Grandalhão indolente

 

 

Quando ainda era “pequeno e insolente”, para usar uma expressão do genial Carlito Maia, o Partido dos Trabalhadores fazia congressos mais animados. Mais criativos e sintonizados com o dinamismo que lhe chegava de uma militância presente no dia-a-dia dos movimentos sociais. Hoje, infelizmente, como instrumento de transformação, que politiza o dinamismo dos conflitos, alimenta a grande política e produz projetos de mudança, o PT acabou. É uma página virada.

 

O partido, que já atiçou a esperança de milhões e agora se acomoda nas práticas da velhíssima política, opera no contraponto de sua identidade original. Uma lástima. Os petistas que ainda cultuam na memória a antiga identidade do partido - por incrível que pareça eles ainda existem - devem estar se perguntando o que ainda fazem neste palco de perdidas ilusões. Todos sabem que a resolução, positiva, pela anulação do leilão da Vale é um papel sem lastro. O governo é contra e a maioria do partido está no governo. Como no caso da propaganda contra as privatizações no segundo turno da eleição presidencial, são palavras ao vento.

 

A ética na política e a luta pela mudança no modelo econômico excludente, bandeiras que animaram o petismo na sua fase heróica e polarizaram parcela significativa da cidadania brasileira, já não estão mais ao alcance do PT. Nenhuma resolução de crítica ao modelo econômico que o partido nasceu e cresceu combatendo foi aprovada no congresso. Ninguém pediu a cabeça do Meirelles. O famoso “bloco de esquerda”, que animava os debates na bancada federal, não existe mais. A matriz de pensamento do partido, antes ancorada no dinamismo dos movimentos da sociedade, agora está acoitada na máquina do Estado, onde o continuísmo conservador define as bases da diretriz.

 

Afastado de sua identidade histórica, desvinculado da base social que lhe fornecia vitalidade, ao partido foi reservado o trabalho sujo de uma “governabilidade” atrelada ao intestino grosso da pequena política.  Para que o presidente siga limpo como um “santo de bordel”, tudo que é feio e torto é debitado nas contas do partido. Este, sempre passivo, aceitou a condição de almoxarifado de bodes expiatórios. Basta ver a situação atual da vistosa “cadeia de comando” que ocupou na primeira hora o cerne do governo e que ocupa agora, por decisão do Supremo Tribunal Federal, o banco dos réus.

 

O PT saiu de si mesmo e agora veste o figurino clássico da velha política conservadora. Desfila desajeitado no descompasso de quem perdeu o rumo da trajetória própria. Resolveu aprender com os antigos adversários. E, como cristão novo, precisa praticar com ênfase redobrada aquilo que sempre combateu. Cospe no prato que comeu e come com apetite voraz no prato que cuspiu.  Uma tristeza.  Assim como as estrelas mortas, ele ainda maneja raios de luz do que não mais existe como pólo ativo. Conserva, portanto, algum poder de iludir, mas já trocou definitivamente de identidade. A galeria dos partidos da ordem, como diria o genial Carlito Maia, ostenta mais um “grandalhão indolente”.

 

 

Léo Lince é sociólogo.

 

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