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Escrito por Gilvan Rocha   
Sexta, 12 de Abril de 2013
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Antes de 1964, a esquerda, no geral, vivia uma grande mentira, formulada e difundida amplamente pelo velho Partido Comunista Brasileiro (PCB), seguindo uma esdrúxula tese formulada por Moscou sobre o “caminho pacífico para o socialismo”. O PCBão divulgava massivamente esse preceito, ou seja, dizia que haveríamos de superar o capitalismo por via do parlamento, por via das eleições.

 

Quando questionado de que a direita não haveria de permitir esse processo e se disporia a reprimi-lo, por via de um golpe de força, eles diziam que o “glorioso exército brasileiro” era, essencialmente, popular e fiel à legalidade. E se as massas populares pretendessem construir o socialismo por vias institucionais, teriam nas forças armadas a segurança de que esse processo de transformação pacífica seria garantido.

 

Quando se insistia, porém, no fato de que poderia haver um golpe de natureza direitista, eles mais uma vez proclamavam uma mentira, afirmando existir um “dispositivo militar” sob a direção do general Assis Brasil, sempre atento para garantir a legalidade e, caso os direitistas dessem o primeiro tiro, seriam esmagados. Dessa forma, o PCBão desarmava, política e ideologicamente, as massas populares, fazendo-as crer em tamanha lorota.

 

Não precisou, entretanto, que a direita desse o primeiro tiro; bastou que ela desse o primeiro grito e o PCB sumiu, escafedeu-se, deixando-nos na mais profunda orfandade política. Desse fato, tirou-se a conclusão da impropriedade que continha a tese do “caminho pacífico” e a esquerda, no seu mais profundo atraso, promoveu um brutal reducionismo, que consistia em afirmar ser a política do caminho pacífico expressão do reformismo, enquanto os revolucionários se expressavam através da luta armada.

 

Assim, a luta armada passou a ser sinônimo de revolução e revolucionários eram aqueles que se lançavam em armas, pouco importando se esses grupos eram anticapitalistas, o que não eram, ou simplesmente nacional-reformistas, fiéis à consigna “ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil” – cuja expressão pronta e acabada era a Aliança Libertadora Nacional, a ALN, do indômito Carlos Marighella.

 

Em decorrência da confusão e do atraso desses grupos heroicos, que se colocavam como libertadores das massas exploradas e oprimidas, sem que com elas tivessem o menor contato, praticavam-se atos absurdos, reveladores desse atraso.

 

Em decorrência de sua formulação política equivocada, o embate entre as organizações armadas e o Estado sob o comando militar e policial resultou em imensa sangria de valorosos quadros militantes, quando uns morreram, outros foram encarcerados e muitos seguiram o caminho do exílio.

 

Diante do testemunho da mais profunda derrota, viu-se tremular de forma triunfante a bandeira da extrema-direita. Esses episódios mereciam uma atenta avaliação, mereciam uma severa autocrítica. O que se viu, porém, foi o vicejar de um processo de avaliação nada revolucionário. Explorando os inúmeros comportamentos equivocados e preconceituosos, levados a cabo por esses grupos da luta armada, o senhor Fernando Gabeira, uma das expressões mais eloquentes dessa luta, veio a lume com o seu livro “O que é isso companheiro?” e com ele buscou empreender uma crítica desprovida de qualquer caráter socialista.

 

Ao invés de revelar o atraso político como causa maior do despropósito de uma luta armada desvinculada das massas populares, o jornalista Gabeira prendeu-se a uma crítica de natureza comportamental e aproveitou o ensejo para assumir novas bandeiras, empunhando a defesa do verde. Sem deixar de “queimar o mato”, tornou-se guardião da justa causa da legalização do uso da maconha, enquanto, em uma atitude ousada e pronta para chocar setores conservadores, não hesitou em vestir o seu biquíni de crochê nas praias de Copacabana, como se tal “audácia” fosse sinônimo de uma postura revolucionária.

 

Não era a autocrítica de Gabeira o que esperávamos. Não são os constantes discursos de denúncia de torturas e atrocidades cometidas pela repressão que haverão de atender a justa análise dos erros representados pela chamada luta armada. Vemos que a esquerda, modo geral, se nega a promover uma discussão séria sobre aquele episódio, limitando-se a cultuar os mártires, sem, contudo, promover a verdadeira crítica. Sem, dessa forma, nos armarmos política e ideologicamente de maneira consequente para que possamos agir em prol do nosso projeto de superação do capitalismo e a conquista de uma nova ordem econômica e social, o socialismo.

 

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Gilvan Rocha é militante socialista e membro do Centro de Atividades e Estudos Políticos. Blog: www.gilvanrocha.blogspot.com

 

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