Desafio aos vereadores e ao prefeito de São Paulo

 

 

Gostaria de fazer uma sugestão, na verdade lançar um desafio ao prefeito de São Paulo e a todos os vereadores que honram os votos que receberam, que se importam com quem os elegeram, cidadãos da cidade de São Paulo. Reservem pelo menos um dia no mês, um dia, e acompanhem o dia a dia de um paulistano, o dia todo mesmo, desde manhã, na ida ao trabalho, até o final da noite, quando quem sabe estarão com suas famílias descansando, para enfrentar a próxima jornada.

 

Obviamente, sugiro que escolham as pessoas menos favorecidas da cidade, principalmente os moradores da periferia desta metrópole. Também chamo atenção para que não façam isso da forma como normalmente é feito em campanhas eleitorais, onde se coloca o belo sapato no barro para fazer bonito, fica-se num falatório em eventos que mais visam o marketing que qualquer coisa. Não, façam isso com os olhos e os ouvidos abertos, e a boca de preferência mais fechada do que aberta. Acompanhem cada detalhe, cada barreira, cada angústia que essa cidade traz para seus moradores menos favorecidos.

 

Faço este desafio por uma experiência que vivi esta semana. Posso me considerar uma “emergente” neste contexto que vivemos no Brasil, morava na periferia, na Vila Medeiros, e tive a sorte, em parte, de ir morar no centro (em parte, pois minha qualidade de vida continua péssima em vários sentidos). Mas pelo menos não sofro mais o que as milhões de pessoas que moram na periferia sofrem, com o transporte público caótico e cruel desta cidade.

 

Quando políticos falam em transporte público, é sempre de uma maneira fria, sempre uma questão puramente técnica (como também quase todos os assuntos). Não, este é um problema que afeta as condições de vida das pessoas, que perdem preciosas 4, 5, até 6 horas, em que poderiam estar com seus filhos, ou cozinhando um alimento saudável, ou simplesmente descansando, num transporte desumano, abarrotado, estressante. O convite, senhor prefeito e senhores vereadores, para acompanharem um dia inteiro destes cidadãos paulistanos, é para que sintam isso na pele, para que saiam do encastelamento de bairros privilegiados, de carros oficiais, de todo aparato de assessores, e tentem entender os verdadeiros problemas e calamidades desta cidade.

 

Mesmo morando no centro, visito várias vezes a Vila Medeiros, pois minha família ainda mora lá. Talvez se distanciando um pouco deste sofrimento diário, em que as pessoas acabam se resignando, pude perceber como isso é uma verdadeira tortura (com toda certeza, a situação também piorou desde que me mudei). Por volta das 18 horas, na Estação Tucuruvi do metrô, sempre há filas, várias filas, para todos os micro-ônibus que atendem a região. Repito: todos, não há opção (de pegar um diferente e andar mais um pouco, por exemplo, como às vezes há no centro). Formam-se duas, às vezes três filas, para estas lotações. Algumas pessoas têm de esperar a vinda de duas ou três lotações para poder voltar pra casa.

 

Da última vez, tomei disposição e fui caminhando por 40 minutos até chegar à casa da minha mãe. E uma pessoa mais velha? E uma pessoa com filhos, que tem que buscá-los na escola? E no geral, as pessoas exaustas do dia a dia caótico dessa cidade? No caminho, fui conversando com uma moça que tem dois filhos, é separada, tem toda a responsabilidade consigo, de pegá-los na escola, fazer comida, dar amor, carinho, atenção. Ela me disse que todo dia é o mesmo estresse, que sempre fica com medo de chegar atrasada, pois tem de pagar a mais na escolinha particular em que deixa seus filhos. Que de manhã também sai sempre com pressa, com medo de perder a hora, afinal não dá para garantir que vai chegar na hora no trabalho, do qual obviamente depende ela e o sustento dos seus filhos. Ela disse que sofre por não dar tanta atenção quanto gostaria para as crianças. É um dilema diário.

 

Parênteses: no caminho a pé, não pude acreditar: entre duas casas, havia simplesmente um buraco, perguntei a ela: mas que buraco é esse, no escuro, totalmente escondido (1). Ela disse que era um córrego, sem absolutamente proteção nenhuma, sem sinal nenhum. Comentei: “meu Deus, e se uma criança cai aqui!” Ela respondeu: “é mesmo, eu sempre penso nisso quando passo aqui”. Vamo-nos resignando com a brutalidade e o absurdo do dia a dia.

 

Esta é a situação de, repito, milhões de paulistanos que moram nas periferias, ou na verdade muito pior, como por exemplo, no M’Boi Mirim, onde as pessoas extrapolaram a resignação diária, que não era mais possível, e puseram fogo em ônibus, numa explosão de toda essa verdadeira violência diária que precisam enfrentar.

 

Este relato traz apenas uma faceta dessa cidade que virou, como já dizemos, uma máquina de moer gente. Imaginem todos os demais aspectos, juntos. Imaginem estar doente, com uma doença grave, e ficar numa fila de meses para ter atendimento. Imaginem não ter uma creche para colocar seu filho, quando você depende de um trabalho para dar o mínimo de qualidade de vida e não tem condições de pagar um lugar particular. Imaginem estar vulnerável a ser morto pela polícia, a qualquer momento. Imaginem perder um filho assim bestialmente, e ver que a comoção pública por esta morte é zero, pois seu filho era preto, pobre e morador de um bairro periférico.

 

Agora juntem todos os elementos desta situação: quem cai na criminalidade, que já virou uma epidemia nesta cidade, são pessoas muito estranhas e ruins? Qualquer um que reflete um pouco sobre toda esta situação, somando-se a péssima qualidade do ensino, as péssimas possibilidades de cultura e esporte etc., vai entender esta epidemia de violência que vivemos. O senso moralista geral coloca a culpa da criminalidade nos pais destes jovens. É fácil educar os filhos nesta situação de permanente stress, onde as pessoas mal têm tempo para realizar atividades básicas para sua própria sobrevivência?

 

É, caros vereadores e caro prefeito, vocês não conseguem imaginar, simples assim. Então, sugiro que façam isso. Que reservem um dia de suas agendas por mês, sagradamente, e acompanhem a vida destas pessoas, que sofrem tudo isso. Quem sabe vocês não terão mais inspiração para legislar, para propor políticas, para cuidar do orçamento da cidade. Quem sabe não começarão a dar foco para o que realmente interessa: todos estes cidadãos paulistanos que sofrem esta cidade diariamente. Quem sabe não colocarão uma ordem de prioridade mais interessante para todos nós, deixando homenagens, jogos políticos espúrios e jogos de ego de lado, trabalhando para o que realmente interessa: para mudarmos esta cidade, para deixar de ser literalmente uma máquina de moer gente.

 

Nota:

1) Esse absurdo fica na Rua Gustavo Adolfo, perto da esquina com a Rua Capricho, no bairro do Tucuruvi.

 

Mariana Parra é graduada em Relações Internacionais pela PUC-SP.

Comentários   

0 #1 sobre conceitosbraz augusto 13-05-2013 10:25
eu não acredito no que estou lendo inclusve textos da esquerda citar os explorados pelo capital falando que são "menos favorecidos" o argumento da burguesia para esconder todo processo de profunda exploração
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