A sucessão de Bento XVI

 

 

Após quase uma década de pontificado, o papa Bento XVI, sucessor do carismático João Paulo II (1978-2005), anunciou sua renúncia em meio à celebração do carnaval, a mais pagã das festas ocidentais aos olhos da Igreja Católica.

 

A iniciativa de pronto chamou a atenção de todo o mundo, em vista da raridade com a qual ela tem sido executada ao longo da história da instituição – a última havia sido aplicada em 1415 por Gregório XII, com o objetivo de solucionar o cisma por que passava a organização desde 1378.

 

O atual momento é diferente, com dois desdobramentos imediatos para o papado: a perspectiva de ‘aposentar-se’ aproximaria mais o eventual sumo pontífice da aspiração das reformas derivadas do Concílio Vaticano II (1962-65), por meio do qual se extinguiu a vitaliciedade aos bispos.

 

A permanência nas dioceses, a não ser como exceção papal, limita-se aos 75 anos. Com isso, oferta-se aos fiéis a possibilidade de maior renovação na liderança espiritual e, por conseguinte, de melhor adaptação a um determinado contexto.

 

Por outro lado, haveria a probabilidade de o papa ser mais suscetível a variadas pressões, dada a composição delicada de suas extensas responsabilidades: espirituais com ramificações por todo o globo, especialmente na área atlântica, e seculares por causa do Vaticano.

 

Até a escolha do próximo pontífice em março, os meios de comunicação vão alternar-se em examinar os possíveis motivos da desistência de Joseph Ratzinger e em avaliar seus prováveis substitutos.

 

Nesse sentido, a comunidade católica da América Latina, por representar mais de 2/5 do total dos fiéis, desenvolve a expectativa de que a região finalmente poderia proporcionar um titular para a Igreja.

 

Da Argentina ao Canadá, todos aguardam com intensa expectativa.  O Brasil, a datar do falecimento de Paulo VI em 1978, tem contado com vários papáveis: o de maior relevo foi Aloisio Lorscheider, então à frente do arcebispado de Fortaleza.

 

Nos dias de hoje, aponta-se a possibilidade de indicação de ao menos dois: Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, sucessor de Cláudio Hummes (1998-2006) - ele mesmo cotado no conclave de 2005 -; e João Braz de Aviz, ex-arcebispo de Brasília (2004-2011) e responsável pela Congregação dos Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica.

 

Entre os membros do colégio cardinalício, há quase 120 aptos, dos quais cinco são brasileiros, a participar do próximo processo sucessório, em vista da limitação da idade de 80 anos.

 

Bastante prudentes, muitos mencionam que a origem geográfica ou cultural de cada um deles pesaria menos que a capacidade e carisma pessoais, embora os italianos estejam sempre entre os favoritos.

 

Ainda que seja de modo inconsciente, há restrições à escolha como, por exemplo, de um sumo pontífice de nacionalidade norte-americana, em face do peso político dos Estados Unidos e do largo apoio financeiro concedido à Santa Sé por fiéis de lá; ou chinesa, em função da ausência de relacionamento diplomático formal, desde o início da década de 50, com o maior país oficialmente comunista do planeta.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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