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O prodigioso retorno do ‘Nordestão’ Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Brito, da Redação   
Terça, 02 de Abril de 2013
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Terminou no último dia 17 mais uma edição da tradicional e intermitente Copa do Nordeste, disputada por 16 clubes de sete estados da região e voltando a empolgar torcidas e imprensa, que puderam festejar a ressurreição do torneio que a CBF havia limado do calendário em 2003 – a despeito de uma tímida e quase anônima edição em 2010.

 

O título foi conquistado pelo tradicional Campinense Clube, de Campina Grande, em uma surpreendente final contra a Associação Sportiva Arapiraquense (ASA), que por seus feitos no atual século já não pode ser encarada pelo torcedor com os ares folclóricos que caracterizaram o clube na famosa canção de Chico Buarque. A dupla contrariou os prognósticos, eliminou Ceará e Fortaleza na semifinal e promoveu uma rara final sem times capitalinos.

 

A competição pode e deve ser comemorada por todos da região, tendo ainda bastante a evoluir, mas já tratada como um enorme sucesso por todos os envolvidos.

 

“O torneio nordestino incomodava os grandes clubes do país. Em 2003, a CBF deixa de reconhecer a competição, alegando que não haveria espaços no calendário, uma vez que o Brasileirão passaria a ser disputado em um novo formato, agora em pontos corridos com 46 rodadas (na sua primeira edição)”, comenta o jornalista Irlan Simões, colunista de futebol em sites diversos e que este ano trabalha na cobertura do futebol sergipano.

 

Retomada histórica

 

Era um tempo em que o futebol nacional vinha da trágica derrota na final da Copa de 98, seguida por inúmeras evidências de malversação de recursos, viradas de mesa que culminaram na deprimente Copa João Havelange de 2000, completadas por uma ingerência da Nike na vida da seleção brasileira que na época ainda indignava o cidadão médio.

 

Tudo isso terminou em duas CPIs que paralisaram o mundo do futebol e ruborizaram todo um país com suas denúncias e revelações, inclusive com direito a uma devastadora edição do Globo Repórter a respeito de Ricardo Teixeira e suas peripécias à frente da CBF.

 

Como estamos falando de Brasil, bastaram o título mundial de 2002 e a promulgação de um então promissor Estatuto do Torcedor para que tudo voltasse ao normal. Obrigada a aumentar o período do Campeonato Brasileiro, a CBF logo correu para os braços das fisiológicas federações estaduais, garantindo sua manutenção e os mesmos gatos pardos no poder. Sobrou para os torneios regionais, isto é, a Copa Nordeste, Norte, Sul-Minas e o Rio-São Paulo.

 

Neste hiato de dez anos, os times nordestinos foram progressivamente decaindo no cenário nacional, tornando-se meros figurantes dos principais torneios e quase nunca capazes de ambicionar os mesmos voos dos clubes Sudeste abaixo.

 

“Durante o ápice da competição, de 1998 a 2002, o Nordeste tinha todos os anos pelo menos três clubes na elite do futebol nacional, chegando às fases finais em três ocasiões. A Copa do Nordeste conseguia reverter uma lei considerada natural no futebol brasileiro: os aportes financeiros sempre favoreciam os clubes ‘maiores’. Clube dos 13, cotas televisivas, atenção da mídia, patrocínios privados e públicos definidos de formas díspares etc. Uma série de quesitos que criava um abismo entre os clubes nordestinos e os clubes centrais, principalmente os paulistas e cariocas”, explica Irlan.

 

Revalorização

 

Se as edições dos campeonatos estaduais são um estorvo cada vez maior nos estados mais ricos da nação, permeados por uma imensa quantidade de jogos de nível questionável, não é difícil imaginar que contribuíram muito para essa perda de poderio do futebol nordestino, que parecia, e ainda parece, condenado a nunca mais vislumbrar os grandes títulos nacionais – apesar da isolada façanha do Sport Recife na Copa do Brasil de 2008.

 

Desde que o Campeonato Brasileiro tem sua atual fórmula, nunca um clube da região ficou entre os 4 ou 5 primeiros colocados, de modo a almejar a taça ou ao menos se classificar para a Copa Libertadores da América, a principal disputa do continente.

 

Agora, ainda sem a entrada da Globo no circuito, que estranhamente optou por não comprar os direitos televisivos, assim como nenhuma outra grande emissora, as coisas já vão melhorando. Apesar da visibilidade ainda baixa da edição recém-terminada, os clubes já garantiram um contrato de 100 milhões de reais por 10 anos, com o pouco conhecido Esporte Interativo, além de valorização em outras frentes, gerada pela aprovação do torneio.

 

Enquanto isso, o público já respondeu claramente ao apelo do “Nordestão”, comparecendo em muito maior número que nos famigerados estaduais. A média de 8 mil pessoas já deixa no chinelo todos eles, e só não foi maior porque atualmente o brasileiro paga o ingresso mais caro do mundo para ver futebol, como revelou estudo da Pluri Consultoria divulgado por esses dias.

 

“A Copa do Nordeste altera essa correlação das forças quando traz aos nordestinos um torneio de sucesso de público, renda, audiência e emoção durante os dois primeiros meses dos anos, como eram as edições antigas, num período no qual os clubes ‘do eixo’ disputam torneios estaduais deficitários, desinteressantes e de baixa qualidade técnica”, completa Irlan Simões.

 

Muito pela frente

 

Entretanto, nem tudo é só festa e muita coisa ainda deve ser melhorada, a começar talvez por uma extensão do tempo da competição, que poderia findar somente às vésperas do Campeonato Brasileiro, este ano marcado para iniciar em 26 de maio.

 

No mais, existem problemas conjunturais de todo o futebol brasileiro, que levam a situações esdrúxulas como o campeão Campinense desmontar todo o seu time no segundo semestre, caso não vença seu estadual e conquiste uma vaga na Série D do Brasileiro. Aliás, também é preciso engordar o calendário das divisões de acesso e manter mais clubes Brasil afora em atividades que permitam ir além das fronteiras de sua unidade federativa.

 

Já à mídia, especialmente a Globo, afinal sócia majoritária do futebol brasileiro, resta dar holofotes cada vez mais fortes para um torneio que reúne grandes camisas e torcidas. Pois, no atual jogo de mercado que rege o futebol, exposição e mais dinheiro são inerentes à retomada completa do futebol nordestino.

 

O recomeço de 2013 foi positivo, tanto que já influencia articulações em torno da ressurreição das copas Norte e Sul-Minas, além de Piauí e Maranhão confirmarem presença no próximo ano. Mas ainda há uma longa caminhada para que vejamos a região mais castigada pelas mazelas brasileiras (re)apresentar esquadrões candidatos a potências nacionais, dentro e fora de campo.

 

Gabriel Brito é jornalista do Correio da Cidadania.

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Última atualização em Sexta, 05 de Abril de 2013
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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