bono, a quem aproveita o atentado? Não ao governo, como já foi mostrado. Aos rebeldes, parece a resposta lógica: culpando Assad (como até tentaram), eles o deixariam mais sujo na comunidade internacional e os EUA, a França e o Reino Unido mais propensos a lhes fornecerem armas.

 

Não é de se crer que os combatentes seculares e os islâmicos moderados do exército rebelde fizessem uma barbaridade dessas. Atentados não são próprios deles.

 

Os principais suspeitos parecem ser os jihadistas do Nusra, aquele movimento filiado à Al-Qaeda que integra a rebelião.

 

Carros-bomba são um método que eles já se habituaram a usar. E tem mais: eles ocupam atualmente uma região que faz fronteira com a cidade alvo do atentado. Muito cômodo, portanto.

 

A autoria do atentado vai piorar a imagem dos rebeldes. Já enlameada pelo caso das armas químicas.

 

O porta-voz de uma comissão da ONU já inocentou o governo da acusação de usar as armas proibidas, dizendo, ainda, que os indícios apontavam para os rebeldes.

 

É verdade que, no seu relatório, a comissão afirmou que ainda não havia provas concludentes. Porém, as suspeitas pesavam contra os adversários de Assad.

 

A respeito das bombas químicas, que mataram 28 soldados, em Khan-al-Alassal, o governo pedira uma investigação pela ONU.

 

O secretário-geral, Ban Ki-moon, formou uma comissão de cientistas com esse objetivo, mas declarou que iriam investigar o uso de armas químicas em todo o país.

 

A princípio, Assad protestou, disse que era uma manobra para prejudicar sua causa. Negou-se a permitir a entrada da comissão. Finalmente, acabou concordando.

 

Se os investigadores absolverem as tropas do presidente sírio e culparem seus adversários, ele vai ganhar mais pontos. É o que deve acontecer.

 

Experts já afirmaram que o gás usado em Khan-al-Alassal não existia nos estoques de Damasco. Além disso, como as vítimas eram soldados do governo, era preciso que este fosse muito estúpido para sacrificar seus defensores.

 

Tudo indica que, com o atentado na Turquia, os rebeldes deram um tiro no pé.

 

Sua responsabilidade será possivelmente provada, embora os EUA e seus aliados procurem panos quentes no assunto.

 

Com o prestígio dos rebeldes baixando, em face dos affairs das armas químicas e do atentado a bomba, Assad tende a crescer.

 

Seu momento, que já é favorável na guerra, vai se fortalecer ainda mais.

 

Lembre-se que formar um governo de transição, dividido entre as duas partes, não depende só dos rebeldes e das potências aliadas.

 

Será que Assad vai topar?

 

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Paz e guerra na Síria


Luiz Eça é jornalista.

Website: Olhar o Mundo.

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