Morte antes do tempo

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O escritor francês Gilbert Cesbron afirmava que sempre morremos espantados, pasmos de que a única coisa que é certa de acontecer na vida de todos os seres humanos finalmente tenha acontecido conosco. Também o filósofo Jean Paul Sartre dizia: “Morre-se sempre muito cedo. Ou muito tarde. E, no entanto, aí está. O traço está passado... Você não é nada além de sua vida”.

 

Espantados ou conscientes, o fato é que essa que ceifa a todos e todas, mais cedo ou mais tarde, choca muito mais quando chega prematuramente em vidas jovens que teriam tanto para dar e receber. A morte na juventude, provocada pela violência nossa de cada dia e que atinge números assustadores, banalizou-se e deixou de indignar-nos. Acostumamo-nos, infelizmente, a assistir bocejando o noticiário sobre balas perdidas e achadas em corpos de crianças, jovens homens e mulheres, adolescentes etc.

 

No entanto, quando a morte não é por violência ou por acidente ou tantas outras forças destrutivas que acabam com a vida de tantos jovens, a nós choca mais. E deixa amargo sabor na boca, sentindo que nosso mundo ficou mais pobre, mais velho, menos criativo, sem brilhantes pessoas que ainda estavam em uma idade cheia de futuro.

 

A semana que passou foi marcada por duas destas mortes tempranas. No dia 10 amanheci com a notícia da morte da filha de uma colega. Tinha a mesma idade de minha filha mais velha. Linda por dentro e por fora, possuía uma inteligência comparável a seu encanto pessoal. Era doutora em Astronomia e apaixonada pelos segredos do universo em que vivia. Quando descobriu a leucemia que a vitimou lutou com toda a dignidade dos nobres e grandes. Em lugar de ficar se lamentando, ergueu a cabeça e foi estudar filosofia. Era amada por professores e colegas.

 

No meio de seu doloroso e incansável itinerário em busca da cura, encontrou o amor e casou-se. O marido, apaixonado, fazia tudo para enchê-la de carinho e acompanhá-la em todos os momentos. Assim como os pais, irmãos, amigos. Partiu serena depois de ter esgotado todos os recursos para buscar a vida. Não consigo esquecer seu rosto, a expressão dos seus olhos. Nem a mensagem que postou no Facebook no último dia do ano sobre o ponto azul do universo, cheia de desejos de paz. Estou ainda espantada com essa morte que acontece na ordem invertida, fora de tempo e lugar.

 

Agora leio a notícia da morte por suicídio, no último dia 11, do brilhante jovem estadunidense Aaron Swartz. As circunstâncias são tão estranhas quanto fora do comum era esse jovem de 26 anos, mente privilegiada, que aos 14 anos de idade já inventava e criava programas na internet e era um apaixonado pela luta pela democratização do conhecimento. O RSS, de coautoria de Swartz aos 14 anos, é um recurso desenvolvido em linguagem XML, que permite aos responsáveis por sites e blogs divulgarem notícias ou novidades. O Reddit é um site de notícias baseado no compartilhamento social de conteúdo.

Seu erro foi ousar dentro do santuário do conhecimento, o MIT (Massachussets Institute of Technology) em Harvard, EUA. Ao disponibilizar publicamente vários artigos acadêmicos, foi acusado de violar a propriedade intelectual, moral e não sei quantas mais propriedades em uma sociedade tão ciosa das mesmas. Foi processado, devendo pagar pesadas multas e poderia ser preso por mais de 35 anos em caso de condenação.

 

Aron não aguentou a pressão e enforcou-se em seu apartamento. Era conhecido por ser um ativista da internet e defensor ardente da liberdade na rede. Em 2010, criou o DemandProgress.org, uma campanha online contra os projetos de lei americanos Sopa e Pipa, considerados pelos críticos uma forma de controle e censura na internet.

A morte de Aron traz à baila toda uma discussão sobre a liberdade ou a falta dela na assim chamada sociedade do conhecimento. Os círculos mais sofisticados da inteligência norte-americana (destacando-se o MIT) levantaram-se em tributo a esse militante-programador-hacker, comenta a mídia. Eticamente, Aaron Swartz colocou-se contra a mercantilização de conhecimento público. Ou seja, contra o fato de se ter de pagar para conseguir acesso ao conhecimento gerado com dinheiro público. Quando se trata de conhecimento, a privatização do que foi ou deveria ser público parece tornar-se questão de vida ou morte, comentam muitos jornalistas e ativistas da internet. E nós concordamos.

O que desejo registrar aqui é quanto a morte desses dois brilhantes jovens desorganiza o nosso cotidiano pensado em termos meramente cronológicos. Essas duas pessoas, embora vivendo menos do que a média de vida em seus países e classe social, deixaram sua marca no planeta e na humanidade mais do que muitos centenários que vivem pela metade ou ainda estão esperando para fazer as escolhas definitivas. Que o testemunho de ambos possa iluminar-nos hoje e sempre.



Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora de Teologia da PUC-Rio e autora de “Crônicas de cá e de lá” (editora Subiaco), livro recém lançado. Encomendas diretamente à escritora pelo e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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