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“Atravessar o Rubicão” Imprimir E-mail
Escrito por Gilvan Rocha   
Sexta, 15 de Março de 2013
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Atribui-se a Julio Cesar o fato de que ele, no comando de suas tropas, chegou à beira do rio Rubicão e pôs-se em dúvida se deveria ou não atravessá-lo para enfrentar as tropas de Roma. Depois de alguns momentos de vacilação, Julio Cesar resolveu proceder à travessia, pronunciando antes a célebre frase “Alea jacta est”, “a sorte está lançada”, pois tinha em conta que tal decisão não podia ser revogada.

 

É justamente esse desafio que se coloca e se colocou para uma fração de intelectuais como Michael Löwy, Isaac Deutscher, Pierre Broué, Daniel Bensaïd e uns poucos outros. Eles até chegam à beira do Rubicão, entretanto, são tomados de súbito medo em atravessá-lo, em romper particularmente com as postulações trotskistas e assumir que foi no X Congresso do Partido Comunista russo onde se deram as bases teóricas para que sobre elas fosse erigido o stalinismo, a partir das resoluções tomadas naquele conclave, resoluções patrocinadas pelos grandes líderes da Revolução Russa, Leon Trotsky e Vladimir Lênin.

 

Esses intelectuais não têm, ou não tiveram, a coragem de dizer que o rei está nu. Mas de onde vem tamanho medo de transpor o Rubicão? Esses senhores desfrutam de uma legião de seguidores que, beatamente, seguem as equivocadas análises sobre a Revolução Russa, seja ela a do stalinismo ortodoxo, seja ela respaldada na obra de Leon Trotsky. Assim sendo, têm eles o medo de perder o status de intelectuais festejados e até bem aceitos por algumas instituições burguesas como são as academias, em regra geral.

 

Esse fato, essa covardia intelectual, política, e às vezes, moral, redunda em severos prejuízos para a causa socialista, uma vez que são eles referências acalentadas até por setores da esquerda que se julgam mais avançados. É patente e lamentável o fato de, a rigor, inexistirem pessoas com cabedal intelectual, capazes de assumir a tarefa de colocar de lado a abordagem que tem sido feita da Revolução Russa, tanto como já dissemos, pelo stalinismo ortodoxo, que se prende a louvações infundadas ou à versão idealista do trotskismo, que se negou e se nega a romper com as resoluções do X Congresso do Partido Comunista russo.

 

É claro que devemos render homenagens aos esforços feitos por intelectuais da estirpe de Isaac Deutscher, em lançar luz sobre o episódio da Revolução Russa, mas não devemos deixar de entender os profundos limites de suas obras. Primeiro, ele circula em torno de uma admiração enorme pela figura de Leon Trotsky e isso o impede de enxergar o caráter idealista de suas análises e de seus posicionamentos em relação ao processo dado na URSS. Deutscher não enxergou que o segundo Trotsky renegou o primeiro Trotsky, de antes de 1917.

 

Sentimos também em Daniel Bensaïd a sua chegada às margens do Rubicão, ao ponto de lhe molhar os pés, ao lado da falta de clareza e a coragem de pronunciar a velha frase atribuída a Julio Cesar: “a sorte está lançada”, e assim ter promovido a travessia.

 

Não sabemos se por livre escolha, mas a verdade é que esses senhores preferiram manter a condição de intelectuais festejados, preservando os dogmas do stalinismo-trotskismo, e isso é muito penoso, desde que pagamos e continuamos a pagar um alto tributo social como decorrência da acachapante vitória da contrarrevolução que teve o dom de transformar gigantes em pigmeus.

 

Gilvan Rocha é presidente do Centro de Atividades e Estudos Políticos – CAEP.

 

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