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O que vi e senti na Venezuela Imprimir E-mail
Escrito por Jônatas Campos   
Sexta, 15 de Março de 2013
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Foto: Jônatas Campos


Em 7 de outubro de 2012 eu estava no Centro Cultural Chacao, no município de mesmo nome que compõe a região de Caracas, capital da Venezuela, esperando o pronunciamento do candidato derrotado à presidência, Henrique Capriles Radonski. Ele reconheceu a derrota e agradeceu sua expressiva votação. Eu era correspondente do sítio de notícias internacionais Opera Mundi, fazia quatro meses que estava morando no país. Marina Terra, minha editora e naquele momento também repórter, ficou acompanhando a festa chavista do outro lado da cidade, em frente ao Palácio Miraflores, residência oficial dos presidentes venezuelanos.

 

O dia para mim tinha sido razoavelmente tranquilo, visto que estava cobrindo as mobilizações da oposição e, estas, consequentemente, eram nos bairros mais nobres e tranquilos. Marina se imprensava entre a multidão chavista no bairro popular 23 de janeiro, conhecido por ser um reduto de movimentos sociais mesmo antes da primeira eleição de Chávez, em 1998. Nós dois estávamos felizes porque tínhamos conseguido fazer um resumido panorama da sociedade venezuelana naquele dia. Uma sociedade dividida, com os mais abastados majoritariamente eleitores da oposição e a imensa classe média baixa e classes populares, que representam 80% dos venezuelanos, fiéis seguidores do atual presidente. Apesar dessa divisão, um dia em que as eleições ficariam para a história do país como uma das mais tranquilas que já havia ocorrido.

 

Tarefa cumprida, bastou-me escrever mais algumas matérias repercutindo o pós-eleições: o telefonema de Chávez para Capriles, coisa impensável no período eleitoral; a chapa dos candidatos a governadores; as análises e perspectivas de mais seis anos com Chávez conduzindo a Venezuela. Preparava-me para fazer uma peregrinação de ônibus pelo interior do país, conhecendo suas entranhas, para depois voltar ao Brasil. Peguei-me pensando em tudo que vive naquele país caribenho, cujo nome para mim era lembrado apenas nos livros de geografia antes da chegada do tenente-coronel ao poder. Lembrei-me dos amigos que fiz, dos primeiros contatos com a gente do governo e da oposição, das intermináveis coletivas com Chávez, as grandes manifestações de rua que ambos os lados políticos conseguiam mobilizar, da gasolina quase de graça, dos micro-ônibus pintados com cores escandalosas, dos táxis velhos, das deliciosas arepas e cachapas, das coisas que ouvia no Brasil sobre a Venezuela e de como de imediato fui confrontá-las com o dia-a-dia do país.

 

Liberdade de imprensa

 

Em 2007 o governo Chávez decidiu não renovar a concessão de funcionamento do Canal de TV mais antigo e tradicional da Venezuela, a Rádio Caracas de Televisão (RCTV). Esse episódio, criticado até por intelectuais e figuras públicas simpáticas ao governo Chávez, levantou fortemente o debate sobre a liberdade de imprensa no país, baixo comando chavista. O governo alegou que teria a prerrogativa de renovar ou não a concessão, ademais, a RCTV foi um dos canais de televisão que lideraram o golpe de Estado contra Chávez em 2002, tentativa frustrada que marcou a sociedade venezuelana e que deu ao presidente um enorme poder político e simbólico no país e em todo o mundo.

 

Em busca de saber se a imprensa era livre no país, dirigi-me a uma banca repleta de jornais das mais variadas matizes. Percebi que na Venezuela a imprensa tomava lado. Na banca, se compra um jornal da mesma maneira que se escolhe a camisa de um time de futebol: o Correio do Orinoco e o Cidade Caracas, chavistas. O Tal Qual, o Nacional, o Universal e outros, oposicionistas. Um tablóide chamado Últimas Notícias era tido como neutro e coincidentemente o mais vendido no país.

 

Nas redes de televisões nacionais, a Globovisión fazia oposição declarada à Chávez, até com vinhetas na programação fazendo chacota com os discursos do presidente. Já a Venezuelana de Televisão (VTV), estatal, exaltava os logros do governo em cada minuto de sua programação.


Percebi que o que se fala no Brasil sobre a liberdade de imprensa na Venezuela tem uma mistura interessante de oposição ideológica ao chavismo e falta de compreensão para ver o venezuelano da maneira que ele é, não da maneira que nós brasileiros somos. Para o venezuelano, era comum a TV estatal transmitir ao vivo todas as coletivas de imprensa de Chávez, assim como também era corriqueiro a Globovisión transmitir as coletivas do candidato opositor Henrique Capriles.

 

Em uma entrevista que fiz com o então ministro das Comunicações Andrés Izarra, perguntei se no país havia liberdade de imprensa. Ele respondeu que lá existia “libertinagem de imprensa”, pois os jornais podiam dizer o que quisessem do governo Chávez, até “inventar mentiras”, que sua liberdade estava garantida. Por incrível que pareça, em contradição ao que se escuta no Brasil, também questionei um dos líderes da oposição, Carlos Vecchio, com a mesma pergunta, tendo resposta positiva, apesar de, em suas palavras, o governo fazer mau uso dos canais estatais e das cadeias de rádio e TV.

 

Coletivas com Chávez

 

Creio que o fato de Chávez ter se utilizado de uma constante retórica antiimperialista, das alusões à liderança de Fidel Castro em Cuba, de sua íntima aproximação com as forças armadas no país e dos inúmeros fatos pitorescos de sua personalidade, fizeram com que a cobertura de nossa imprensa não se aprofundasse em outros aspectos daquele país, tornando o próprio Chávez, o que ele fez e disse, o centro de todas as atenções. Mas uma coisa realmente acontece: a presença de Chávez em todos os assuntos da sociedade o fazia herói e vilão em qualquer tema em voga.

 

As coletivas de imprensa com Chávez não duravam menos de seis horas. Contando-se a antecedência com que se era necessário chegar, a espera para iniciar as perguntas, as longas respostas, tomava-se quase todo um dia em uma reunião do presidente com a imprensa. Entre jornalistas, costumava ficar à vontade, perguntava-nos o nome, de onde vinha, para qual meio trabalhava, se estava morando na Venezuela. Quando não gostava da pergunta, fazia um preâmbulo de como aquele meio lhe fazia oposição, para depois ir ao assunto. Sempre com muito bom humor.

 

O fato é que, alongando-se ou não, tergiversando ou não, Chávez tinha um fino domínio da palavra, recorria constantemente a fatos históricos do seu país e parecia responder mais ao seu público, que assistia às coletivas pela TV estatal, que aos próprios jornalistas. Era evidente seu poder de persuasão e como mantinha uma linha de pensamento coerente, a despeito de desviar-se do tema principal da pergunta por meia hora para contar uma anedota, e depois voltar de onde tinha parado.

 

Uma coisa é preciso reconhecer: apesar de certa dificuldade de chegar ao presidente, este não fugia do contato direto com jornalistas, assim como mantinha uma constante agenda de entrevistas coletivas.

 

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Foto: Jônatas Campos/divulgação

 

Chavistas e oposicionistas

 

Dentre as dezenas de recomendações absurdas que recebi no Brasil sobre a Venezuela, uma dizia que eu “não deveria falar de política com as pessoas na rua”, se não quisesse arrumar inimizades ou até uma peleja. Não foi bem assim. Fiz o contrário e escutei desde acusações estapafúrdias contra o governo, até ingenuidades dos bolivarianos mais apaixonados pelo seu líder. Também conheci uma juventude que cresceu na era Chávez, afinal de contas, foram 14 anos com o mesmo presidente. Percebi uma geração cansada de tanto radicalismo, mais interessada em respostas complexas e objetivas para os problemas do dia-a-dia, tanto do chavismo quanto da oposição.

 

É fato que a população venezuelana aparentemente é bastante politizada e que há, sim, uma divisão de classes nas preferências políticas. Dentre a classe com alto poder aquisitivo, que não ultrapassa 4% dos venezuelanos e a pequena classe média-alta, outros 10%, o anti-chavismo se faz presente. Em contraponto, a hoje imensa classe média-baixa, que ascendeu ao consumo por conta das políticas assistenciais do governo de Chávez, e os ainda considerados pobres, em mais de 70% apoiam o presidente. O sistema eleitoral é quase um consenso entre os venezuelanos, apesar de que setores da oposição levantem teses como de que os votos poderiam ser enviados indevidamente para as urnas através de “cabos submarinhos vindos de Cuba”. As prévias dos partidos de oposição que escolheram Henrique Capriles como candidato contra Chávez foram realizadas nacionalmente com as máquinas biométricas do Conselho Nacional Eleitoral. Elogiado pelo renomado Centro Carter, comandado pelo ex-presidente dos EUA Jimmy Carter, o sistema eleitoral venezuelano garante ser blindado contra fraudes e erros.

 

Nas eleições de 2012 passou por duas simulações nacionais, 16 auditorias e foi observado por 245 acompanhantes internacionais. Apesar disso, não era incomum em jornais de outros países acusações de “possíveis” manipulações dos resultados.

 

Chávez é fruto da Venezuela, ponto

 

Percebi que Chávez despertava paixões. Tinha o apoio declarado de atores hollywoodianos como Sean Penn e Danny Glover, ou da modelo internacional Naomi Campbell, ou até dos diretores de cinema Oliver Stone e Michel Moore. Também gerava ódio, ao ponto de o pastor norte-americano Pat Robertson pedir que o governo dos EUA o matassem em um programa de TV em 2005.

 

Sempre me fiz essa pergunta: o que faria com seus inimigos um “general-caudilho-porralouca-ditador” (como muitas vezes Chávez é chamado nas colunas de opinião) que foi derrubado da presidência por um golpe de Estado, mas que depois de 48 horas conseguiu retomar o poder com o apoio de imensas manifestações populares e de setores baixos do exército? Perseguiria seus inimigos? Mandá-los-ia para o “paredón” ou para a prisão perpétua? No caso de Chávez, em 2007, ao seu estilo, editou um decreto anistiando todos os personagens que participaram do golpe de Estado de 2002 que lhe tirou do poder por dois dias. Sob este episódio, ouvi de chavistas que houve uma imensa sensação de decepção que gerou até defecções nos partidos governistas. Para os oposicionistas, a liberdade de fazer política, mesmo diante de um presidente fortalecido entre a maioria da população.

 

Gestos como esse, passando por outros como demitir funcionários da PDVSA (Petróleos da Venezuela) pela televisão, ou entrar em cadeia nacional de rádio e TV a qualquer hora, ou dirigir um carro por quilômetros para visitar populações atingidas por um acidente em uma refinaria, fazem parte do arcabouço de histórias que fizeram de Chávez um líder tão fascinante aos olhos dos seus seguidores quanto dos seus detratores.

 

Um presidente fruto de uma Venezuela desigual, que tinha mais de 50% da população abaixo da linha da pobreza e com uma estúpida concentração de renda. Uma Venezuela que por muito tempo viu em suas reservas de petróleo, as maiores do mundo, seu maior tesouro e sua mais triste maldição. Um país que por decisões políticas abandonou a produção agrícola no início do século passado para importar alimentos com o dinheiro fácil que jorrava da terra todos os dias. Que não produzia uma geladeira, um fogão, um trator. Um país que teve em Chávez uma mudança de paradigma na utilização dos recursos públicos em favor da maioria de sua população, que erradicou o analfabetismo, que distribuiu renda, mesmo que ao custo de uma forte política personalista e folclórica.

 

O que Hugo Rafael Chávez Frias deixa para a história é o fato de um país com 30 milhões de habitantes e um território pouco menor que o nordeste brasileiro ter sido centro de diversos embates ideológicos e políticos mundiais. Ter sido laboratório da experiência ideológica chamada de “revolução bolivariana” e de nesses 14 anos de governo ter influenciado a esquerda na América Latina e no mundo. Um Chávez capaz de tecer palavras doces para governos como os de Muamar Kadafi na Líbia, ou de Bashar Al Assar na Síria, enquanto chamava o presidente dos Estados Unidos de “el Diablo”. De estatizar um hotel internacional para abrigar atingidos por enchentes, mas de garantir negócios com as principais companhias petroleiras do mundo. De criticar os EUA, mas de vender dois terços de sua produção de
petróleo diariamente para aquele país.

 

Ser repórter na Venezuela fez ver que nas loas cantadas pelos partidos de esquerda de que ali havia um governo popular, nacionalista, totalmente dedicado aos pobres, se esquecia de citar também um modelo baseado em um personalismo perigoso, que cobria prédios públicos com banners gigantes com o rosto do seu líder, ou que o tornava onipresente nas constantes cadeias de rádio e televisão. Mas também vi que a Venezuela é um país que se está construindo a partir dos próprios venezuelanos. Que a pobreza diminuiu drasticamente, que o dinheiro do petróleo hoje tem mais destinos do que a corrupção e o desfrute de poucos.

 

Imagino como estão meus amigos chavistas que fiz nesses cinco meses que morei lá. É para eles que me dirijo: sou solidário com sua dor. Acredito que a história da Venezuela continuará sendo escrita por todos que lá vivem, bolivarianos e oposicionistas, respeitado sua Constituição e a vontade da maioria. Que guardem luto e que se levantem mais fortes todos os venezuelanos.

 

Jônatas Campos é jornalista pernambucano e correspondente internacional em Caracas entre os meses de junho e outubro de 2012.

Retirado do Blog de Jamildo.

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Última atualização em Quarta, 27 de Março de 2013
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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