Estados Unidos: novo ano, antigos problemas

 

 

Lamentavelmente, os norte-americanos chegaram ao final de 2012 com uma tragédia interna significativa: o assassínio em massa de estudantes e professores ocorrido há poucos dias em uma pequena cidade de Connecticut.

 

O massacre se soma aos mais de cinquenta casos semelhantes existentes nas últimas três décadas no país. Um ou dois atiradores ferem ou matam várias pessoas em curto espaço de tempo em um local público como uma escola, um centro de compras ou uma igreja.

 

De modo surpreendente, partidários do armamento irrestrito posicionam-se a favor da continuidade da legislação atual, a despeito das constantes matanças. A polêmica justificativa geral baseia-se na perspectiva de que, quanto mais houvesse cidadãos armados, mais a população estaria segura por poder defender-se ela mesma de eventuais desequilibrados.

 

Durante a gestão de Barack Obama, vários estados aprovaram leis favoráveis ao comércio de armas, ao permitir facilidade maior na aquisição ou no porte. Normalmente, a iniciativa é de parlamentares republicanos, mas acompanham-nos na chancela final seus supostos rivais democratas.

 

Amparados tradicionalmente em emenda constitucional aprovada em 1791 – meros quinze anos após a proclamação da independência –, os defensores do belicismo beneficiam-se de recentes interpretações do judiciário, bastante inclinadas ao direito individual de portar armas, a despeito do reconhecimento da qualidade da presença policial no resguardo cotidiano da segurança.

 

Com a alteração da jurisprudência, a fundamentação histórica da defesa da sociedade, via formação ad hoc de unidades locais diante de uma circunstância desfavorável como invasão, rebelião ou até tirania, desaparece.

 

A tentativa do governo de restringir mais uma vez o acesso a armas no próximo ano não será a maior dificuldade a ser encarada em 2013, mas sim os altos índices de desemprego de uma economia patinhada desde o final de 2008 e a turbulenta elaboração do orçamento.

 

Embora esteja abaixo dos dez por cento na média, o número é preocupante porque muitos cidadãos não conseguem emprego por longo período de tempo. Sem isso, não obtêm mais vantagens como plano de saúde ou reajustes salariais mais expressivos, por exemplo, ou não têm estímulo para se filiar a sindicatos, posta a transitoriedade.

 

Além do mais, isso se reforça porque muitas corporações preferem a contratação através de agências, de forma que lhes seja possível o revezamento da mão de obra, com o objetivo expresso de reduzir gastos e aumentar a produtividade – sem promoções e, se possível, com trabalhadores mais jovens. Desta forma, a classe média encolhe cada vez mais.

 

A maioria dos incentivos fiscais concedidos na época de George Bush extinguir-se-á em breve. Até o momento, debatem de forma infrutífera republicanos e democratas ou Executivo e Legislativo sobre quais segmentos novas responsabilidade financeiras devem recair.

 

Republicanos sugerem cortes na área de saúde, a mais delicada para os democratas por causa das modificações executadas durante a atual administração; de educação, com atenção para a diminuição de bolsas; de alimentação, com encolhimento da verba destinada aos tíquetes de compra; de trabalho, com a redução de programas voltados para o treinamento de desempregados principalmente; e mesmo de energia, com subsídios concedidos durante o inverno.

 

Deste modo, 2013 será um ano previsivelmente desgastante para o presidente reeleito, cônscio também dos problemas advindos da política externa, setor em que haverá até troca do titular do departamento de Estado.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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