Conclave: a escolha de um papa inaudito

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2013 já representa um ano extremamente importante para a história da Santa Sé por um par de motivações: a renúncia espontânea de um pontífice e a escolha de um improvável sucessor até poucos dias, por duas causas.

 

Quanto ao primeiro item, não se assistia ao despojar-se de um sumo pontífice desde o Grande Cisma, na fase final da Idade Média (1378-1417), quando três papas concorrentes foram influenciados a retirar-se do principal proscênio eclesial.

 

Naquela época, Roma e Avinhão, apoiada inicialmente pelos reis ibéricos após o despontar da crise, disputaram a primazia física da representação da cristandade ocidental. Durante a última fase da estranha disputa, existiu até mesmo a tentativa de estabelecer-se uma terceira sede na península itálica, Pisa.

 

No tocante ao segundo ponto, houve, até a primeira metade de março último, duas históricas interdições informais constantes nos processos sucessórios: o ‘antijesuitismo’, em vista do temor do aparente poderio da Companhia de Jesus dentro da Igreja, e o europeísmo, em face da tradição milenar da instituição.

 

Desta maneira, o apontamento do Arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, para o trono petrino eliminou de maneira simultânea aquelas duradouras restrições, mesmo tendo direcionado a liderança da Santa Sé para um religioso de extração italiana.

 

De forma isolada, a escolha de um cardeal da América do Sul aparentava ser menos surpreendente que a de um jesuíta. Desde o conclave de 1978, relativo à substituição de Paulo VI, americanos têm sido cogitados para o papado. Cite-se o caso pioneiro de dom Ivo Lorscheider, aludido até em filme de Francis Ford Coppola – O Poderoso Chefão III, de 1990.

 

No presente processo, cogitou-se ao longo de dias a possibilidade de um canadense, brasileiro, hondurenho, argentino, mexicano ou até norte-americano assumir a Santa Sé. Asiáticos e africanos foram mencionados também, o que simboliza de modo premente a necessidade de ‘deseuropeizar’ a Igreja Católica.

 

Quanto à nacionalidade do primeiro cardeal, ele (Marc Ouellet) seria a ponte entre o mundo latino e o americano, sem retirar-se a Santa Sé da extensão norte-atlântica, de características mais tradicionais.

 

Paralelamente, sua indicação proporcionaria à sociedade francesa a retomada do prestígio de uma cultura com vínculos com a Igreja contados desde o remoto século V, quando o rei dos francos, Clóvis (modernamente Luís), se converteu ao cristianismo. Desde então, a França se considera a filha dileta da instituição.

 

No tocante aos purpurados hispano-americanos, um deles representaria a conexão com a maioria da população católica em todo o globo. Sob a perspectiva cultural, seria um sumo pontífice cujo idioma de nascença atingiria três continentes.

 

De modo indireto, são os hispanos a comunidade renovadora da Igreja nos Estados Unidos, marcada por sucessivas ondas migratórias, ainda que minoritárias no início, desde o século XVII: irlandeses, alemães do sul, italianos, espanhóis e portugueses. Nos dias atuais, o catolicismo, ao ser considerado isoladamente, é a maior denominação cristã naquele país.

 

Concernente ao brasileiro, ele seria o representante da maior sociedade formalmente católica, apesar de cada vez mais decrescente no número de fiéis, em função do crescimento de adeptos do neopentecostalismo desde a década de 70.

 

Decidido na escolha do papa um perfil de transição, o que implicaria também idade avançada, o colégio cardinalício teria poucas opções entre os septuagenários americanos se fossem excluídos brasileiros e estadunidenses.

 

O objetivo pode ter sido o de manter a estrutura representativa cardinalícia sem mudanças abruptas, visto que um deles poderia reformá-la ao levar em conta o número de adeptos em cada um dos países, o que prejudicaria a Europa.

 

Eis um dos possíveis motivos para o sobressair de um argentino, ainda mais depois do impasse entre os próprios europeus, indecisos entre italianos e alemães.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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