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A Igreja, a Ditadura e o papa Imprimir E-mail
Escrito por Gilberto Calil e Marcos Vinícius Ribeiro   
Sexta, 22 de Março de 2013
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A relação entre Igreja e ditadura na Argentina é anterior ao desencadeamento do golpe terrorista de 1976. Nos seis golpes de Estado, que foram seguidos por controle militar do aparato estatal, houve, em grande medida, participação e atuação da Igreja. Em 1930, com apoio da igreja, o movimento militar da chamada “restauração conservadora” derrubou presidente eleito e retroagiu a estrutura econômica e política do país ao sabor das oligarquias reacionárias. Em 1943, o Grupo de Oficiais Unidos (GOU) arquitetou a tomada de poder numa mistura confusa e eficaz que conjugou catolicismo e nacionalismo. Em 1955, após os dois primeiros governos peronistas, a Igreja Católica entra em choque com Perón, chegando a excomungá-lo, para logo apoiar a chamada “revolução libertadora” que pôs fim à experiência peronista, liderada por militares integristas. Se auto-intitularam como portadores de uma missão redentora cujo objetivo fora a “desperonização do Estado”.

 

O caráter ativado da mobilização popular no contexto dos anos 1960, cujo Cordobazo foi o ápice, introduz um panorama que põe em xeque a hegemonia capitalista e o status quo.

 

Em 1966, Juan Carlos Ongania assumiu o poder com apoio deliberado da direita conservadora, alinhada com a igreja, e prometera nova reação à ativação dos movimentos de luta popular, os setores da lucha callejera. À época, o projeto do Onganito contou com o apoio da instituição católica. Postura que coadunou um projeto espiritual e econômico esclarecido, enfim, na nomeação de seu ministro da Economia, Jorge Néstor Salinei, que não possuía outra credencial senão o apoio declarado dos setores conservadores da Igreja.

 

O Cordobazo e o Rozariazo atropelaram o Onganiato. O olho do furacão, a cidade de Córdoba. Barricadas montadas nas ruas, baseadas na aliança entre setores operários e estudantis, demonstraram a ativação da luta popular em fins dos anos de 1960 e a fragilidade da hegemonia militar encouraçada de repressão. A luta de classes atingia níveis muito intensos.

 

Em 1976, sob as bênçãos da Igreja, representada na ocasião pelo padre Adolfo Tortolo, houve o golpe de 24 de março. Não se tratava de mais uma ditadura como as anteriores. Tratava-se, em suma, da ativação de um projeto terrorista cujo ensaio fora a “operação independência” em Tucumán. Imbuídos da doutrina Francesa da contra-insurgência, um aparato de guerra, bem azeitado, agrediu e dizimou a iniciativa foquista do Ejercito Revolucionario Del Pueblo (ERP) em 1975, ainda sob o governo constitucional de Isabelita Perón.

 

O Golpe de 24 de março de 1976, por si, apresentou-se como síntese do processo contrarrevolucionário. Sobre bases amplas de setores apoiadores da sociedade civil, meios de comunicação como o jornal Clarín, a Associação Permanente de Entidades Gremiais (APEGE) – representante do patronato empresarial argentino -, Sociedade Rural Argentina (SRA), e os setores conservadores da Igreja católica, apoiaram o auto-intitulado “Processo de Reorganização Nacional” (PRN), que oficializou o Terrorismo de Estado.

 

Os objetivos do Terrorismo de Estado, a partir de 1976, eram amplos, de longo prazo e retroativos. Tratava-se de uma intervenção “cirúrgica”, além de um projeto de militarização da sociedade. Constavam nas atas do processo os seguintes objetivos: “O Exército agirá seletivamente sobre os estabelecimentos industriais e empresas do Estado, em coordenação com os organismos estatais relacionados ao âmbito, para promover e neutralizar as situações conflitivas de origem trabalhista, provocadas ou que possam ser exploradas pela subversão, a fim de impedir a agitação e a ação insurrecional de massas, e contribuir para o eficiente funcionamento do aparelho produtivo do país.” (CONADEP, s/d: 280).

 

Conjugavam-se, no escopo e corpo da ditadura, um projeto de contra-revolução que se baseou no Integrismo Católico, na Doutrina de Segurança Nacional (DSN) e nos “valores ocidentais”. A ditadura de Terrorismo de Estado, na Argentina, contou com apoio massivo da cúpula católica. Desde os primeiros momentos da ditadura terrorista, a posição da Igreja era claramente definida, como revela a nota da Junta Episcopal argentina em reunião com a Junta Militar, ocorrida em 15.11.1976:

 

“O que pretende a Igreja? Primeiro, que não se misture na política. Frente a isto, os Bispos somos conscientes de que um fracasso levará, com muita probabilidade, ao marxismo, e por isto, acompanhamos o atual processo de reorganização do país, empreendido e encabeçado pelas Forças Armadas, o acompanhamos com compreensão e igualmente com ADESÃO E ACEITAÇÃO” (1).

 

Como insígnia do referido debate, encontramos alguns pontos nodais da cumplicidade entre Igreja e Ditadura. Para elucidar a questão, é importante lembrar o sequestro e desaparição de duas monjas francesas durante o terrorismo de Estado. Dagmar Hegelin, monja francesa que atuou nas redes de solidariedade aos familiares de desaparecidos, ainda durante a ditadura, foi sequestrada e levada a ESMA onde foi brutalmente torturada. Apesar das vinculações de Dagmar com a instituição, nada se falou à época.

 

Além do silêncio e cumplicidade da cúpula eclesiástica, encontra-se o caso de cooperação ativa em seções de tortura, como é o caso do Padre Christian Von Wernich. Von Wernich foi capelão da temida bonaerense durante a ditadura, além de ser acusado de participar de cerca de 45 sequestros, três assassinatos e outras tantas apropriações de bebês. Von Wernich foi julgado e condenado à prisão perpétua pela participação ativa em 7 assassinatos e 34 casos de tortura. No marco de seu julgamento, no ano de 2006, desapareceu a principal testemunha de acusação, Julio Lopez. Lopez, que até hoje permanece desaparecido.

 

É desta Igreja que provém Jorge Bergoglio. Uma Igreja que não deixou de contar com vozes dissonantes e resistentes – alguns dos quais inclusive desaparecidos pela ditadura -, mas que em sua cúpula hierárquica sempre se manteve firmemente aliada aos setores mais reacionários da sociedade argentina.

 

Um grupo de militares acusados de crimes contra a humanidade durante a ditadura argentina (1976-1983) apareceu na quinta-feira (14/03) em audiência realizada em um tribunal na cidade de Córdoba, trajando broches do Vaticano no lado esquerdo do terno, em alusão à eleição ocorrida um dia antes do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio para o novo papa da Igreja Católica.

 

Bergoglio e a Ditadura

 

São inúmeras as denúncias de envolvimento de Jorge Bergoglio com a ditadura argentina. Algumas apontam sua conivência, cumplicidade e intimidade com os ditadores enquanto outras o acusam de forma mais direta em ações de terror de Estado.

 

A cumplicidade com a ditadura foi compartilhada por toda a alta hierarquia católica argentina (o que naturalmente não exime a responsabilidade individual de cada bispo) e, portanto, não é de estranhar que Bergoglio apareça sorridente e muito confortável ao lado de ditadores, em especial daquele que melhor simboliza o terror de Estado – o General Jorge Rafael Videla – e que tenha atuado sistematicamente contra os movimentos católicos renovadores de base popular.

 

Mais impactantes são as denúncias fartamente documentadas da cumplicidade de Bergoglio com a prisão e tortura de padres pertencentes a sua própria Ordem, Francisco Jalic e Orlando Yorio. Ambos integravam um movimento de renovação no interior da Ordem dos Jesuítas e da Igreja, desenvolvendo trabalhos de alfabetização e assistência na periferia de Buenos Aires, sob influência da Teologia da Libertação, e foram sequestrados em maio de 1976, permanecendo detidos e torturados na famigerada Escola Superior da Marinha (ESMA) até outubro daquele ano, quando foram drogados e deixados em um terreno baldio. No mesmo operativo, foram sequestradas quatro catequistas e os maridos de duas delas, os quais permanecem desaparecidos.

 

As denúncias de cumplicidade de Bergoglio são sustentadas por diversos religiosos (2). Ainda em março de 1976, Bergoglio acusou a ambos de desenvolverem atividades dissolventes e de conflito de obediência (por recusarem-se a interromper o trabalho desenvolvido na periferia de Buenos Aires), decretando sua expulsão da Ordem dos Jesuítas. Dois meses depois do golpe, o Bispo de Morón, Miguel Raspatini, pediu a transferência de Jalic e Yorio para aquela Diocese, preocupado com o perigo que corriam em Buenos Aires, mas a transferência foi proibida por Bergoglio, e poucos dias depois, a 23 de maio, foram ambos sequestrados pela ditadura. Como acusou Yorio, Bergoglio submeteu a ambos “à proibição e à infâmia pública de não poder exercer o sacerdócio, dando assim ocasião e justificação para que as forças repressivas fizessem com que desaparecêssemos. (...)

 

Os documentos que incriminam Bergoglio foram revelados por Horácio Verbitsky, um dos principais jornalistas argentinos e autor de inúmeros livros sobre a ditadura daquele país (3). Graciela Yorio, irmã de Orlando (falecido em 2000), sustentou acusação formal contra Bergoglio, que culminou em sua intimação para depoimento em 2011, e frente a sua nomeação como papa, reafirma as denúncias: “Bergoglio os desprotegeu. Como meu irmão e Francisco não seguiram os conselhos de deixar de viver numa favela, foram expulsos da congregação pelas pressões da ditadura, que achava que eram subversivos, e posteriormente presos”. Graciela conta ainda que depois do sequestro de seu irmão procurou Bergoglio e então compreendeu que ele estava envolvido no sequestro: “Ele nos disse que sobre Orlando não se falava mais, dando a entender que ele estava morto. Nossa sensação é de que ele os entregou. Quando meu irmão e Francisco foram soltos, telefonaram para Bergoglio e ele lhes disse que não podia ajudá-los – afirmou Graciela” (4).

 

Também Lorenzo Riquelme, médico peronista e militante católico sequestrado pela ditadura, acusa Bergoglio de envolvimento na repressão, afirmando que “o grupo que o sequestrou e torturou em 1976 saiu da sede principal da Companhia de Jesus, onde vivia e era responsável o superior provincial Jorge Mario Bergoglio” (5). Sua localização foi extraída de sua noiva em uma sessão de tortura da qual participou ativamente o padre Martín González (6).

 

Por sua vez o sacerdote Mom Debussy, motorista de Bergoglio à época, revela que em 1974 Bergoglio, então Reitor Provincial dos jesuítas, obrigara seus subordinados a participar e apoiar um comício de Isabelita Perón e também que lhe confidenciara os planos políticos do Almirante Massera, manifestando sua simpatia (7).

 

Bergoglio é acusado ainda de cumplicidade e envolvimento com o sequestro de bebês, filhos de militantes políticos mortos pela ditadura, tendo sido intimado para depor na causa ESMA a partir de denúncia de Estela de la Cuadra, uma das fundadoras das Abuelas de la Plaza de Mayo, que o acusa de conhecer e omitir o paradeiro de sua sobrinha, roubada de uma delegacia de La Plata (8). Ouvido em Tribunal, Bergoglio sustentou que só teve notícia dos sequestros muitos anos depois. Estela sustenta que sua família procurou Bergoglio após o sequestro de sua irmã Helena (grávida de cinco meses), recebendo como resposta que “a situação era irreversível” e “que Ana, minha sobrinha nascida numa delegacia, estava com uma boa família, que cuidaria muito dela” (9). Ainda segundo de la Cuadra, “muitos dos bebês sequestrados eram distribuídos pelo Movimento de Famílias Cristãs, fortemente vinculado à Igreja” (10).

 

Com a eleição de Bergoglio como papa e o recrudescimento das denúncias contra ele, o Vaticano não tardou a reagir, qualificando-as, em tom típico da Guerra Fria, como obra destrutiva da “esquerda anticlerical” (11). Sem referir-se ao papel da Igreja Católica na sustentação da ditadura argentina, o porta-voz do Vaticano Federico Lombardi afirmou que “jamais houve uma acusação verossímil contra o Papa. A justiça argentina o interrogou, mas como pessoa informada de fatos, e jamais foi acusado de algo. Ele negou de forma documentada as acusações” (12). Em procedimento pouco usual, Lombardi atacou diretamente o jornal argentino Página 12, responsável pela publicação original das reportagens de Horácio Verbitsky, qualificando-o como “uma publicação que lança, às vezes, notícias caluniosas e difamatórias” e concluindo que “o caráter anticlerical desta campanha e de outras acusações contra Bergoglio é notório e evidente” (13). A nota do Vaticano, evidentemente, não traz qualquer elemento que permita refutar as acusações, o que explica seu tom agressivo. Como lembra o jornal Página 12, “na realidade não se trata de uma esquerda anticlerical (...), mas de dois sacerdotes jesuítas que foram sequestrados e torturados durante a ditadura, e já em democracia fizeram estas denúncias, às quais se somaram os familiares de outros laicos, militantes cristãos, que foram sequestrados nesta oportunidade, a maioria dos quais continua desaparecida” (14).

 

O significado da eleição de Bergoglio e as perspectivas de seu papado

 

Logo após a renúncia de Bento XVI, a impressão geral era que a Igreja Católica iniciava um processo de renovação, para recuperar a credibilidade perdida. Para uns poderia ser o início de uma renovação profunda, enquanto outros mais prudentes imaginavam mudanças cosméticas e superficiais. Assim, a muitos pareceu surpreendente a avaliação publicada no jornal espanhol El País, de que a renúncia de Bento XVI seria na realidade um golpe impulsionado pelos setores mais fundamentalistas, ou a extrema-direita católica, em especial o superpoderoso cardeal Angelo Scola (15). Frente ao conhecido conservadorismo de Ratzinger, tal conspiração parecia em um primeiro momento inverossímil, mas uma análise mais cuidadosa da trajetória e das posições políticas de Bergoglio parece indicar o acerto daquela avaliação. Se no campo moral a tendência é continuidade no imobilismo, na intervenção política é provável uma intervenção mais ativa e de conteúdo mais ferrenhamente contrarrevolucionário, muito distinta do conservadorismo passivo de Bento XVI.

 

Em vista disto, só podemos considerar como extremamente ingênuas as expectativas de renovação manifestadas por religiosos oriundos da Teologia da Libertação, como Frei Betto e Leonardo Boff. O primeiro considera que “o fato de ele escolher o nome Francisco é um sinal muito positivo, porque São Francisco foi o reformador da igreja. Acho positivo também para a América Latina, continente com o maior número de católicos. O que importa é que ele seja uma pessoa aberta para as demandas que a igreja exige hoje. A idade não importa. João 23, o papa mais revolucionário dos últimos séculos, também foi eleito com quase 80 anos” (16). Já Leonardo Boff, considera que “o importante é o nome, Francisco, significa um programa de uma igreja simples, pobre, amante da natureza, ligada ao povo, e disso é que estamos precisando hoje” (17). Muito mais realista parece-nos a lembrança de Dom Pedro Casaldáliga, uma voz cada vez mais isolada na hierarquia católica, que lembra que “paira na memória histórica a atitude da hierarquia argentina nos tempos da ditadura militar. Dessa atitude se reclama a omissão e a colaboração com um regime sangrento. Será bom que o papa Francisco aproveite as ocasiões para condenar profeticamente essa e outras ditaduras; até pedindo perdão em nome de toda a Igreja” (18). Nada indica, no entanto, que Bergoglio vá reconhecer o envolvimento da Igreja com a ditadura, e menos ainda que pedirá perdão...

 

Nada de novo na moral católica

 

Não é certamente no campo moral que haverá qualquer movimento de renovação, muito pelo contrário, pois as posições ultra-conservadoras de Bergoglio são sobremaneira conhecidas e apontam para uma rígida defesa de uma moralidade medieval. Sua posição relativa ao matrimônio homossexual e sua visão acerca das mulheres são suficientes para esclarecer a questão. Quanto ao primeiro, declarou, no contexto da discussão de um projeto de regulamentação da união civil entre pessoas do mesmo sexo na Argentina: “Não sejamos ingênuos: não se trata de uma simples luta política; é a pretensão destrutiva ao plano de Deus. Não se trata de um mero projeto legislativo (este é apenas o), mas de uma jogada do Pai da Mentira que pretende confundir e enganar aos filhos de Deus” (19).

 

Suas primeiras manifestações públicas como papa, recolocando a figura do “diabo” no centro do discurso católico, expressam claramente sua perspectiva contrarreformista. Em relação às mulheres, é conhecida sua manifestação pronunciada em 4 de julho de 2007, às vésperas do lançamento público da candidatura presidencial de Cristina Kirchner, quando o então Arcebispo de Buenos Aires declarou: “As mulheres são naturalmente ineptas para exercer cargos políticos. A ordem natural e os fatos nos ensinam que o homem é o ser político por excelência; as Escrituras nos demonstram que a mulher sempre é o apoio do homem pensador e atuante, mas nada mais do que isto. É necessário ter memória: tivemos uma mulher como presidente da nação e todos sabemos o que se passou (referindo-se à Isabelita Perón)”. Esta declaração, no contexto em que foi emitida, remete igualmente a outra questão que transcende a pregação moralista: a intervenção política de Bergoglio, última questão que trataremos aqui.

 

A política do papa Francisco

 

As primeiras ações de Bergoglio como papa pretendem criar a imagem de um papa humilde e apolítico. A humildade do novo papa, na versão laudatória disseminada pela grande mídia, se expressaria na escolha do nome Francisco (omitindo-se a dubiedade da escolha, que poderia remeter igualmente a São Francisco Xavier, fundador da Ordem dos Jesuítas) e aos “hábitos simples” de um papa que costumaria se locomover de metrô – algo que é desmentido categoricamente pelo seu ex-motorista Mom Debussy (20). De muito mais relevância é seu suposto apoliticismo, que é facilmente desmentido mesmo sem que se recorra à sua intervenção na ditadura. Bergoglio sempre assumiu posições políticas muito explícitas, e em particular sob os governos dos Kirchner alinhou-se à oposição de direita, apoiando vigorosamente a paralisação agrário (21), através da qual os latifundiários pretendiam pagar menos impostos, denunciando o suposto caráter “populista” dos governos de Néstor e Cristina Kirchner e suas articulações com o chavismo, grande inimigo a ser combatido.

 

A escolha de um papa latino-americano, ao contrário de sugerir uma abertura e uma renovação da Igreja, parece expressar a perspectiva de intervenção política mais ativa na oposição ao chamado “populismo” que, com todos os seus limites e contradições, coloca em prática políticas heterodoxas e desafia o ordenamento global unipolar. Para o cientista social argentino Julio Gambina, assim como “um papa polaco chegou à Igreja para acompanhar o princípio do fim da experiência socialista”, Bergoglio teria a missão de confrontar o eixo constituído em torno das experiências venezuelana e boliviana, fortalecendo as oposições de direita, tal como sempre fez na Argentina dos Kirchner:


“o rumo unipolar está sendo desafiado pela mudança política em nossa América com o ressurgimento do socialismo, seja da mão da revolução cubana ou pelos processos específicos que emergem em alguns países (Venezuela ou Bolívia), inclusive em vários movimentos políticos, sociais, intelectuais, culturais, em nossa região.


Com a morte de Chávez e milhões mobilizados para constituírem-se em sujeitos pelo cumprimento do legado revolucionário e socialista de Hugo Chávez, a Igreja lança o anel do símbolo de um chefe da Igreja nascido no Sul e compenetrado com o projeto do Norte.


O papa argentino, Francisco, vem cumprir o projeto do poder mundial para disputar o consenso da sociedade, especialmente dos povos. Não se trata somente de sustentar posições contrárias ao matrimônio igualitário, ou contra o aborto, amplamente difundido pelo bispo Bergoglio, mas gerir uma consciência de disciplinamento para a ordem contemporânea, reacionária, de dominação transcendental.


Nossa América é hoje um laboratório de mudanças políticas. A Igreja instituição quer intervir nesse processo não para empurrar essas mudanças, mas para freá-las. A disputa é pelas consciências. É uma batalha de ideias pela mudança ou pelo retrocesso. Preocupam-se com o efeito Chávez na região. Preocupam-se com a sucessão política na Venezuela e a capacidade de estender o rumo socialista. Necessitam disputar o consenso.


Mas, “por mais que as tentativas institucionais para acompanhar a ofensiva do capital contra o trabalho, os trabalhadores e os setores populares, inclusive a igreja dos pobres, o movimento religioso popular, persistem na busca de organizar a sociedade do viver bem (Bolívia), do bem-viver (Equador), do socialismo cubano ou da luta pela emancipação social de grande parte da baixa sociedade em nossa América” (22).

 

Não é necessário concordar integralmente com a avaliação exageradamente otimista de Gambina em relação aos avanços do chavismo e ao seu caráter socialista para compartilhar com sua conclusão de que os setores mais conservadores “preocupam-se com o efeito Chávez na região”. De fato, mesmo para aqueles que sempre estiveram na oposição pela esquerda ao governo Kirchner, não é difícil perceber que a nomeação de Bergoglio tem como finalidade fortalecer a oposição de direita. O PTS argentino avalia que a eleição de Bergoglio significa “o fortalecimento de uma instituição reacionária e um potencial baluarte estratégico para as classes dominantes” e que sua eleição representa na Argentina “um incentivo para a oposição patronal, mais que para o kirchnerismo. Bergoglio sempre foi porta-voz de slogans que coincidiam com os da oposição e tem relações muito próximas com Gabriela Michetti do PRO ou Elisa Carrió. Ainda que tenha tido maior enfrentamento com Néstor Kirchner do que com Cristina (em parte porque apesar de leis como o matrimônio igualitário, CFK segue sendo fiel opositora ao direito ao aborto legal, seguro e gratuito), Bergoglio sempre se situou na oposição política ao kirchnerismo (23).

 

Uma nota final: ao mesmo tempo em que repudiava as denúncias contra Bergoglio como obra da “esquerda anticlerical”, o Vaticano enviava um convite para a cerimônia de coroação do papa Francisco a Carlos Pedro Blaquier, dono do Engenho Ledesma e processado pelo sequestro e desaparecimento de 29 dirigentes sindicais e trabalhadores de sua empresa durante a ditadura (24). Blaquier é provavelmente o empresário cuja colaboração com a repressão é mais conhecida. O processo em que é acusado tramita na justiça argentina e ele é proibido de sair do país. Ainda assim, aproveitando-se do convite, Blaquier pediu autorização urgente ao Juizado Federal de Jujuy (onde corre seu processo). O convite enviado pelo cardeal argentino Marcelo Sánchez Sorondo (embaixador da Academia de Ciências Sociais do Vaticano) é muito revelador do tratamento da Igreja para com os terroristas de Estado da ditadura argentina: “Sei que com todos os compromissos importantes que tens na pátria não te será fácil decidir-te a vir, mas sendo tu um doutor do Laterano, me parece que tua presença em Roma constitui uma obrigação moral ineludível. (...) Além disso, há outro motivo para que participe na cerimônia, representas um dos setores mais pujantes do país, que fez esta revolução agrícola e industrial, modelo internacional e celeiro para o mundo” (25).

 

Sorondo, Bergoglio e a hierarquia católica argentina expressam o rumo tomado pela Igreja Católica. Suas ações e omissões, suas articulações e sua posição política não deixam dúvidas do que se pode esperar do papado que se inicia e desnudam a ingenuidade das esperanças de renovação de alguns, bem como a omissão do passado e das posições políticas de Bergoglio revelam a dimensão da operação midiática voltada à promoção de sua imagem como religioso apolítico e humilde, sobre cujo passado pouco se fala.

Notas:

 

 

(1) Disponível em http://www.publico.es/internacional/452122/bergoglio-oculto-la-complicidad-del-episcopado-argentino-con-la-junta-militar-del-dictador-videla

(2) http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-144092-2010-04-18.html

(3) Ver farta documentação disponível em seu sítio eletrônico http://iglesiaydictadura.wordpress.com/tag/bergoglio/

(4) http://oglobo.globo.com/mundo/irma-de-jesuita-preso-durante-ditadura-contesta-escolha-do-papa-7834066

(5) http://ea.com.py/los-vinculos-del-nuevo-papa-con-la-dictadura-argentina-la-patota-salio-del-colegio-maximo/

(6) Idem.

(7) Idem.

(8) http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/03/novo-papa-sequestro-bebes-ditadura-argentina.html

(9) http://oglobo.globo.com/mundo/irma-de-jesuita-preso-durante-ditadura-contesta-escolha-do-papa-7834066

(10) Idem.

(11) http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-215950-2013-03-16.html

(12) http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21748

(13) Idem.

(14) http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-215951-2013-03-16.html. Deve-se mencionar ainda a manifestação de Adolgo Pérez Esquivel, respeitável militante dos direitos humanos na Argentina, que sustenta que Bergoglio não era cúmplice da ditadura. Sua breve manifestação, no entanto, é extremamente genérica e subjetiva e passa ao largo das denúncias concretas: “Bergoglio é questionado porque se diz que não fez o necessário para tirar da prisão os dois sacerdotes, sendo ele superior da Congregação dos Jesuítas. Mas eu sei pessoalmente que muitos bispos pediam à Junta Militar a liberação de prisioneiros e sacerdotes e não lhes era concedido.”. http://www.cunadelanoticia.com/?p=47844

(15) http://internacional.elpais.com/internacional/2013/02/11/actualidad/1360588257_314838.html

(16) http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1245823-escolha-do-papa-foi-mau-gosto-diz-hector-babenco-leia-o-que-falaram-outros-artistas.shtml

(17) http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1245929-escolha-de-argentino-e-novo-comeco-para-a-igreja-diz-leonardo-boff.shtml

(18) http://quemtemmedodademocracia.com/2013/03/14/casaldaliga-sobre-o-novo-papa-deve-pedir-perdao-em-nome-de-toda-a-igreja/

(19) Idem.

(20) http://ea.com.py/los-vinculos-del-nuevo-papa-con-la-dictadura-argentina-la-patota-salio-del-colegio-maximo/

(21) http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/27808/novo+papa+ajudou+ditadura+argentina+reitera+jornalista.shtml

(22) http://www.brasildefato.com.br/node/12323

(23) http://www.pts.org.ar/spip.php?article22115

(24) Blaquier é acusado de ser o mentor de dois seqüestros. O primeiro em 24 de março de 1976, de três dirigentes do Sindicato dos Operários de Ledesma, dentre os quais o ex-prefeito de Ledesma e assessor do sindicato, e outro ocorrido em julho do mesmo ano, na chamada “Noite do Apagão”, quando foram sequestrados 26 operários, familiares e militantes apoiadores do Sindicato, coordenadamente em três localidades próximas à planta principal do Engenho Ledesma. Os sequestros foram executados usando-se veículos e motoristas do Engenho.

(25) http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-215944-2013-03-16.html

 

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Um grupo militares acusados de crimes contra a humanidade durante a ditadura argentina (1976-1983) apareceu na quinta-feira, 14/03, em audiência realizada em um tribunal na cidade de Córdoba, trajando broches do Vaticano no lado esquerdo do terno, em alusão à eleição ocorrida um dia antes do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio para o novo papa da Igreja Católica.

Vídeo sobre o episódio: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=6_DsNecO3Ds
Fonte: http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-215821-2013-03-15.html

 

 

Gilberto Calil e Marcos Vinícius Ribeiro são historiadores.

Fonte: Blog Convergência.

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Última atualização em Quarta, 27 de Março de 2013
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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