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Razões do poder Imprimir E-mail
Escrito por Carlos Carujo   
Sexta, 25 de Janeiro de 2013
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Numa discussão recente, vieram à baila dois argumentos tradicionais de quem detém o poder político contra quem, de uma forma ou de outra, se lhe opõe. Neste caso particular, dizia-se que os outros só falavam dos problemas das pessoas com objetivos eleitoralistas e que se limitavam a falar da boca para fora porque só têm conhecimento sustentado das questões quem governa.

 

Estes argumentos em si, autocentrados, envolvidos numa suposta superioridade moral e facilmente desmontáveis do ponto de vista racional, não têm grande valor. Contudo, deve fazer-nos pensar o fato destes e de outros argumentos semelhantes serem utilizados por tantas fontes diferentes e em tantos momentos diferentes. Há, aliás, um conjunto de argumentos que são cansativamente recorrentes por parte de vários tipos de poderes, sejam governos, autarquias, direções políticas ou associativas.

 

Aproveito este pretexto para revisitar algumas destas razões do poder na esperança de que a sua apresentação breve contribua para demonstrar o seu carácter falacioso.

 

- A inevitabilidade. É talvez o argumento mais terrível do poder por ser aquele que rouba mais democracia ao debate. Para quem está instalado só pode ser sempre assim como eles fazem. No país, existe um exército de técnicos e fazedores de opinião preparados para jurar isso mesmo.

 

Só que, do ponto de vista do detentor do poder, tal não basta porque nada diz sobre o pessoal político que deve executar tal política única, podendo justificar as situações de alternância (de grupos que exercem o poder) sem alternativa (outro programa político e outra forma de fazer política). Daí que a inevitabilidade costume vir servida com o acompanhamento de algum outro argumento destinado a provar que quem está deve ficar. Pretendem provar isto os tipos de argumento seguintes...

 

- O amor (pela terra, pela causa ou organização). Por exemplo, na política local, as juras de que ninguém ama mais a sua terra tornam-se comuns, apesar de poucas razões darem aos eleitores para votarem. Lembro-me, aliás, do candidato que colocava no cartaz de campanha o seu amor por Lisboa. Só que tal jura implica um juízo de valor sobre o oponente (que de alguma forma se acusa de não gostar ou de gostar menos). E, claro, amar não significa necessariamente saber cuidar, não é sinônimo de capacidade política nem justifica a razão pela qual se defende determinado tipo de políticas em vez de outras.

 

- O sacrifício. É um argumento típico do profissional da política: “eu faço tanto por vocês, eu dedico todo o meu tempo, eu desisti de uma carreira brilhante para estar aqui...” Ao colocar-se em posição de sacrifício, espera-se simpatia ou reconhecimento e pretende-se calar a mal-agradecida oposição. Só que, para além disto, pouco tem a ver com a avaliação das políticas postas em prática, é também um argumento cínico que acaba por desvalorizar a participação. Para a retórica do sacrifício, o direito à palavra parece estar dependente de um “empenho” que poucos poderão ter. Divide-se a política implícita ou explicitamente entre aqueles que só falam e aqueles que fazem, desvalorizando-se desta forma, perigosamente, o papel da oposição em democracia.

 

- A competência. Entendamo-nos, não está em causa a necessidade de um programa político ser colocado em prática por executores que sejam eficazes. Está em causa, mais até do que forma manhosa do autoelogio ou do elogio por interposta pessoa, o uso e abuso de um estatuto para se disfarçar a si próprio de técnico/especialista, procurando fugir à má imagem dos políticos.

 

Para além do mais, tal afirmação não só beneficia a imagem do detentor do poder como serve para disfarçar as escolhas políticas de razões técnicas, acabando desta forma por ser uma variação da política da inevitabilidade (e partilhando as suas fragilidades). Juram-nos: não apenas não sou político, como o que faço não é política, mas a solução para os vossos problemas. Palavra de quem sabe. Mas, reduzida a democracia a uma tecnocracia, deixaria de haver escolhas livres.

 

Os economistas do sistema neoliberal são um bom exemplo da razão tecnocrática. O atual ministro das Finanças português joga muito este jogo. E, como resposta à sua desejada superioridade técnica, poder-se-ia responder-lhe com a acusação de incompetência face aos resultados das políticas de espiral recessiva. Contudo, o problema talvez seja o oposto: este governo é altamente competente no seu plano de desvalorização do trabalho. Porque a pergunta a fazer à retórica da competência é: competente para quê? Ao contrário do que afirma um certo discurso idealista, não existe “o melhor para o país” em termos abstratos, pronto a ser levado à prática pelos “competentes” que deveriam exigir do resto uma unidade nacional. Existem caminhos diferentes e há que escolher. Assim é a política.

 

Some-se a isto o óbvio: as razões do poder não passam apenas por se louvar a si próprio, uma estratégia paralela é a de denegrir o adversário. O que abre um novo campo de argumentos.

 

- A diabolização da crítica. Para além de se aproveitar do estatuto para dividir ficticiamente entre quem diz e quem faz, apresenta-se a oposição como aqueles que “só sabem dizer mal”. E por mais que quem não concorde com o detentor do poder tenda até a polir as suas críticas para escapar a tal acusação, ficará sempre enredado nas malhas deste argumento. A diabolização costuma ser muito eficaz do ponto de vista do condicionamento das críticas. Isto porque transmite a ideia de que quaisquer críticas são maledicência, deslocando as críticas à atuação do poder político, que passam de ser o que são (críticas à ação do detentor do poder) a serem apresentadas como o que não são: críticas que prejudicam a imagem do país, cidade, causa ou organização.

 

“Love it or leave it”, amem-na ou deixam-na, disparava o slogan norteamericano contra quem criticava o governo em tempo de guerra fria. E a lógica continua a ser a mesma.

 

- A caricatura. Para além de se desvalorizar o discurso crítico, pode-se também desvalorizar quem ouse fazer críticas. Aqui entra ou o exercício de pseudo-psicologia à volta da figura do crítico enquanto um insatisfeito crônico e por isso incapaz de fazer algo construtivo, ou um perigoso ambicioso cheio de sede de protagonismo. Pode-se ainda utilizar a insinuação à volta de interesses obscuros em alguns casos.

 

Do ponto de vista do poder estabelecido, este recurso é valioso porque, para além de inibir muitos de criticar publicamente, acaba por desviar as atenções acerca do que foi criticado, ao concentrá-las em quem fez as críticas. Apesar de tudo, mesmo as críticas feitas pelo pior canalha do mundo podem ser válidas.

 

Reconheça-se ainda, evidentemente, que o boato, a insinuação e o ataque pessoal, as estratégias reles da política, não são exclusivos de quem detém o poder. Mas é necessária uma boa máquina organizativa para que sejam eficazes e não tenham um efeito de boomerang.

 

Dito isto, há que reconhecer que as estratégias argumentativas falaciosas têm sido parte integrante da política desde há muito. E, mesmo que se tornem mais chocantes em tempos de urgência social, sabemos que iremos continuar a ouvir variações sobre estes temas. Tal como iremos continuar a sofrer alguns dos efeitos desta forma de fazer política. Este tipo de argumentos induz a sensação de que a política deve ser um campo hierarquizado em que uns mandam noutros, em que a capacidade de decisão só deve estar ao alcance de alguns, sendo alheia ao conjunto dos cidadãos.

 

E induz a desvalorização do próprio debate político porque, feito assim, tem pouca qualidade, implicando um eterno retorno a alguns pontos básicos que pouco ou nada esclarecem e reduzem-se tantas vezes a uma troca de piropos. Há, assim, uma quota de responsabilidade deste tipo de discurso na chamada crise da política.

 

Mas é possível que o reconhecimento de que as falácias e raciocínio simplistas fazem parte da política não se transforme num fatalismo ou num cinismo. É possível contribuir para que o centro dos debates políticos seja o aprofundamento das alternativas. É possível desconstruir o discurso dos “grandes políticos” e devolver a palavra aos cidadãos num processo de formação política permanente em que estejamos sempre todos e todas a aprender. O melhor antídoto contra a repetição destas razões do poder é a criatividade prática.

 

Carlos Carujo é professor e mestre em Filosofia em Portugal.

Website: http://carujo.webnode.com/

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Última atualização em Terça, 29 de Janeiro de 2013
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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