Estados Unidos: duas vãs aspirações dos democratas

 

 

No final de agosto de 2010, o presidente Barack Obama declarou o fim das operações estritamente militares no Iraque. A partir daquele momento, as forças armadas norte-americanas intensificariam o treinamento dos efetivos locais até 31 de dezembro de 2011, paralelamente ao retorno progressivo dos seus próprios combatentes.

 

A datar de janeiro de 2012, restariam os civis de diversos ministérios e agências por estar o conflito encerrado. As inúmeras bases seriam fechadas ou entregues a comandos de lá. Nem sequer os seguranças privados (contractors) deveriam permanecer.

 

A despeito dos extenuantes esforços - mais de um milhão de cidadãos haviam servido no confronto -, o resultado da Operação Iraque Livre foi infrutífero. Não havia mais apoio sequer para a continuidade das tropas entre os grupos iraquianos vinculados à Casa Branca, ainda que nem eles mesmos soubessem como equilibrar a variada gama de facções na política de lá.

 

Aparentava o discurso presidencial recuperar um dos mais diferenciados posicionamentos de campanha entre democratas e republicanos em 2008, embora isso não tivesse atraído muita atenção de boa parte dos eleitores.

 

A justificativa da retirada parcial daquele território havia sido a necessidade de concentrar-se no Afeganistão, local em que a insurgência, notadamente a extremista, não arrefecia, e no próprio país, com o objetivo de recuperar a economia, abalada havia quase dois anos.

 

Portanto, a mensagem endereçada ao eleitorado era a de buscar mais a paz, via contenção do integrismo antiamericano, e a prosperidade, através da adoção de medidas temporárias de estímulo do crescimento.

 

Além do mais, a motivação inicial para a presença naquela parte do Oriente Médio fora também eliminada havia anos: a derrubada da longeva ditadura de Saddam Hussein. Logo após sua queda, as tropas passaram a enfrentar uma oposição em que se congraçavam diferentes tipos de resistência, como a nacionalista e a extremista.

 

Em seu enunciado de agosto, Obama teve a oportunidade de denunciar esta incorreta medida herdada na política externa: a segunda guerra no Golfo havia sido um desastre por ter desencadeado de maneira desnecessária dezenas de milhares de mortos e de feridos e por ter originado um desgaste aos Estados Unidos sem precedentes desde o conflito no Vietnã nos anos 70.

 

Todavia, ele eximiu-se de apontar politicamente os responsáveis, especialmente os formuladores republicanos de verniz neoconservador. Menosprezou os custos humanos e materiais gerados por aquela longa batalha médio-oriental.

 

Optou por um encaminhamento exageradamente conciliador: com o anúncio do fim da participação estadunidense, aquela confrontação, divisor da elite do país por sete anos e meio, seria uma página virada, a despeito do enorme abatimento provocado por ela.

 

O alvo seria deslocado ao enigmático Afeganistão, em que perdurava peleja de maior duração e de maiores dificuldades. Obama evocou a biliosa Al-Qaida, o que de modo subliminar levava à mente da sociedade o principal inimigo do país: Osama Bin Laden, assassinado por forças especiais quase um ano mais tarde no ambíguo Paquistão.

 

Ao se recordar o histórico discurso, constata-se que 2012 não trouxe  bons resultados aos democratas no final do primeiro mandato, porque a saída dos efetivos do Iraque não significou a estabilidade do país, nem o governo pôde manter o mesmo nível de estímulos à recuperação econômica – o último trimestre do ano passado indicou uma queda de 0,1% do produto interno bruto, a primeira em três anos.

 

De certa maneira, aquela manifestação otimista de Obama terminou por assemelhar-se à de seu predecessor em maio de 2003 no tocante à eficiência da ação castrense. Naquela época, George Bush havia comunicado de um porta-aviões à população estar cumprida a missão em solo iraquiano.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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