Por falar em fatos

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Tucanos emplumados voltam a tratar do tema da desindustrialização brasileira. Segundo José Serra, tal fato se reflete no encolhimento da participação da indústria de transformação na economia, tendência que remonta à época da superinflação dos anos 1980, mas teria sofrido um puxão para baixo no decênio 2002-2012.

 

Ou seja, ele simplesmente encobre os fatos dos anos 1990. Empurra para baixo da penugem a quebradeira do parque produtivo brasileiro, o sucateamento da infraestrutura, a regressão da exportação de manufaturados e a crise de 1997-99, que só salvou a reeleição de FHC porque o FMI correu em socorro de seus súditos locais. Para escapar da mania doentia de relembrança desses fatos, prefere esgrimir que a produção de manufaturas, em 2012, foi inferior à de 2008.

 

É verdade que o caso do Brasil não pode ser equiparado ao dos países desenvolvidos. Mas não pelo fato de a indústria desses países ter perdido peso em razão da elevada renda média por habitante. Só acredita nessa renda média quem vive nas nuvens. Os pobres, nos Estados Unidos, têm renda média mensal inferior a 3,5 mil dólares, enquanto os mais ricos têm renda média diária superior a 200 mil dólares. Falar em renda média lá é um disparate.

 

O fato é que a desindustrialização daqueles países se deveu à brutal queda de lucratividade de suas indústrias, em virtude do aumento da produtividade. Paradoxalmente, isso levou à exportação de capitais para países de forças de trabalho mais baratas, e à elevação do desemprego e da precarização do trabalho. Hoje, nos Estados Unidos, existe uma população de mais de 50 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza.

 

Portanto, ao contrário do que pensa o demotucano, a partir de determinada etapa da concentração da renda, não do crescimento, a expansão da demanda por serviços só consegue se acelerar em relação aos alimentos e às manufaturas se for turbinada por crédito fácil. E o fato é que tal crédito, mais cedo ou mais tarde, seca e pode levar a sociedade à crise, como ocorreu em 2008 nos Estados Unidos, e está ocorrendo agora na Europa. Convenhamos que considerar natural e até benigna a perda de peso da indústria dos países desenvolvidos significa não estar entendendo nada da doença que corrói aqueles países.

 

Qualquer estudante de economia conhece o fato de a indústria ser o macrossetor que gera, na média, os melhores empregos, paga os melhores salários e cuja produtividade é a mais alta. É o setor econômico que mais inova e tem os maiores efeitos de encadeamento. Seja no investimento produtivo de capital constante, no consumo de matérias primas e manufaturas intermediárias e na circulação de mercadorias. Seja no consumo proporcionado tanto pelas demandas de luxo dos proprietários de meios de produção, quanto pela demanda corrente da massa salarial.

 

Em geral, a indústria também é o setor que proporciona maior arrecadação fiscal e lidera o processo em todas as economias que cresceram mais rapidamente nas últimas décadas. Isso é o beabá da economia.

 

Mas o fato é que o governo tucanopefelista dos anos 1990 pensava o contrário. As empresas estatais, as principais impulsionadoras do desenvolvimento industrial brasileiro, mesmo antes de serem privatizadas, foram obrigadas a procurar no mercado internacional equipamentos pelo menor preço, desencadeando um processo de falências em cascata dos fabricantes nacionais de insumos demandados por aquelas empresas. Basta citar a falência da indústria naval nacional como um dos fatos mais significativos do período.

 

Tal retrocesso industrial não comprometeu apenas a qualidade dos empregos gerados. Jogou milhões de trabalhadores no desemprego e na exclusão social. Comprometeu o estoque de capital e quebrou elos e cadeias produtivas cuja reconstrução é demorada. Transformou o sistema logístico brasileiro num dos mais atrasados e caros do mundo. Estes são fatos fáceis de serem comprovados, embora o demotucanato teime em achar que isso é uma mania doentia.

 

Pior, tenta impingir que no centro do declínio da indústria estaria a perda de competitividade, em razão do aumento do custo Brasil e da sobrevalorização da moeda, que reduzem o preço relativo das importações e encarecem as exportações. Fatores com os quais os tucanos e pefelistas nada teriam a ver.

 

Esse demotucanato estaria em Marte, Venus ou Saturno, quando se criou o círculo vicioso de quebras de cadeias produtivas e atrofias e perdas de mercados externos? E quando os novos investimentos foram intimidados pela competição dos importados, pela olipolização da economia brasileira por um grupo de multinacionais e pelos juros reais extravagantes. Aliás, o governo demotucano tinha pavor ao termo crescimento. Bastava falar nisso que os juros eram elevados para evitar o que considerava uma doença incurável.

 

Aliás, não é um fato comprovado que os juros indecentes da era demotucana só conseguiram recuar em 2012. Quando Lula foi eleito, os juros se encontravam em 19%. Mesmo contra a vontade dos financistas tucanos e dos rentistas, eles foram sendo progressivamente rebaixados. O que marca o ano 2012, já no governo Dilma, é o fato de os juros começarem a se aproximar de níveis que permitem um crescimento mais acelerado.

 

Mas é uma herança demotucana o fato de os empresários industriais haverem se tornado não só importadores qualificados e investidores no exterior, aproveitando-se de custos menores de logística, mas principalmente rentistas, favorecidos pelos altos juros e pela falta de controle nos investimentos em papéis de curto prazo então praticados. Esses empresários continuam preferindo investir no cassino financeiro do que na indústria, independentemente dos subsídios fiscais via BNDES.

 

Também é herança demotucana a total subordinação do comércio exterior brasileiro aos mercados norte-americano e europeu. Se, desde o governo Lula, não houvesse ocorrido um esforço consistente para diversificar as parcerias comerciais com todos os países do mundo, e uma política de integração sul-americana, reforçando o Mercosul e outras instituições multilaterais, hoje estaríamos afundados na crise das grandes potências, e nossa balança comercial não seria superavitária. Por isso, não passa de fato irrelevante a ausência de acordos bilaterais de comércio.

 

De qualquer modo, é um fato a persistência dos fatores que conduziram à desindustrialização demotucana. E é um fato que tal persistência está se tornando um estorvo ao desenvolvimento do país e um problema político. Nessas condições, talvez tenha chegado a hora de adotar medidas drásticas, no rumo da sugestão da presidenta Dilma, diante da incompreensível demora na execução dos investimentos para reconstruir as áreas que sofreram desastres ambientais e proteger as populações em situação de risco.

 

O empresariado brasileiro, assim como o demotucanato, está precisando de um choque político que demonstre a decisão do governo em reverter a desindustrialização e outras destruições herdadas do período neoliberal. Choque que se torne um fato inquestionável, mesmo pelos que costumam encobrir o passado e desvirtuar fatos do presente.

 

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Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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