Estados Unidos: o consenso entre democratas e republicanos

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Os democratas mantiveram-se no poder por mais um quatriênio, a despeito das condições desfavoráveis na economia e na política externa. Mesmo diante de um quadro adverso, o eleitorado preferiu-os aos republicanos. Uma razão possível decorreu da guinada ainda mais à direita da candidatura de Mitt Romney.

 

Com isso, Barack Obama garantiu a vitória, em vista do apavoramento dos eleitores ante o hipotético panorama de intensificação da postura governamental caso os republicanos voltassem à Casa Branca – mais desregulamentação econômica, com possibilidade de acirramento do desemprego, e mais belicosidade externamente, voltada, a depender das circunstâncias, para Irã, Síria ou Coréia do Norte.

 

Guardadas as devidas proporções, fenômeno parecido ocorreu no Brasil recentemente, ao deslocar-se a oposição para um polo bem mais conservador. Desta maneira, ela assegurou aos titulares do poder, ainda que involuntariamente, o imerecido posicionamento de esquerda.

 

Em face da manutenção de uma determinada situação socioeconômica, incômoda por causa da persistência da desigualdade, ou da alteração com vistas a reforçá-la, a sociedade, seja norte-americana, seja brasileira, não hesitou em marcar a primeira.

 

Nos Estados Unidos, o número de famílias com renda até doze mil dólares por ano não decresce e abarca mais de seis por cento da população – o percentual mais alto dos últimos anos. Desde a virada do milênio, o neoliberalismo contribui para o aumento dos miseráveis. Já não seria mais crível o povo apresentar-se ao restante do mundo como o país da classe média – visão explorada a partir do fim da Segunda Guerra Mundial.

 

Há quatro anos, a perspectiva ao vencedor do pleito presidencial seria a de um mandato somente, em função do grau da crise herdada. Sem condições de solucioná-la em tão pouco prazo, a não ser que houvesse ousadia, como na década de 30 com o programa New Deal, ela seria um ponto bastante expugnável do governante. O que propiciaria ao adversário fartas condições de explorar o assunto eleitoralmente e, por conseguinte, beneficiar-se.

 

Todavia, à medida que os democratas sustentaram as linhas mestras recebidas e os republicanos recusaram-se a ser menos conservadores, os efeitos deletérios da quebradeira persistem, apesar de um ou outro índice ser mais favorável, como em emprego.

 

A gestão de Barack Obama avançou na área da saúde pública, ponto tradicional entre os democratas, mas em ritmo muito comedido. Houve de fato pressão contrária, exercida com desenvoltura ante a costumeira timidez do governo em tópicos sociais ao longo de todo o mandato.

 

Em termos de distribuição de renda, malgrado a severa crise, a desigualdade entre os altos executivos e os trabalhadores continua em padrões similares aos do período de George Bush. O crescimento econômico é contido. O número de sindicalizados retrocede até em segmentos tradicionais como o automobilístico e metalúrgico.

 

As duas guerras seguem, a despeito da redução dos efetivos. Ao segundo mandato, os democratas advogam a redução significativa do orçamento militar durante muitos anos, mas sem grande entusiasmo – na prática, isto seria mais uma peça de retórica.

 

Assim, o balanço da primeira administração democrata não é otimista, haja vista que o retraimento de políticas progressistas lá influencia sem sombra de dúvida o restante do globo, falto também, por sua vez, de inspiração para superar as enormes adversidades por que passa toda a sociedade.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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