O Bolívar que não fala francês

 

 

Simon Bolívar não foi apenas o herói da independência da América Latina. El Libertador notabilizou-se como um corajoso reformador social. Filho de uma família nobre da Venezuela, então colônia da Espanha, completou seus estudos em Madri e Paris, onde participou da vida cultural, apaixonando-se pelas idéias democráticas de Rousseau, Montesquieu e Voltaire.

 

De volta à América, comandou os exércitos revolucionários que combateram os espanhóis durante 5 anos, libertando regiões que são hoje Bolívia, Colômbia, Peru, Venezuela. Eleito presidente do seu país, procurou promover avançadas reformas em favor da população pobre.

 

Fisicamente, Chávez e Bolívar são totalmente diferentes.

A figura esbelta e elegante do Libertador contrasta com o pesado e canhestro Chávez, com suas roupas mal cortadas e o rosto escuro, denunciando ancestrais indígenas (avó da etnia Pumé). As dessemelhanças continuam nos estilos de oratória. Enquanto Bolívar é sóbrio, fino e erudito, Chávez é destemperado e emocional, não vacila em atacar rudemente quem dele discorda.

 

Mas, ao eleger Bolívar como modelo e suas idéias como objetivo, Chávez conseguiu uma perfeita identificação. Não é a toa que ele batizou seu movimento de “socialismo bolivariano”.

 

Ambos adotaram como grande prioridade a defesa dos pobres. Para isso, foi essencial reduzir os privilégios das classes favorecidas e dos interesses estrangeiros. Por isso, Chávez é considerado por muitos o “criador da luta de classes” na Venezuela. E Bolívar recebeu do seu opositor, o general Santander, a acusação de desencadear «uma guerra na qual ganhem os que nada têm, que são muitos, e percamos nós, os que temos, que somos poucos».

 

Para realizar seu ambicioso programa de reformas sociais, Bolívar exigiu e obteve poderes extraordinários, ferozmente combatidos pelos beneficiários do regime. Foi chamado de “aprendiz de ditador”, “autoritário”, “administrador ineficiente” tanto pelos jornais do país, quanto dos Estados Unidos e da Europa. Exatamente o que acontece com Chávez.

 

Condena-se como antidemocrática sua posição a favor de reeleições sucessivas, esquecendo-se que Roosevelt, Thatcher e Blair governaram por diversos períodos. O fechamento da RCTV é apontado como prova de que na Venezuela não há liberdade de imprensa. Diz o governo que a emissora de TV mereceu por ter violado a lei ao pregar o golpe de Estado e que cancelar a concessão seria legal, pois o prazo tinha vencido. Legal, mas, talvez, pouco ético. O golpe fracassado aconteceu há 5 anos – nessa ocasião, o governo teria todo direito de pedir o cancelamento da concessão por via judicial. Ficou a idéia de que a ação do governo visou calar uma voz oposicionista.

 

A explicação prende-se ao desejo de Chávez de evitar o destino de Bolívar que, derrotado pelos políticos e seus poderosos patronos, foi obrigado a renunciar, frustrando seus sonhos de reforma social. Ele conhece a força e a agressividade de seus inimigos. Em 2002, quando emitiu 49 decretos ,dos quais os mais radicais eram uma reforma agrária do tipo da brasileira e a reserva para o Estado de 51% das ações das petrolíferas, os empresários da FEDECAMARAS (a Fiesp deles), aliados à classe média e a alguns sindicatos, promoveram uma greve geral e um “lock-out” – que levaram a economia nacional à bancarrota (a produção de petróleo caiu de 3 milhões de barris diários para 25 mil) -, passeatas com multidões e, por fim, um golpe de Estado, apoiado pelo FMI e pelo governo americano.

 

Agora que pretende concluir a passagem da Venezuela para o socialismo bolivariano através de 33 alterações constitucionais, Chávez precisa da opinião pública a ser ouvida em plebiscito neste ano. Não poderia permitir que ela fosse influenciada negativamente pela RCTV, uma rede que é tão poderosa quanto a Globo no Brasil.

 

Urgido por essa mesma necessidade de concretizar de vez o socialismo bolivariano, Chávez obteve do Congresso o direito de legislar sobre uma série de matérias. Alega-se que, com isso, a independência dos 3 Poderes, essencial num regime democrático, foi para o espaço, ainda que temporariamente. É um fato a considerar. Combustível para aqueles que o vêem como “uma ameaça”. Não certamente à Venezuela e a seu povo.

 

“Contra facti nom sunt argumenta”, diziam os romanos. Veja o que os fatos dizem: com Chávez, a inflação foi de 30% , em 1998, para 7%, previstos para 2007. Entre 2004 e 2006, o país cresceu a uma média de 12% ao ano. Nesse mesmo período, o PIB per capita foi de 4.800 para 7.200 dólares. O salário-mínimo de 286 dólares é o maior da América Latina. A pobreza ainda é alta, mas diminuiu de 43,9% em 1998 para 30,6% em 2006. E o desemprego, que chegava a 15% em 1999, em junho de 2007 atingia apenas 8,3%.

 

Minimizam-se essas cifras lembrando-se que tudo se deve à alta do petróleo; quando ela acabar... adeus Venezuela. Algo assim aconteceu antes de Chávez. Apesar de, entre 1976 e 1995, o petróleo ter gerado 270 bilhões de dólares, o país tinha entrado em colapso. Na década de 90, o FMI entrou em ação com suas receitas. E os resultados desastrosos habituais. Para evitar essas coisas, Chávez tem usado os rendimentos do petróleo em investimentos, não apenas sociais, mas também na industrialização do país. E com sucesso. A taxa de crescimento industrial foi de -15%, em 2004, para +7% em 2007, o que reduziu a importação de bens de consumo de 37% do total, em 2003, para 24% , em 2007.

 

Como Bolívar, Chávez propõe uma integração solidária dos países da América Latina. Não fica nas palavras: tem ajudado a resolver problemas da Argentina, Bolívia, Cuba, Nicarágua, Peru e Equador, usando o dinheiro ganho com o petróleo.

 

Talvez se possa censurar seus excessos verbais como chamar Tony Blair de “fantoche do imperialismo que partilha a cama de Bush” e o Senado brasileiro de “papagaio de Washington”. Montesquieu certamente não aprovaria o que ele fez de sua teoria dos 3 Poderes. E, no caso da RCTV, a liberdade de imprensa na Venezuela sofreu um hiato, embora as demais 118 empresas jornalísticas do país continuem exercendo o direito de atacar o governo. Mas, antes de julgar se Chávez é democrata ou não, convém pesar o que ele tem feito por seu povo. Ken Livingstone, prefeito de Londres, tem sua opinião: “A Venezuela era como uma dessas velhas nações latino-americanas – uma pequena elite de famílias super-ricas que roubavam os recursos nacionais. Chávez está dirigindo uma nova ordem econômica onde, pela primeira vez, há saúde para o povo pobre e o analfabetismo foi erradicado. É encorajador ver um governo empenhado na transformação social e democrática de uma importante nação da América Latina”.

 

 

Luiz Eça é jornalista.

 

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