2012, um ano perdido?

 

 

2012 teve início com a explícita intenção da equipe econômica em recuperar o ritmo da atividade produtiva do país, que havia sofrido uma forte desaceleração em 2011, com a expansão de apenas 2,7% do PIB naquele ano.

 

É verdade que, no início do primeiro ano de gestão da presidência de Dilma, a força das ideias mais ortodoxas prevaleceu, com cinco altas sucessivas da taxa básica de juros, entre janeiro e julho, levando a taxa Selic a 12,5% ao ano, sempre sob a justificativa do necessário combate à inflação. Somente a partir do segundo semestre de 2011, portanto, o governo despertou para a necessidade de se recalibrarem os seus instrumentos de política econômica.

 

Levando-se em conta a questão do crescimento, o objetivo do governo era assegurar uma expansão de 4,5% do PIB. Além disso, preocupava o Palácio do Planalto o comportamento do câmbio, extremamente valorizado, prejudicando a competitividade das exportações. Medidas buscando inibir operações de empréstimos e financiamentos entre filiais de multinacionais e suas matrizes foram tomadas, com o objetivo de diminuir o fluxo de entrada de recursos especulativos no país. De alguma forma, com a contribuição também da saída de recursos de estrangeiros aplicados nas bolsas de valores e de mercadorias, por conta da crise na Europa, foi possível uma relativa desvalorização do real.

 

Entretanto, com relação ao dinamismo da economia, os objetivos do governo foram inteiramente frustrados. Na última sondagem do Banco Central, já neste mês de dezembro, por exemplo, a expectativa do chamado mercado era de uma expansão do PIB para esse ano de apenas 1,03%. E não se trata evidentemente de uma especulação conspiratória. Com os resultados do terceiro trimestre, com um fraco comportamento da indústria e a queda, pelo quinto trimestre seguido, da taxa de investimento, fica claro que as medidas que vêm sendo anunciadas sucessivamente pelo governo não têm a menor capacidade de cumprirem com os seus pretendidos objetivos.

 

Incentivo fiscal, com a redução da incidência do IPI para diferentes setores; linhas de crédito subsidiadas para novos investimentos, através do BNDES; e expansão da desoneração da contribuição previdenciária da folha de pagamentos para os mais diferentes setores da economia, incluindo o da construção civil, parecem não ser capazes de reverter o quadro de semiestagnação em que mergulhamos.

 

Além disso, a própria redução da taxa básica de juros, atualmente em 7,25% ao ano, parece igualmente pouco efeito produzir no ânimo dos investidores privados. Grande esperança do governo para a reativação da economia e elevação da taxa de investimento, dado o crescente comprometimento dos recursos estatais com a administração da dívida pública, as corporações privadas, ao que tudo indica, parecem não ter muita confiança na combinação do quadro externo – de crise prolongada – com as incertezas em relação ao mercado interno. Suas decisões de investimento, conforme os últimos resultados demonstram, frustram por completo os planos do governo.

 

É a partir desse quadro que cabe a pergunta: o ano de 2012 foi perdido?

 

Para os interesses do capital privado parece que não. Frente às dificuldades do governo para atingir o seu objetivo de se assegurar crescimento econômico, com geração de empregos e renda para os mais pobres, todas as concessões são possíveis e admitidas. E os representantes do capital sabem pressionar e se aproveitar desta situação, e da fragilidade e dependência dos atuais governantes, para assegurarem vantagens.

 

O objetivo maior do mundo do capital é o de entrar de vez no setor de infraestrutura do país. Não sem razão, a partir dessa ótica privatista, a “novidade” mais acalentada pelo governo é a atração de capitais privados para novos negócios, na área de portos, aeroportos e estradas – sempre com generosos aportes de financiamentos, a juros subsidiados, pelo BNDES.

 

O governo procura responder às pressões privatistas, que reivindicam um “ambiente de negócios” mais estável e seguro, como se em algum momento desses últimos vinte anos, ao menos, tivéssemos tido algum desestímulo ou ameaças ao mundo do capital e aos seus sempre incisivos interesses.

 

Além disso, e certamente estimulados pelos inevitáveis efeitos negativos que a mudança na forma de recolhimento das contribuições patronais à Previdência Pública acarretará, os porta-vozes dos interesses privados voltam à carga. Novos “alertas” são produzidos sobre as supostas dificuldades de financiamento futuro das contas da previdência, sempre com o claro objetivo de ampliar as margens de atuação dos interesses privados, presentes neste lucrativo negócio da chamada (im)previdência privada.

 

Resumindo: os impasses e insuficiências do modelo econômico em curso, e a incapacidade da atual política econômica responder a contento aos contornos da crise atual, fazem com que a ofensiva dos interesses do capital se intensifique.

 

Com um governo fraco, refém político dos seus financiadores e mergulhado em sucessivas denúncias de corrupção, superlativizadas pela mídia dominante, o que mais chama a atenção é a total entrega do país aos ditames do capital privado financeiro. Acrescido pela fragilização das organizações de representação legítima dos trabalhadores, o cenário que emerge desse ano é bastante grave aos interesses do mundo do trabalho.

 

Paulo Passarinho é economista e apresentador do programa de rádio Faixa Livre.

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