Natal de Jesus a partir de Dandara

 

 

Com olhos fechados – por estar imerso em uma profunda experiência de amor, ou por estar envolvido em uma grande dor, ou extasiado, ou ... -, nos vemos, pois olhamos para o nosso interior, para nosso eu mais profundo.

Com olhos abertos, não nos vemos; ausentes de nós mesmos, vemos o mundo, a partir de onde estão os nossos pés.

 

Jesus, como criança pobre, nasceu há dois mil anos atrás em uma manjedoura, sem casa e sem terra. Hoje, o Menino de Belém quer nascer de novo, no nosso coração, nas comunidades, nos movimentos sociais populares, nas forças vivas da sociedade. Inútil ir aos shoppings. Lá está papai Noel, que é Herodes, rei opressor. Nos shoppings não está Jesus. Lá estão mercadorias, imagens adoradas pelos vassalos do deus capital, essa máquina voraz que se deleita em moer vidas.

 

Vamos fazer como os magos do evangelho de Mateus (Mt 2,1-12): seguir a Estrela, indo para fora do Centro, e lá nos morros, nas periferias, nas ocupações urbanas e rurais, debaixo dos viadutos. Aí encontraremos o Deus que se fez humano a partir dos empobrecidos! O Deus que, como mistério de infinito amor, se apaixonou pela humanidade e por toda biodiversidade e, por amor, acampou entre nós. Chegou de mansinho, como criança frágil, a partir dos porões da humanidade.

 

No Natal celebramos a luz e a força divina irrompendo na humanidade, em Jesus de Nazaré. Jesus se alegrava ao perceber o Reino de Deus irradiando em todos e em tudo. Jesus se mostrou ecumênico, aberto ao outro que dignifica a convivência social. Libertou-se de preconceitos. Não discriminava ninguém.

 

Conviveu com todos, despertou a beleza e a grandeza existente em nós. Jesus anunciava, pelo seu modo de ser e de agir, basicamente o seguinte: Veja a beleza, a força, a grandeza, a dignidade, o divino existente em você, na comunidade, nos pequenos, nos simples e no universo. Não queira buscar fora o que fervilha em você e em volta de nós. É nas relações humanas, políticas e ecológicas que energia e luz libertadoras se manifestam.

 

Natal é Deus conosco, nós com Deus e nós com nós. Todas essas três dimensões vivenciadas em uma grande sinfonia. Natal é perceber o divino no humano, é ver a sacralidade em todos e em tudo, observando prioritariamente a partir do elo mais fraco ou enfraquecido. É superar todo e qualquer tipo de dualismo, de reducionismos, de simplificações.

 

Na Dandara, ocupação que se tornou comunidade, em Belo Horizonte, MG, mil e poucas famílias estão, há 3,8 meses, como a estrela que guiou os magos, brilhando e apontando o caminho para construirmos uma cidade e uma sociedade onde caibam todos os seres vivos em igual dignidade. Na Dandara, pelo segundo ano consecutivo, a comunidade canta o NATAL NA DANDARA – composição de Maria do Rosário de Oliveira Carneiro, melodia de Lapinha na Mata - que diz assim:

 

Um dia numa lapinha / Um grande caso se deu / Um garotinho bacana / De uma mulher nasceu. / Aqui bem longe, bem longe, / Na nossa querida Dandara / Tem lugar pra você, Jesus / Na nossa humilde casa (bis) / A gente vivia sofrendo / Escravos do aluguel / Mas, eis que surgiu a Dandara / Tornou-se um pedaço do céu (bis) / A nossa casa é simples / Mas tem flores no quintal / E tem lugar pra você, Jesus / Na noite do seu Natal (bis) / Aqui na nossa Dandara / Aprendemos que tem que lutar / Construir em mutirão / Com fé, com garra e união (bis) / As nossas crianças e idosos / Agora tem felicidade / Dandara está construindo / Uma nova sociedade (bis) / A nossa casa é cheinha / De pessoas pra sustentar / Mas ainda tem pra você, Jesus / Uma vaguinha em nosso lar (bis) / Nasce na nossa Dandara / Você vai correr e brincar / Passear com nossas crianças / Nós vamos também te cuidar (bis) / Dandara é uma grande lapinha / Um lugar por Deus indicado / Fazemos reforma urbana / E Deus está ao nosso lado (bis) / A nossa Dandara é feliz / Na luta por moradia / Nasce com a gente, Jesus / Traz um Natal de alegria (bis).

 

No domingo, 16 de dezembro de 2012, uma celebração prévia de natal, encerrando a novena do natal em família, demonstrou o quanto em Dandara se vive o verdadeiro espírito do natal. Com a inspiração das leituras bíblicas, o povo presente na celebração expressou como experimenta o natal: através da solidariedade entre as famílias e a rede de apoio, das construções em mutirões, da produção de alimentos através das hortas comunitárias e hortas nos quintais, da emancipação das pessoas, da organização popular, da luta por direitos e não somente pelo direito a moradia.

 

Ao final da celebração, um gesto na contramão do espírito do mercado que impulsiona as pessoas a comprar presentes e consumir ao máximo nesta época de natal: um apoiador de Dandara trouxe várias mudas de plantas: pequi (uma raridade), ipê amarelo, siriguela, fruta do conde e presenteou a comunidade.

 

Moradores se ofereceram, com muita alegria, para plantar e cuidar das mudas em nome de toda comunidade.

 

Gestos e experiências como estes revelam o profundo sentido do natal. Como Dandara, milhares de outras comunidades de resistência são verdadeiras lapinhas vivas que sinalizam, como a estrela que guiou os magos, onde está o menino, o messias humano-divino que é sinal de vida vivida com dignidade, mesmo que esta dignidade seja construída de maneira revolucionária, com muita luta, ternura e resistência.

 

A partir de Dandara, das Comunidades Eclesiais de Base, da Teologia da Libertação, dos movimentos sociais populares, do que é mais humano e, por isso, divino, entendemos que a melhor forma de celebrar o Natal não é dando presentes, mas sendo presentes, sendo presença divina no mundo, cultivando relações humanas que tecem um novo tecido social justo, solidário, ecumênico e sustentável ecologicamente. Sejamos presente, presença divina, assim como o menino de Belém foi, é e será sempre em nós.

 

Gilvander L. Moreira é frei Carmelita. Página do autor: www.gilvander.org.br; contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. ; Facebook: Gilvander Moreira (Esse aceita novos amigos); Twiter.com/gilvanderluis .

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