A reafirmação do samba de uma nota só

 

 

 

O Comitê de Política Monetária do Banco Central acaba de elevar a taxa básica de juros para 7,5% ao ano, interrompendo um ciclo de redução da taxa Selic, que havia tido início em setembro de 2011 – quando a taxa foi reduzida de 12,5% para 12% ao ano – e que, desde outubro do ano passado, a mantinha em 7,25%.

 

A decisão não foi unânime, mas prevaleceu a ideia, entre os membros do Copom, que “o nível elevado da inflação e a dispersão de aumentos de preços, entre outros fatores, contribuem para que a inflação mostre resistência e ensejam uma resposta da política monetária. Por outro lado, o Copom pondera que incertezas internas e, principalmente, externas cercam o cenário prospectivo para a inflação e recomendam que a política monetária seja administrada com cautela” (trecho do comunicado divulgado logo após a reunião).

 

Foram essas incertezas – internas e externas – que certamente dividiram os membros do Copom – com seis dos seus integrantes a favor da medida adotada, e com dois outros optando pela manutenção da taxa anterior. Certamente, também, foram esses fatores que fizeram com que a elevação da taxa tivesse sido de 0,25%, contrariando vozes mais ortodoxas do mercado financeiro que clamavam por uma elevação mais acentuada da taxa Selic.

 

Porém, é inegável que mais uma vez predominou a ótica e o interesse do sistema financeiro, na decisão adotada.

 

Primeiramente, a inflação medida pelo IPCA, a partir dos dados divulgados pelo IBGE para o mês de março, apontou de fato para o estouro da meta estabelecida pelo Banco Central, de 6,5%. Com o dado de março, a inflação acumulada nos últimos 12 meses alcançou 6,59%.

 

Entretanto, algumas importantes considerações devem ser levadas em conta, caso queiramos olhar, com um pouco mais de rigor, para o que vem ocorrendo na esfera dos preços.

 

Os dados do IPCA mostram que são os alimentos que mais estão pressionando a taxa apurada de inflação. Porém, desde janeiro o grupo de alimentos e bebidas vem desacelerando a evolução dos seus preços. Em janeiro, a taxa apurada para esse grupo foi de 1,99%; em fevereiro, 1,45%; e em março, 1,14%. A expectativa entre os especialistas é que esta taxa continue em queda significativa, em abril.

 

Outro grupo relevante, pressionando a inflação, é o de serviços. Este também vem perdendo força: 0,91% em janeiro; 1,3%, em fevereiro; e 0,26%, em março. Esses dados explicam e evidenciam, igualmente, que o próprio resultado mensal do IPCA declina: 0,86%, em janeiro; 0,6%, em fevereiro; e 0,47%, em março.

 

Por outro lado, em março, o grupo de alimentos e bebidas respondeu por 60% da inflação medida pelo IBGE, percentual superior ao registrado em fevereiro. Este é um dado importante de ser considerado, pois sem considerar este grupo, o IPCA teria sido de apenas 0,25%. A relevância dessa informação se relaciona com o diagnóstico de uma outra variável examinada pelo Copom do Banco Central, o chamado índice de difusão (dado que considera quantos produtos tiveram alta de preços no mês). Este índice foi ainda alto em março, 68,5% - mas mostra também que os percentuais de reajustes de preços dos outros produtos foram pequenos.

Além disso, em fevereiro, o índice de difusão havia sido de 72,3%, evidenciando que o dado de março se reduziu.

 

Mas, além dessas considerações de ordem técnica, por que razão os preços dos alimentos estão pressionando a inflação? Mais ainda: por que razão a elevação da taxa Selic inibirá esta pressão altista?

 

São dois os fatores que explicam o papel de vilão dos alimentos, no cálculo da inflação. O primeiro deles se relaciona a problemas de oferta, produzidos pela entressafra de alguns produtos e chuvas inesperadas, prejudicando a oferta de produtos in natura, como é o caso dos hortifrutis.

 

Porém, há também a influência da especulação nas bolsas de mercadorias de commodities agrícolas, que acabam influenciando os preços, e a oferta, de produtos comercializados internamente.

 

Frente a esses dois fatores, a elevação da taxa Selic é absolutamente inócua, a não ser que a dose altista na taxa básica de juros fosse de tal ordem que viesse a produzir uma brutal desaceleração econômica, de modo a deprimir o nível de consumo interno para um plano recessivo. Mas, é evidente que isto não interessa ao governo atual, que desde 2011 busca desesperadamente reativar o crescimento econômico, sem nenhum tipo de sucesso.

 

É neste ponto, justamente, que se encontra o principal equívoco da medida anunciada pelo Copom do Banco Central. O que mais deveria preocupar as autoridades monetárias neste momento são os fortes indícios de aprofundamento da crise internacional. A reação da economia dos EUA está muito aquém do desejado, a crise europeia continua indefinida e a perspectiva mais plausível para a economia chinesa é que sua desaceleração continue em curso, caindo para algo em torno de 6% ao ano.

 

Não sem razão, o G-20, através do comunicado dos ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais desse grupo de países, para a reunião do FMI e do Banco Mundial que se realiza em Washington, aponta que “muitos países tomaram medidas para estimular a demanda desde a última vez em que nós nos encontramos (em fevereiro), mas é necessário fazer mais para cumprir o nosso compromisso de enfrentar a atual fraqueza da economia global”.

 

As consequências desse quadro externo para a economia brasileira, especialmente para as nossas exportações, é muito sombria. O resultado da balança comercial do país, até março, acumula um déficit de US$ 5,5 bilhões, o pior desde março de 1993. Além disso, os preços das commodities em queda – outro dado que deveria ser levado em conta pelo Banco Central: desde setembro do ano passado houve uma redução média nos preços internacionais de 13% - afetará irreversivelmente as nossas receitas de exportação.

 

Neste sentido, já há projeções que apontam um saldo comercial para este ano de apenas US$ 8 bilhões, o que nos fará dependentes ainda mais de recursos financeiros, que entram no país para a aquisição de ativos produtivos – ampliando a desnacionalização da economia – ou meramente para incrementar a especulação financeira.

 

É a partir desta realidade que, infelizmente, o velho, surrado e muito lucrativo “samba de uma nota só” – do mercado financeiro e de seus porta-vozes – volta a ser acionado, com a elevação da taxa Selic, e a sempre garantida rentabilidade para o capital financeiro, em meio às incertezas da economia real e o aprofundamento de nossas fragilidades.

 

 

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Paulo Passarinho é economista e apresentador do programa de rádio Faixa Livre.

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