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Por que voltar às bases? Imprimir E-mail
Escrito por Wladimir Pomar   
Quarta, 06 de Fevereiro de 2013
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Segundo alguns socialistas, que se consideram verdadeiramente revolucionários, o movimento cidadão democrático, multifacetado e forte, que impulsionou a democratização e teve no PT a sua expressão política máxima, está na origem da recente melhoria das condições de vida no Brasil. No entanto, ainda segundo eles, esse movimento está se esgotando. Não é mais possível esperar outra coisa da atual coalizão governamental. O PT teria mudado a sua natureza, ao fazer aliança com grandes grupos empresariais, em torno de um projeto de Brasil emergente.

 

O fato político relevante, então, seria o esgotamento da onda democratizante transformadora, impulsionada mais pelas questões sociais do que pelas questões ambientais. Nessas condições, seria imprescindível reinventar ou recriar uma nova onda, o que colocaria a todos diante de hipóteses e apostas políticas para as quais não há certeza da existência de alternativas reais e viáveis. Por isso, perguntam-se: que condições políticas precisam ser criadas para essas novas apostas políticas?

 

A única resposta que conseguem dar a tal pergunta consiste em que o bom da atualidade brasileira é o crescimento da consciência ambiental. Porém, também aí não sabem em que medida tal consciência pode se aliar à questão social, sem a qual não haverá qualquer solução viável. Diante disso, declaram abertamente não ter claro, ao menos no debate político, que ideário mobilizador deveriam apresentar para criar movimentos políticos capazes de realizar mudanças na situação brasileira. E reconhecem, francamente, que estão longe de uma agenda coerente de mudanças viáveis. Têm ideias, mas desarticuladas.

 

Nessas condições, o que restou a nossos socialistas revolucionários foi voltar às bases, pelo menos em teoria. Isto é, fazer o que se fez na resistência à ditadura militar, para finalmente levá-la à derrota. Porém, de cara, constatam que há um enorme contingente da população contaminado pelo que chamam de ideal do consumo. Afinal, é difícil ignorar que, primeira vez na vida, esse enorme contingente experimenta a possibilidade de consumir. O que inclui comer duas a três refeições por dia.

 

Para complicar sua volta às bases, eles supõem também haver detectado que esse enorme contingente é um grupo que busca sua própria identidade emergente, inclusive por meio de religiões pentecostais. No espectro político brasileiro, essas confissões religiosas não seriam aliadas do movimento cidadão democrático. Parecendo desconhecer a participação ampla de muitas correntes religiosas, não só na luta contra a ditadura, mas também pelo aprofundamento democrático do país, esses socialistas sui generis parecem entrar em pânico e se perguntam como agir, que métodos políticos inventar e que pedagogia política utilizar.

 

Diante de tantos obstáculos, em parte criados por eles mesmos, concluem que, no Brasil, a conquista dos corações e mentes é o desafio maior para a democracia e a sustentabilidade, na perspectiva de uma transformação que importa. Seria preciso conquistar o imaginário mobilizador. Ouvir, literalmente escutar, as ruas, para entender e transformar as suas demandas numa agenda de ação. Portanto, o maior desafio seria de ordem cultural. Isto é, saber falar para as pessoas o que elas próprias sentem, já que a transformação só seria possível com cidadania motivada e em ação.

 

Nossos socialistas revolucionários nos colocam, assim, diante da quadratura do círculo. Primeiro, a transformação só seria possível com cidadania motivada e em ação, no que têm razão. Muitos podem alegar que isso também pode se chamar de luta de classes e de mobilização social. Mas essa alegação não tem importância. Por outro lado, quando eles nos dizem que a cidadania só pode ser motivada se ouvirmos e falarmos o que ela sente e fala nas ruas, isso contradiz o que eles próprios proclamam, embora contenha uma parte de verdade.

 

Se nos limitarmos a isso, teremos que reconhecer que nos pautaremos apenas pelo que sente e fala o enorme contingente da população, que antes não tinha certeza de comer uma refeição por dia e, hoje, come três. E que, ainda por cima, pode sonhar com a casa própria financiada pela Caixa e com aquisição de outros bens de consumo antes inacessíveis. Ficaremos todos presos aos limites do já conquistado, ainda mais que essa conquista teve algum dos dedos do governo que nossos socialistas abominam. Conquista de consumo que, convenhamos, ainda é quase nada frente à riqueza acumulada pelo 1% mais rico da população.

 

Se os socialistas quiserem ter uma ação transformadora, qualquer que seja sua corrente política, eles precisam discutir com esse enorme contingente que, para garantir aquele ideal de consumo, e ter acesso a condições de vida superiores, é necessário lutar por mais empregos, melhores salários e pela conquista de maiores direitos sociais e políticos.

 

Ou seja, para que esse enorme contingente lute por uma transformação que importa, ou por uma agenda transformadora (que, infelizmente, os socialistas revolucionários referidos não explicitam, nem detalham), é indispensável que seus milhões de integrantes aprendam com a luta econômica, social e ambiental, e elevem a sua consciência política.

 

Ondas sociais e políticas se esgotam e se recriam não pela vontade de personalidades, grupos ou partidos políticos. Embora estes possam ter uma ação mobilizadora, a partir das questões econômicas, sociais e ambientais (que não são tão excludentes quanto pensam alguns), a mobilização transformadora só emerge após períodos relativamente prolongados de lutas menores, aparentemente em nada transformadoras. Ninguém acorda para a luta política transformadora, de um momento para outro, apenas pela ação de um ideário mobilizador.

 

Sem entender isso, nossos socialistas revolucionários vagarão através de suas próprias perguntas. Poderão até se contentar a acusar os outros de haverem mudado de natureza, mas não conseguirão fazer com que seu trabalho de base se diferencie em nada do que fazem os pentecostais, outras religiões e vários agrupamentos de esquerda.

 

Criticar é fácil. O difícil é pesquisar, investigar a realidade e ter a paciência de compreender suas limitações. E, além disso, praticar junto com os enormes contingentes da população o aprendizado combatente para elevar a consciência e a luta política. Esta sim, essencial para articular e resolver os problemas econômicos, sociais e ambientais. Se não for para isso, por que voltar às bases?

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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Última atualização em Quarta, 06 de Fevereiro de 2013
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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