Alterando a informação jornalística (meia-ficção): lindo governo, esse progressista!

 

As matérias na mídia falam de policiais uruguaios em veículos da embaixada dos Estados Unidos, abordando um jovem na noite de quarta-feira (16) para pedir documentos. Depois de descer de um veículo de transporte coletivo, o “abordado” caminhava pela rua Bolonia, em pleno bairro Carrasco Sul, distraído com seus fones mp4 nos ouvidos, como é habitual a qualquer jovem desta área da cidade, quando inadvertidamente cruza com duas camionetes pretas 4x4. Que não só param, mas abrem as portas, saindo de seu interior um homem que exige a apresentação de seus documentos.

 

Depois de uma rápida troca de palavras entre eles e de acreditar no desconhecido, na sua função de polícia secreta, o jovem acatou a ordem, mas inconformado continuou resmungando algumas palavras. Em resposta, o astuto e sagaz vigilante acrescentou: "Nós somos policiais, estamos trabalhando para a embaixada dos EUA, estamos fazendo uma patrulha e ajudando a seccional local da área".

 

Mais tarde, um parlamentar da oposição, que tomou conhecimento do ocorrido, tentou entrar em contato com alguma autoridade, sem sucesso, já que quem não estava de férias, estava em alguma festança bem regada e impossibilitado de declarar algo.

 

O fracasso o levou a afirmar que “parecemos o Haiti, policiais uruguaios patrulhando em veículos diplomáticos é algo que não se viu nem na época de Pacheco nem na ditadura”... E assustado com essas expressões que poderiam confundir a opinião pública a respeito de sua futura postulação política, tentou amenizar o dito, acrescentando que “não questionava os Estados Unidos, que são amigos do Uruguai”, enfatizando que a crítica focava apenas na péssima gestão do gordo ministro do Interior, que por estas horas estaria coçando a pança e manguaçando importados em alguma praia do leste.

 

Poucas horas depois, verificou-se que o menino “averiguado” vive perto de uma casa de um gringo custodiado, e descartou que sua militância política, suas crenças religiosas ou suas preferências esportivas tenham algo a ver com o episódio vivido. Que eventualmente lhe rendeu para esta sexta-feira um banquete na residência do responsável pela rumbera dominicana.

 

Talvez o ocorrido da noite de quarta-feira passada, no bairro de Carrasco, seja a forma de prestar homenagem “aos seus senhores”.

 

Cabe perguntarmos

 

Será que a reverência explícita apenas encobriria o rechonchudo ministro, já que foram eles os únicos interlocutores que conseguiram estar com Panetta a sós, durante a última aterrissagem do império em Punta del Este? (Leon Panetta é ministro da Defesa dos EUA.)

 

O certo é que dois loiros musculosos com cabeças raspadas dos lados, vestindo uniformes da marinha estadunidense, andam praticando “ato de presença” junto à subdesenvolvida polícia local, em operações (aparentemente) destinadas a combater a insegurança da cidade. Os indivíduos (fuzileiros navais) embora não diretamente envolvidos na ação se localizavam a poucos metros, como dando apoio à ação dos vigilantes e do astuto policial. Na ocasião foram utilizadas duas potentes camionetes com chapas diplomáticas e vidros escuros.

 

Tal como disse o parlamentar, nem sob Pacheco chegamos a este ponto. É verdade que, naquela época, o país tinha um "assessor" de agricultura que despachava na sede da polícia em Montevidéu e foi parte do prelúdio que levou à ditadura de triste memória e até hoje, muitos anos depois, (graças ao comportamento de seus pares), ainda não passada a limpo completamente.

 

Na sexta-feira, 18 de janeiro, o assunto explodiu. E vamos continuar a acompanhar os acontecimentos, mas devemos estar cientes de que o imperialismo já se instalou em nosso país.

 

Enrique Cuadrado Gambardella é jornalista, trabalhou em diversos veículos de comunicação uruguaios, e também se define como “analista gozador”.

Blog: http://lascotidianasdeenrique.wordpress.com

Tradução: Daniela Mouro, Correio da Cidadania.

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