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A Irrigação e a Seca Imprimir E-mail
Escrito por Roberto Malvezzi (Gogó)   
Sexta, 03 de Maio de 2013
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Um comentário aos questionamentos sobre a relação seca e irrigação feitos por Júnior Plácido, da CPT de Pernambuco

 

Decidi por fazer um texto mais organizado sobre essa questão porque é grave e acho que o entendimento dela, até por parte de alguns movimentos sociais que têm se pronunciado sobre o assunto, está profundamente equivocado.  Para entendermos esse processo precisamos ir um pouco mais fundo.

 

Você diz que, em meio a essa seca, a fruticultura irrigada vai de vento em popa, portanto, a seca tem endereço. Em parte é verdade, mas não toda a verdade.

 

Num texto que fiz com o Isidoro Revers para a CPT sobre “As Perspectivas do Agro e do Hidronegócios no Brasil e no Mundo”, ainda disponível em muitos sites, já dizíamos que o capital iria “pelo caminho das águas”. Hoje, quando olhamos para o território MAPITOBA (Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia) criado pelo agronegócio, podemos comprovar que é para ali, na abundância de solos e águas, que o capital se dirige. Mas o capital mostra o que lhe interessa e oculta seus crimes. Portanto, é preciso distância crítica diante dos números econométricos.

 

Repare nas tabelas - que você me enviou - que o auge de produção de uva no Vale do São Francisco foi em 2008. Em 2012, caiu quase à metade. A manga vinha caindo, agora teve retomada. Sobretudo na uva, a queda produtiva do Vale do São Francisco é rápida e segura.

 

O que acontece é que a produção de frutas está com problemas fitossanitários, isto é, começou a sofrer pragas – mosca da fruta -, como em toda monocultura. Tanto é que aqui já se fala que o futuro é mesmo “a cana irrigada”, que pragueja menos. Você, que é do litoral, sabe do histórico da cana. Esse é o futuro do sertão, isto é, cana irrigada. As frutas estão perdendo mercado externo e agora circulam mais no interno. Se caminhar como a produção de tomate caminhou, em poucos anos não teremos mais fruticultura irrigada.

 

Além do mais, é fácil produzir com a água e solos disponíveis que existem, sem ter nenhum compromisso com a sustentabilidade dos solos e da água. O capital é mercenário. Quando a situação se inviabiliza, ele vai embora. Se tivessem mesmo que pagar a água, o problema seria outro. É bom lembrar que a agricultura irrigada consome em média 70% da água doce utilizada no mundo, contamina os mananciais, é uma das causas fundamentais da crise global da água.

 

Nas regiões semiáridas, segundo a ONU, a irrigação salinizou cerca de 80 milhões de hectares de solos. Aqui  no São Francisco, o ataque não é apenas nas águas da calha central, mas nas águas subterrâneas dos aqüíferos que abastecem o São Francisco, particularmente o Urucúia no Oeste Baiano. Sobradinho, em pleno mês de Abril, está com apenas 43% de sua capacidade ocupada. O livro “Flora das Caatingas do São Francisco”, lançado agora por cem especialistas, dá a morte do São Francisco como “inexorável”. Portanto, o agro e hidro não estão apenas comendo os ovos de ouro, estão devorando a galinha que os põe.

 

Além do mais, como já prognosticou o estudo Áridas, feito no governo de Fernando Henrique, o semiárido tem apenas 5% de seus solos aptos para irrigação, mas temos água para irrigar somente 2%. Portanto, 98% de nossa região terão que aprender a conviver com cultivos e pecuária de baixo consumo de água. É possível alguma ilha de irrigação, não mais que tal. Esse é o futuro do bioma. A irrigação é boa para o capital, que não tem compromisso com os mananciais, com os sedentos, com animais que estão morrendo. Há um conflito no uso da água do semiárido, sacrificando os usos básicos do abastecimento humano e a dessedentação dos animais em função da irrigação. Esse não é modelo para a agricultura camponesa. Esses só têm futuro na lógica da convivência com o semiárido.

 

Quanto à seca atual, repare nas reportagens feitas, particularmente pela Globo. Fala da mortalidade do gado bovino, mas não diz que esse animal é inadequado para o bioma. Se reparar melhor, não são mais os personagens de Luiz Gonzaga, Patativa, João Cabral, Graciliano Ramos que estão na mídia. São os médios e grandes produtores, que não estão tendo suporte de ração, de água ou dinheiro para bancar seus rebanhos. O povo camponês, com suas tecnologias de convivência, está perdendo e sofrendo menos. Se repararmos nos detalhes, há mudanças significativas aí.

 

Preocupante é o viés de certos movimentos sociais, até porque a Dilma lançou agora o programa “Mais Irrigação”, para atender aos grandes interesses. No fundo, certos movimentos são admiradores do modelo de irrigação do agro e do hidronegócios. Parece que, se estivesse nas mãos dos pequenos agricultores, o modelo produtivo seria perfeito. Mas o modelo é perverso em si mesmo. O processo predador desse modelo – solos, água, agrotóxicos etc. -, esteja nas mãos de quem estiver, será o mesmo. Por isso, para entendermos melhor nossa região, é preciso ir além da análise de classes, precisamos ver a insustentabilidade do modelo em si, não só do ponto de vista social, mas também ambiental e ético. Se o olhar for sistêmico, não binário, o resultado final se modifica.

 

Esse é um assunto que merece uma reflexão mais profunda, por ser pouco refletido, até porque nunca houve debate na sociedade nordestina sobre o uso econômico de nossas águas e a necessidade vital de preservar os mananciais. O momento é propício.

 

Roberto Malvezzi (Gogó) possui formação em Filosofia, Teologia e Estudos Sociais. Atua na Equipe CPP/CPT do São Francisco.

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Última atualização em Segunda, 06 de Maio de 2013
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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