“O socialismo real”

 

Entre os inúmeros e graves desserviços prestados por uma certa intelectualidade possuída de desinformação ou má fé, está o indevido carimbo de “socialismo real” para se referir aos países em que o processo revolucionário socialista foi derrotado e criaram-se Estados policiais, geridos por uma burocracia que se limitava a levar a cabo o capitalismo de Estado.

 

A confusão que se deu em torno dessa questão deve-se ao fato de não ter havido uma análise realmente correta do processo de derrota da revolução socialista, a começar pelo processo soviético. Ali, na URSS, travou-se uma renhida luta entre os que pretendiam preservar os princípios do socialismo e os que capitularam diante da vitória da contrarrevolução.

 

Usando, fraudulentamente, o rótulo do “marxismo-leninismo” esses senhores, que se postaram como linha auxiliar de sustentação do capitalismo, passaram a vender, com grande sucesso, gato por lebre, enquanto uma legião de pessoas não se dava conta de que nem sempre o rótulo corresponde ao conteúdo. Sob o rótulo do comunismo transitou a Terceira Internacional, praticando, efetivamente, uma política que servia aos objetivos do sistema socioeconômico vigente, pois a lógica dessa instituição política era manter a “pátria do socialismo” mesmo que isso custasse, como de fato custou, a derrota da revolução socialista em escala mundial.

 

Tudo isso, repetimos, se deu em decorrência do fato de ter nos faltado uma análise realmente marxista da Revolução Russa e de seus descaminhos. Os que tinham estatura política e moral para fazer essa análise seriam Rosa Luxemburgo e Leon Trotsky. Rosa foi trucidada pela contrarrevolução na Alemanha, em princípios de 1919, e não teve tempo de proceder a tal análise, embora tenha produzido um pequeno ensaio onde já apontava os grandes riscos que atravessavam os revolucionários russos, diante da tendência de isolamento da revolução soviética.

 

Vladimir Lenine, que chegou a afirmar, em 1920, que se vivia um dilema, “ou a revolução socialista triunfava na Europa Ocidental ou a Revolução Russa pereceria”, insistiu, porém, em não reconhecer o quadro de derrota e propor uma retirada estratégica; preferiu perseverar em manter, a qualquer custo, a URSS que, a cada dia, deixava mais e mais de ser realmente soviética, desde 1921 em um processo crescente de avanço da contrarrevolução que veio a se firmar.

 

Quem teve tempo suficiente para descortinar a realidade política foi Leon Trotsky, porém, por diversas razões, negou-se a proceder uma análise realmente marxista daquele processo, descambando para o idealismo como “revolução traída” , “revolução desfigurada”, “Estado operário degenerado”, “pátria do socialismo” e outros absurdos que nos deixavam numa sofrida orfandade política, isto é, sem um instrumento de análise política que correspondesse à verdade histórica.

 

Outros intelectuais não se apresentaram à altura de cumprir a tarefa de dissecar aquela experiência derrotada e, desse reconhecimento, formular uma política realmente condizente com a realidade. Como conseqüência desses fatos, aí está a situação produzida em função da ausência de uma esquerda revolucionária, calcada nos princípios do socialismo científico. Aí está um sistema capitalista completamente exaurido, enfrentando sucessivas crises do ponto de vista econômico e financeiro, porém, politicamente hegemônico, pois é patente a ausência de um movimento socialista de caráter anticapitalista capaz de representar uma ameaça de transformação revolucionária.

 

Para tornar mais grave o nosso estado de indigência, floresce o “marxismo legal”, amparado nos umbrais das academias, a produzir subjetividades e especulações, quando não a cometer desatinos, imputando como sendo um socialismo real aquilo que nunca chegou a ser socialismo. Devemos ter a coragem política e intelectual de enxergar nesses senhores a desinformação, a má fé e, em muitos casos, o puro charlatanismo, que prospera em função do medo de muitos e do preconceito de tantos que julgam serem as academias templos do saber, não atentando que isso é uma meia verdade e uma absoluta mentira se pretendermos que no antro acadêmico possa brotar a ressurreição do socialismo científico, cruelmente atropelado pelo dogmatismo do stalinismo-trotskismo, do qual urge que nos libertemos.

 

 

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Gilvan Rocha é presidente do Centro de Atividades e Estudos Políticos – CAEP.

 

Comentários   

0 #3 não foi bem assimlucas 13-01-2016 07:22
Sou historiador, e posso afirmar que o que o amigo escreveu não corresponde a verdade. Antes de escrever um artigo, resumo, seja o que for, nosso amigo gilvan rocha precisa aprender a ser imparcial. Esses adjetivos, os quais o mesmo usa, para expressar o que o proprio autor do texto pensa, acredito, que seria melhor que o amigo autor guardasse para si mesmo, e fizesse, ja que quer tanto criticar, uma critica ao final. Mas a história em si nao pode ser manipulada como este autor esta fazenda, independente do lado político, a história precisa ser contada de forma crua. fica a dica amigo, para os proximos textos.
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0 #2 Socialismo Realjosé 27-03-2013 03:39
O socialismo nunca foi socialismo, do capitalismo não se espera nada, mas vamos levando, e as religiões também não deram em nada. pelo visto não saímos do terreno da metafísica, das especulações, das utopias, das escatologias. Pra chegar a essa conclusão fechemos os cursos de filosofia, ciências sócias, etc. afinal não temos nada, só um monte de boas intenções
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0 #1 Oportunismo desbotadoHamilton Carvalho 25-03-2013 19:54
A posição desse cara aí é o que Lênin chamava de "cadeira do meio". Stalinismo-trotkismo! Recuo estratégico em 1921! É natural que o oportunismo de lusco-fusco não consiga se expressar com clareza e culpar de vez os soviéticos pelo surgimento e pela (posterior, claro) derrota do nazismo. Afinal, o homem é socialista anticapitalista. Só precisa achar o socialismo capitalista para ele combater.
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