Economia: retrospectiva 2012

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O ano se encerra com crescimento econômico esperado do Produto Interno Bruto ao redor de 1,0 %, mais baixo que o crescimento de 2012, que foi de 2,7%.

 

A derrubada do ritmo de crescimento experimentado entre 2004 e 2008 (em média de 4,8 % ao ano.) já havia sido observada em 2009, quando houve uma pequena recessão e crescimento negativo de 0,2%. Mas a convicção forjada pelos operadores da política econômica do final do governo Lula e dos dois anos do governo Dilma é de que o País tem condições de crescer no mesmo ritmo observado naquele melhor qüinqüênio (2004-2008), não obstante a clara adversidade da situação externa, desde a crise financeira de 2008.

 

Dois fatores ligados à inserção externa da economia brasileira de certa forma configuram a situação relativamente estagnada da economia brasileira neste ano que se encerra: 1) o saldo de comércio externo vem diminuindo cada vez mais rapidamente (cerca de 15,7 bilhões de dólares até setembro), enquanto que, no mesmo período, o déficit em “Serviços”, de 52,0 bilhões de dólares, se amplia de forma crescente, mas com sinal obviamente negativo; isto nos levará em 2012 ao quinto ano consecutivo de déficit nas transações externas, provavelmente acima dos 50,0 bilhões de dólares, que é a média do último triênio; 2) o investimento privado tem caído nos últimos três trimestres do ano, não obstante repetidas medidas governamentais de desoneração – previdenciária, tributária e, agora, de tarifa elétrica.

 

Por outro lado, do ponto de vista das inovações promovidas pelo governo Dilma na política macroeconômica, além das desonerações já referidas, deve-se destacar a queda dos juros internos, puxada pela ação ostensiva do Banco Central (a taxa SELIC caiu continuamente – de 12,5% a.a em julho de 2011 para 7,25 em outubro de 2012), e ainda pela ação dos bancos públicos no crédito direto. Este último ainda continua, contudo, muito caro, segundo padrões internacionais.

 

Outra mudança importante foi, de certa forma, o relativo abandono do regime do câmbio flutuante, com sua forte contaminação à sobrevalorização do real face às políticas monetárias expansionistas do dólar e do euro. Foi substituído virtualmente por uma espécie de “banda de flutuação”, admitida entre 2,0 e 2,20 reais por dólar. Tudo isto virtualmente, não oficialmente, mas efetivo do ponto de vista operacional da política cambial.

 

Mas o arranjo das desonerações, combinado com juros cadentes e câmbio regulado para pequena desvalorização do real (relativamente à situação pré-existente), não tem sido capaz de reanimar o investimento privado, particularmente da indústria de transformação.

 

Por sua vez, do ponto de vista do investimento público, o filão central do PAC – setor petróleo e setor elétrico - defronta-se com distintos problemas de regulação de tarifas, que também são obstáculos para a aceleração dos investimentos. No primeiro caso, a defasagem dos preços dos combustíveis importados face aos preços internos semicongelados, drenando recursos da Petrobrás. No segundo caso, a renegociação de contratos de concessão vencidos na geração hidroelétrica de vários estados, provocando conflitos na política de redução tarifária do governo federal. Esta se destina explicitamente a favorecer a indústria e os consumidores finais, mas afeta o padrão de rentabilidade até aqui desfrutado pelos monopólios estatais e privados do setor elétrico, que reagem.

 

O governo Dilma aposta para 2013 colher os frutos do arranjo macroeconômico de crescimento que esculpiu em 2012, mantendo o tripé desonerações, juros baixos e câmbio semifixo (ou semiflutuante); e ainda contando com o efeito calendário para acelerar obras da Copa do Mundo e das Olimpíadas.

 

Mas deve-se advertir que esse arranjo tem efeitos negativos para as políticas sociais, por conta da forte desoneração previdenciária.Também podem surgir efeitos negativos sobre o mercado de trabalho, caso se repita pelo terceiro ano consecutivo o baixo crescimento dos anos anteriores.

 

Face ao quadro vigente de incerteza econômica, previsões são de baixa eficácia, mas a aposta de que haverá crescimento comparativamente maior em 2013 é racionalmente aceitável. O que não muda, porque não é perseguido pela política econômica, nem pelos mercados organizados, é o padrão de inserção externa da economia brasileira e o grau de dependência a este associado.

 

Guilherme Costa Delgado é doutor em Economia pela UNICAMP e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.

Comentários   

0 #1 ErrataJoão Pedro Alencar 27-12-2012 10:16
Gostei do texto, sr. Guilherme Costa Delgado.
Só uma observação, logo no início do texto: o crescimento de 2,7% foi no ano passado - 2011 - e não 2012.

Atenciosamente,
João Pedro.
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