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O mito Lincoln e a história universal Imprimir E-mail
Escrito por Cassiano Terra Rodrigues   
Qui, 07 de Fevereiro de 2013
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Em Lincoln (EUA, 2012), Steven Spielberg apresenta mais um capítulo da história do mito Lincoln, sem acrescentar muito ao que já se sabe sobre o homem Abraham Lincoln. Não que o filme seja inverídico. Ao contrário, prima por certa acuidade histórica, caracterizando a personagem de acordo com vários detalhes conhecidos de sua história pessoal: as anedotas que gostava de contar estão no filme, bem como o sonho de estar num navio, à noite, navegando em direção a alguma costa desconhecida; sua vida pessoal amargurada; a retórica precisa e eficiente; seu senso de estadista etc.

 

A atuação memorável de Daniel Day-Lewis ajuda o realismo do filme, embora, quanto a isso, não possamos obviamente saber a que ponto ele se aproxima do original. No entanto, o interesse em perpetuar o mito revela-se já pela escolha do período a ser retratado. A ação do filme restringe-se apenas aos últimos quatro meses de vida de Lincoln, e decorre em duas frentes.

 

Por um lado, o filme mostra as manobras do político Lincoln para fazer aprovar, na House of Representatives dos EUA, a 13ª Emenda Constitucional, aquela que bane a escravidão dos EUA, antes do final da Guerra de Secessão. Nesse plano da ação, vemos como a principal meta de Lincoln não era garantir direitos aos escravos, mas o poder nacional, salvando a “União”. Já no fim do filme, há uma única sequência em que se avista uma crítica a Lincoln. Em 3 de fevereiro de 1865, perto de Hampton, estado da Virgínia, Lincoln encontrou-se com uma delegação representando os Estados Confederados (o Sul, derrotado na Guerra Civil), para negociar o fim da guerra. Esse encontro ficou conhecido como Conferência de Hampton Roads e não teve sucesso. Na sequência do filme, Lincoln ouve de um dos membros da delegação (salvo engano, de Alexander H. Stephens, vice-presidente dos Estados Confederados): “A tua União, presidente Lincoln, foi conseguida com uma violência sem tamanho”. Imediatamente a câmera filma Lincoln em contracampo, por trás dos ombros de Stephens, desqualificar a acusação e fazer um apelo sentimental pelo fim da sangreira. Um ato de confissão que é ao mesmo tempo um ato de consagração do crime cometido em nome de um ideal maior. Concordaria Maquiavel com essa justificativa?

 

Por outro lado, o filme humaniza Lincoln, mostrando as agruras do pai e do marido. Cobrado pelo filho mais velho, culpado pela mulher pela perda de outro filho, vemos um Lincoln atormentado como uma pessoa comum, sem, no entanto, perder a cabeça em momento algum. Nota-se seu ar melancólico e sugere-se sua depressão, mas nada mais. Lincoln sofreu com a morte de dois filhos, Edward, em 1850, e William, em 1862, durante a Guerra Civil. Somente a morte de William aparece no filme com alguma importância. Sua mulher, representada por Sally Field, acusa-o de ser insensível à morte de Willie e exige dele que proíba o filho mais velho, Robert (Joseph Gordon-Levitt), de se alistar.

 

Lincoln rechaça-a, expondo suas emoções em momento raro. Ele o faz, no entanto, sem ceder à emotividade exagerada, dando admirável lição de autocontrole racional. Em outra sequência, Lincoln esbofeteia Robert, para logo em seguida dizer, para si mesmo: “Não posso perdê-lo”. Há, nessas sequências, uma clara representação de Lincoln como um grande líder republicano, à moda dos antigos romanos – é em nome da União, em nome do dever cívico, que ele não se deixa dominar por suas emoções ou interesses pessoais. Fosse Jacques-Louis David vivo e estadunidense, teria pintado quadros de Lincoln como a personificação moderna de um Brutus ou dos Horácios...

 

Temos, então, um retrato perfeito de um grande estadista, um strategos, no sentido da Grécia Antiga, mais que um general, um grande líder político em tempos de guerra. Ele mesmo não se emociona, mas nós nos emocionamos com ele. A música, clichê máximo, a música não é autônoma, tampouco auxilia ou constrói a narrativa, limitando-se a ser ouvida unicamente para emocionar a plateia. Com sua morte, no fim, o filme volta em flashback e, música ao fundo, vemo-lo através da chama de uma vela, que aos poucos se apaga, em Gettysburg, cercado por uma multidão, pronunciando seu discurso mais famoso. Do cadáver ao santo, e do santo ao grande líder. Pieguice ufanista suprema, magistralmente filmada pelo mais piegas diretor de Hollywood.

 

A escolha de mostrar o discurso de Gettysburg somente ao final funciona como uma resposta à pergunta: “quem foi este homem?”. Ora, o que o filme parece dizer é que, quem quer que tenha sido, este homem só poderia ter nascido nesta nação! Muito pouco o filme explora o quanto o próprio Lincoln parecia acreditar em si mesmo como um mito e o quanto ele mesmo trabalhou para ser visto como um mito. Ele se sente confortável como um líder e o filme o mostra muito preocupado em estar próximo do “povo”, ao contrário de Thaddeus Stevens (Tommy Lee Jones), o republicano radical que queria liderar o povo sem dar-lhe ouvidos.

Certa acuidade histórica, dissemos. Não há no filme intenção em mostrar outras ações de Lincoln que poderiam desmistificá-lo, como a defesa da plataforma do recém-fundado partido Republicano em favor dos negócios e do industrialismo do Norte, em detrimento dos interesses agrários e latifundiários do Sul. No entanto, o filme mostra, à sua maneira, como Lincoln agia, na sua prática política, usando a instituição da escravidão como um instrumento para assegurar a União. Ao mesmo tempo em que, com toda sua retórica humanitária, não se referia a ela em termos sócio-políticos, mas em termos morais, apagando do debate público, com isso, as questões mais complicadas relativas aos conflitos de classe implicados pela escravidão. Ele distanciava-se, assim, dos abolicionistas radicais.

 

Segundo o historiador Howard Zinn, Lincoln sabia muito bem como diferenciar em público entre seu “desejo pessoal” de acabar com a escravidão e seu “dever oficial” como presidente. Trabalhando politicamente para postergar a abolição até o ponto de arrasar completamente o Sul, Lincoln conseguiu garantir não só a União, como também o poder político sobre os territórios do Oeste para os Republicanos do Norte. Diz Howard Zinn: “Esse governo nacional nunca aceitaria por um fim à escravidão por meio da rebelião. Ele acabaria com a escravidão somente sob condições controladas pelos brancos, e somente quando exigido pelas necessidades políticas e econômicas da elite empresarial do Norte. Abraham Lincoln foi quem combinou perfeitamente as necessidades dos negócios, a ambição política do partido Republicano e a retórica do humanitarismo” (A People’s History of the United States, p. 187).

 

Sabemos, por Edmund Wilson, que Lincoln via a si próprio como um grande líder e como um mito. Em Sangreira Patriótica, Wilson analisa os escritos de Lincoln (afinal, é um livro acerca da literatura nos EUA à época da Guerra de Secessão) e descreve uma evolução intelectual que o filme não mostra. Na juventude, Lincoln era um cético, quase um ateu, muito mais próximo de um livre-pensador iluminista do que dos protestantes fundamentalistas mais numerosos nos EUA. Sempre foi um determinista, e aquilo que ele chamava de Deus nada mais era do que a História. Com o passar do tempo, Lincoln desenvolveu a ideia de que a Guerra Civil era um apocalipse, uma espécie de Armagedom, do qual a União só poderia sair se liderada por ele mesmo. Como os EUA nasceram para ser a nova Roma, Lincoln via-se a si próprio como um grande líder da história mundial. Diz Wilson: “Desde o início, ele (Lincoln) é ciente de seu papel público, não somente com relação à história de seu país, mas também com relação ao mundo maior, para o qual todos os antigos valores serão modificados, as relações sociais serão alteradas” (Patriotic Gore, p. 127).

 

Podemos ver essa certeza nas palavras do Discurso de Gettysburg que ecoam as palavras da oração fúnebre de Péricles, em memória dos atenienses mortos na Guerra do Peloponeso. No discurso de Gettysburg, Lincoln, assim como Péricles, lembra dos mortos na batalha com “o mais grave sentimento”, usando palavras exatas com um tom de naturalidade indiscutível, conforme o juízo de Edmund Wilson (para ele, Lincoln seria o único dos presidentes estadunidenses com talento para ser um grande escritor). No entanto, assim como na oração fúnebre de Péricles, o mais importante não é lembrar os mortos, mas exortar os vivos a continuarem a batalha, a realizarem a vocação universal de sua nação, pela qual outros lutaram e morreram. Disse Péricles, 430 a.C.: “Assim, estes homens se comportaram de maneira condizente com nossa cidade; quanto aos sobreviventes, embora desejando melhor sorte, deverão decidir-se a enfrentar o inimigo com bravura não menor”.

 

Disse Lincoln, 1863: “Em um sentido mais amplo, não podemos dedicar – não podemos consagrar –, não podemos santificar este solo. Os bravos, vivos e mortos, que aqui lutaram, já o consagraram muito além do que nosso parco poder poderia acrescentar ou retirar. O mundo pouco notará, tampouco lembrará por muito tempo, o que dizemos aqui, mas nunca poderá esquecer o que eles fizeram aqui. Cabe antes a nós, os vivos, dedicarmo-nos aqui à obra inacabada levada adiante por aqueles que aqui lutaram de maneira tão nobre. Cabe antes a nós estarmos aqui dedicados à grande tarefa que permanece à nossa frente – que, desses honrosos mortos, tiremos ainda maior devoção à causa pela qual deram sua última medida de devoção – que aqui decidamos de forma altaneira que esses mortos não morreram em vão – que esta nação, sob Deus, venha a ter um novo nascimento de liberdade – e que o governo do povo, pelo povo, para o povo, não desaparecerá da terra”.

 

Não há como negar a retórica perfeita, a maneira como Lincoln liga-se, pelo discurso, aos “pais fundadores” dos EUA, a forma solene de garantir o efeito emocional desejado, a certeza de sua própria inserção na história mundial, o autoelogio disfarçado próprio dos sofistas (Péricles foi educado pelos sofistas e o discurso de Lincoln é lembrado até hoje, ao contrário dos soldados mortos em Gettysburg). Lincoln pode, dessa forma, assegurar seu papel de salvador da nação em um momento de crise extrema. É a ele que, no filme, as pessoas comuns recorrem, brancos ou negros, ricos ou pobres, quando se sentem perdidas. O filme, dessa forma, reitera a ideologia dominante da história dos EUA. Conforme ainda Zinn, esse tipo de história dos EUA, “centrada sobre os Pais Fundadores e os presidentes, pesa opressivamente sobre a capacidade de agir do cidadão comum” (p. 631). Há mesmo um apelo à história universal no discurso de Gettysburg?

 

Essa maneira como os EUA entendem a própria história é grandiloquente, é autoconfiante – é a visão da história própria a quem ocupa o trono do Império. Liderados por grandes homens, “os anglo-americanos viveram a sua história como uma ação coletiva, da qual se sentem solidários e responsáveis”, diz Octavio Paz. “Ó capitão! Meu capitão!”, cantava Walt Whitman, “Por ti clamam as massas como ondas”.

 

Nós, latino-americanos, diferentemente, entendemos nossa própria história com certa desconfiança e ironia, uma vez que não fomos sujeitos de nossa própria história, mas objetos: “Não, nós não vivemos a nossa história: nós a sofremos como uma catástrofe ou como um castigo” (Octavio Paz, Signos em Rotação, p. 150). Com qual ideologia os negros, os chicanos e os pobres nos EUA hoje mais se identificariam? Vivem ou sofrem a história sob a presidência de Barack Obama? Ou então, voltando a nós, hoje, no Brasil: daqui a alguns anos, com quais olhos seremos capazes de olhar para nossa história? Com olhos de quem viveu ou de quem sofreu?

 

Cordiais saudações.

 

* * *

 

BIBLIOGRAFIA: Os títulos citados neste ensaio estão referenciados a seguir.

 

Octavio PAZ. Signos em Rotação. São Paulo: Editora Perspectiva, 1972.

 

Edmund WILSON. Patriotic Gore – Studies in the Literature of the American Civil War. New York; London: W.W. Norton&Co., 1994. Apenas a introdução deste livro foi traduzida para o português, em um volume organizado por Paulo Francis que está esgotado há mais tempo do que deveria: Onze ensaios: literatura, política, história. Seleção e prefácio de Paulo Francis, tradução de José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.

 

Howard ZINN. A People’s History of the United States – 1492-Present. New York: HarperCollins, 2003. Este livro infelizmente não tem tradução para o português. Mas pode ser lido integralmente, em inglês, no sítio virtual: http://www.historyisaweapon.com/zinnapeopleshistory.html.

 

O discurso de Péricles foi relatado por Tucidídes, em sua História da Guerra do Peloponeso, no livro 2, parágrafo 43, primeira parte. A tradução completa, feita por Mário da Gama Kury, foi publicada pela Editora da Universidade de Brasília e há muito está esgotada. Há tradução do Livro I, por Anna Lia A. de Almeida Prado, publicada pela editora Martins Fontes.

 

O discurso de Gettysburg não tem uma edição definitiva. Só há um único manuscrito autógrafo, mas não se sabe o quanto corresponde ao que de fato Lincoln teria falado, uma vez que, pelos testemunhos, ele não teria lido o discurso. As versões, no entanto, divergem pouco e podem ser encontradas na Internet, tanto em inglês, quanto em português.

 

Cassiano Terra Rodrigues é professor de Filosofia na PUC-SP e acredita em histórias contadas pelo povo, principalmente na do Saci-Pererê.

Contato: cassianoterra(0)uol.com.br

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Última atualização em Sexta, 15 de Fevereiro de 2013
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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