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Uma causa política da renúncia de Bento XVI Imprimir E-mail
Escrito por Rinaldo Martins de Oliveira   
Qui, 21 de Fevereiro de 2013
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Para quem não conhece o homem que, no dia 28 de fevereiro de 2013, deixará a mitra e o cetro pontifício, certamente se convencerá facilmente da versão divulgada pelos intelectuais vinculados à Igreja (inclusive, ícones da Teologia da Libertação, como Leonardo Boff, Frei Betto, Maria Clara Bingemer) de que sua recente renúncia representa um nobre gesto de humildade e de desapego do poder mundano, ainda que se tratando de uma instituição religiosa.

 

Contudo, quem acompanha a história e atuação dentro da Igreja, nos últimos 50 anos, desse clérigo, e resiste à perigosa cooptação ao senso comum que hoje abate grande parte das organizações sociais e suas lideranças, sabe o quão inconsistente é tal declaração sobre Bento XVI ou, se preferir, Cardeal Joseph Ratzinger. Formalizando em carta, este justifica o abandono do cargo máximo católico com a alegação da “incapacidade física e espiritual” para enfrentar à altura “o mundo de hoje sujeito a rápidas transformações e sacudido por questões de grande relevo para a vida da fé”.

 

Ora, talvez mais do que nenhum outro integrante do alto clero, Ratzinger dedicou-se a vida inteira, centralmente, tanto na ação pastoral quanto nos escritos teológicos, ao implacável combate a tudo que no interior da Igreja e no mundo julgou ser risco para a preservação da pureza da fé católica e da firmeza das verdades cristãs. Foi simplesmente inexorável em suas posições, sempre com o argumento da necessidade de manter a fidelidade a Deus e a seus valores.

 

Por isso, pergunta-se: como entender como gesto de grandeza o mesmo discurso que o tornou tão conhecido e temível agora ser utilizado ao reverso - ou seja, a fraqueza diante dos graves problemas do mundo fazer-se, de repente, elemento humano autêntico e legitimador de sua renúncia?

Na verdade, se Ratzinger, na altura de seus quase 86 anos e na condição de titular do pontificado, aceitou amargar o desgaste de uma decisão polêmica e excepcionalíssima na longa história da Igreja (além dele, apenas quatro Papas renunciaram), além de ter aceitado se submeter a tamanha incoerência em relação à rígida postura de toda uma vida dedicada ao enfrentamento dos ‘pecados do mundo’, é porque realmente há um motivo mais profundo e mais complexo nessa renúncia que está sendo omitido. Sabe-se bastante comum o apelo às razões de foro íntimo para tal fim.

Obviamente, apesar das tentativas feitas pela mídia, será inútil especular acerca das disputas internas no Vaticano que ensejaram a renúncia e que, agora, são também movidas por ela. Até mesmo porque tal briga de bastidores no meio eclesial – convenhamos - não representa assunto que, de fato, interesse a grande maioria das pessoas.

 

Não obstante, necessária se faz a reflexão dos fatores políticos por trás dessa renúncia, pois podem ajudar a elucidar importantes pontos obscuros no atual sistema do macropoder, no qual a Igreja também está inserida e sobre o qual ainda exerce considerável influência. Para isso, a seguir, pretendo avaliar, de forma muito breve e pontual, qual, ao meu juízo, tem sido a função política dessa instituição na atual conjuntura mundial, dentro dessa grande engrenagem construída e comandada pelos grandes grupos econômicos dominantes.

 

*

 

Para os donos do poder, em que pesem as frequentes bolhas estouradas produzindo crises financeiras e alaridos sociais pontuais, o mundo – paradoxalmente - nunca esteve tão calmo, sob o ponto de vista dos riscos para a hegemonia do capital.

 

Com a queda do socialismo real no final da década de 80 e início de 90 e a seguida unificação da Europa sob a égide dos países capitalistas centrais; com o progressivo avanço da “ocidentalização” nos diversos países do Oriente Médio; com o enquadramento econômico da Ásia (incluindo especialmente a China); com a total degradação cultural, econômica e humana amargada pela esmagadora maioria dos povos africanos saídos de um secular processo de brutal colonialismo; e, por fim, com a absoluta cooptação pela burguesia das organizações e movimentos sociopolíticos na América Latina – sobrando, como exceção à regra, Cuba e as FARCs, que também já se encontram em fase de refluxo –, o capital reina absoluto em dimensões globalizadas.

 

Nesse mar de relativa tranquilidade, não havendo mais ameaças relevantes de curto ou médio prazo à sua absoluta hegemonia, foi escolhido para o trono papal o todo-poderoso Joseph Ratzinger. Esse, notoriamente, foi o maior artífice da política, aplicada com mão de ferro, no interior de toda a Igreja, incluindo suas ramificações regionais, que conseguiu diluir “todo o mal” que o Concílio Vaticano II pudesse ter ensejado, caso suas resoluções – ao menos algumas delas - fossem efetivamente adotadas pelo sacerdócio em suas bases.

 

Sim, minha tese é que, em 2005, quando Ratzinger assume o papado, a Igreja já está totalmente “saneada”, não oferecendo mais nenhum perigo à ideologia dominante. Com parte do setor progressista, especialmente na América Latina e Central, relegada ao absoluto ostracismo e outra parte cooptada pelo canto da sereia do poder político-institucional, não há justificativa para a escolha tão evidente do próprio “dono da casa”, a não ser para enaltecer-lhe a vaidade pessoal, visando, naturalmente, outros fins futuros ora cobrados.

 

Ocorre que, do mesmo jeito que o cargo foi encomendado a Ratzinger, agora está sendo retirado dele, porque a festa acabou e é preciso continuar o aprofundamento do processo de controle das massas, devendo a Igreja ocupar novas funções que, naturalmente, exigem novos posicionamentos. Para isso, nada melhor do que a renúncia de um papa com uma postura historicamente ultraconservadora, indisposto a reconhecer caráter positivo em qualquer dos conceitos de Liberdade Humana levantados pela modernidade, alocando-os todos no rol dos males detestáveis a serem combatidos e extirpados pelo cristianismo católico.

 

Essa recente renúncia ajudará enormemente na legitimidade do avanço, fora e também dentro da Igreja, do paradigma cultural do chamado hiperindividualismo, instalado e que domina o mundo globalizado, pelo menos, desde a década de 80. Centrado justamente – este sim - em um falso conceito de liberdade, que atribui valoração ao indivíduo isolado da comunidade humana ou, ultimamente, ao que possa até pertencer a um dado agrupamento social, mas que compactue do mesmo isolamento do todo coletivo.

 

Vale um rápido comentário sobre essa questão. O hiperindividualismo, como dito, é a elevação do individualismo consumista, massificado pelo sistema capitalista, ao patamar de paradigma cultural imposto às grandes massas humanas. Já não representa mais apenas um comportamento dos indivíduos diante da sociedade de consumo a que estão inseridos. Representa uma verdadeira identificação existencial com o consumismo nessa mesma sociedade, a partir da qual todo um conjunto de valores próprios, exclusivos e personalíssimos a cada indivíduo e a seus respectivos grupos vêm a ser constante e avidamente formulados e fortemente pleiteados junto à sociedade e ao Estado. O objetivo é garantir formalmente a concretização dessas ditas ‘demandas de liberdade’.

 

Na medida em que fora alijado da Igreja, pelo seu setor majoritário conservador, o profundo conceito de Liberdade Humana - defendido no Concílio Vaticano II e assumido por algumas Conferências Episcopais posteriormente, centrado não no valor privado do indivíduo, mas focado nas vocações e virtudes humanas exercidas coletivamente (ainda que de forma plural) -, essa instituição eclesial acabou cavando o próprio fosso, não sendo capaz de lidar agora com esse novo desafio.

 

Ou seja, encontra-se na chamada “sinuca de bico”: ou mantém-se na posição prática de condenar toda e qualquer mudança de valores oriundos da modernidade como essencialmente contrários aos valores cristãos; ou aceita, ainda que devagar, ceder às pressões vindas de todos os lados – inclusive do lado de dentro –, que impõem novos valores, porém motivados por um pobre, contraditório e artificial conceito de liberdade, muito conveniente principalmente para a perpetuação da ideologia opressora dominante que reduz o ser humano a um mero objeto do lucro.

 

Em ambas as situações, a Igreja sairá perdendo: assumindo a primeira, continuará se isolando do próprio mundo, ensejando, de concreto, apenas a intensificação da já elevada evasão dos seus fiéis – sobretudo dos segmentos mais jovens – às igrejas evangélicas pentecostais. Igrejas estas que, em sua ampla maioria, oferecem a realização de diversas demandas espirituais de cunho extremamente personalizado, que o catolicismo tradicional ainda encara como pecado.

 

Assumindo a segunda opção – a mais provável que venha começar a acontecer mais fortemente, sobretudo agora com a renúncia de Bento XVI -, a Igreja se inserirá, cada vez mais, na onda do liberalismo cultural que contagiou os povos do mundo capitalista, a fim de tentar resgatar o seu histórico poderio religioso junto às massas. Com isso, mesmo que podendo conter o fluxo de evasões e conseguir uma eventual retomada de alguns setores ao seu seio, intensificará ainda mais o ateísmo filosófico e militante, ao deixar-se cair em profunda contradição com os próprios valores éticos e humanos (que não se confundem com valores morais) que, pelo menos em teoria, sempre defendeu em sua doutrina com base nas verdades cristãs reveladas nos Evangelhos.

 

A milenar Igreja Católica, a meu ver, volta a encontrar-se em trevas. Mas não em decorrência do que alegam os seus setores conservadores – de que ela estaria sucumbindo ao reinado do anticristo (em outras palavras, a modernidade). Nem em decorrência do que alegam os setores religiosos (ou não) envoltos na nova ordem cultural mundial – de que ela está se diluindo justamente por não ser capaz de aceitar esse novo paradigma que,  acredita-se, resgata a liberdade humana sequestrada há tanto tempo.

 

As trevas em que se encontra atualmente a Igreja estão justamente no impasse a que se submeteu diante dessas duas forças opostas, que, na realidade, representam duas faces da mesma moeda. Tudo porque abriu mão de defender o profundo legado humanista inserido nos próprios Evangelhos.

 

Mas essa não é a primeira vez e nem será a última em que a Igreja Católica – ao visar mais servir aos interesses dos homens do que à vontade de Deus – se desvia do Jesus Cristo dos Evangelhos.

 

Não obstante, é também sabido que o Espírito age, anunciando e implementando a sua mensagem transformadora e revolucionária, justamente nesses maiores momentos de crise.

 

Rinaldo Martins de Oliveira, sociólogo, é militante sindical e católico.

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Última atualização em Sexta, 22 de Fevereiro de 2013
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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